Algumas pessoas começam a escrever quando descobrem os livros. Bruno Wonder começou a escrever antes de descobrir os livros e muito antes de aprender a juntar letras, ele já inventava histórias. Como ainda não sabia escrever, tentava desenhá-las. A imaginação veio primeiro. A escrita apareceu depois, quase como uma ferramenta para registrar um universo que já existia dentro dele.
Em entrevista ao Pittaplay, o autor de O Cetro de Minerva relembra que foi a alfabetização que finalmente permitiu transformar fantasia em narrativa: “Passei bastante tempo criando sem ter meios para registrar minhas criações. O desenho não foi suficiente e logo deixei de lado. Quando fui alfabetizado, aos sete anos, a primeira coisa que fiz foi escrever um conto sobre um garoto e uma cabra que enfrentavam bandidos.”
Embora hoje publique livros, Bruno acredita que a maior diferença entre aquela criança e o escritor que se tornou está menos na imaginação e mais na capacidade de dar forma às histórias: “A diferença mais relevante é a habilidade de manipular a forma como a história é registrada. Infelizmente, os julgamentos que sofri por ser reservado e passar muito tempo criando fantasias não me deixaram.”
Essa necessidade de contar histórias nunca desapareceu. Aos dez anos criou um grupo de teatro com amigos do bairro, mais tarde tornou-se ator e, aos 21, encontrou na sala de aula um novo espaço para transformar narrativas em aprendizado: “Fui professor por quase vinte anos. O ritual de educar através de histórias sempre me encantou. Em 2018, quando ficou evidente que a educação havia falhado, na minha opinião, decidi escrever e tudo deu certo.”
Quando a fantasia nasce do luto
Embora O Cetro de Minerva seja uma fantasia urbana, seu ponto de partida nasce de uma experiência profundamente real. Na trama, a morte do maior mago do Brasil desencadeia todos os acontecimentos da história. Bruno revela que essa escolha surgiu a partir de um luto que nunca conseguiu viver completamente.
“Em 2006, a tia responsável por criar em mim o hábito da leitura faleceu e eu não fui convidado para o velório. Descobri muito tarde. Esse luto negado se tornou um fardo emocional até que consegui transformá-lo em literatura.”
Segundo ele, a morte do Bruxo Celestino representa exatamente esse momento de ruptura: “Foi através da morte da pessoa responsável pela magia da minha vida que percebi que as regras do mundo que eu acreditava conhecer já não faziam sentido.”
Uma protagonista que cresce porque precisa

Ao contrário de muitos romances fantásticos, Penélope não nasce destinada a salvar o mundo. Ela simplesmente é obrigada a seguir em frente.
Para Bruno, essa escolha foi totalmente consciente: “Não acredito em grandes missões dadas às pessoas apenas por elas serem quem são. Gosto de protagonistas que fazem o seu melhor apesar de tudo, e não por causa de tudo o que recebem.”
Essa decisão também dialoga com o principal tema do romance. Mais do que magia ou investigação policial, Bruno afirma que queria escrever sobre amadurecimento: “Vejo muitos adultos tratando a maturidade como um peso. Achei interessante criar uma história onde crescer fosse libertador.”
Fantasia para olhar melhor para a realidade
Embora o livro apresente criaturas mágicas, bruxos e um universo fantástico, Bruno explica que nunca enxergou a fantasia como fuga. Pelo contrário: “A fantasia urbana desafia o leitor a olhar para a realidade com mais generosidade mágica. Acho que é o gênero dos inconformados com o estado das coisas.”
Essa mesma visão aparece na construção da protagonista, Penélope, uma garota trans cuja identidade nunca é transformada em sofrimento obrigatório: “Como pessoa racializada, me incomoda quando o preconceito se torna o protagonista da história. Não senti necessidade de justificar quem Penélope é ou criar conflitos apenas por ela ser uma garota trans.”
Para o autor, representatividade só faz sentido quando o personagem é lembrado pela própria humanidade.
Magia também pode corromper
Ao longo da entrevista, Bruno deixa claro que sua fantasia não procura apresentar respostas simples. Nem mesmo a magia.
Questionado sobre o que é mais perigoso, a magia ou quem acredita merecer controlá-la, ele responde com uma metáfora que sintetiza todo o livro: “Controlar forças da natureza cria uma ilusão de controle sobre aquilo que é imensurável. Quando Penélope tenta enxergar além do que seus sentidos permitem, também passa a ser observada além do que gostaria de revelar sobre si.”
No fim das contas, O Cetro de Minerva fala sobre bruxos, investigações e criaturas fantásticas. Mas Bruno Wonder espera que seus leitores encontrem algo ainda maior entre essas páginas: “A aceitação da maturidade como algo positivo.”
