Elísio Lopes Jr. revela como A Nobreza do Amor aproxima o Brasil de hoje da década de 1920

Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, Elísio Lopes Jr. fala sobre Jendal, representatividade, escrita coletiva e explica como A Nobreza do Amor busca dialogar com o Brasil de hoje. Foto: Fabio Rocha/Globo.

Foto: Globo/Fábio Rocha.

A série de entrevistas exclusivas do Pittaplay com os autores de A Nobreza do Amor chega ao fim com conversa que ajuda a compreender o propósito da novela. Depois de Duca Rachid comentar os próximos acontecimentos da trama e Júlio Fischer revelar os bastidores da criação dos capítulos, Elísio Lopes Jr. explica como a obra procura estabelecer pontes entre o Brasil retratado na ficção e o país de hoje. Para ele, a novela não existe apenas para entreter, mas também para provocar identificação, reflexão e diálogo com questões que continuam presentes na sociedade.

Um dos personagens que melhor sintetizam essa construção é Jendal, interpretado por Lázaro Ramos. Embora seja um homem movido pela ambição e pelo desejo de poder, Elísio explica que o antagonista encontra sua verdadeira complexidade exatamente naquilo que não consegue controlar: “Jendal é reflexo da tirania, personagem que fala sobre o adoecimento que a gana de poder pode provocar no ser humano. Nosso vilão nasce da inveja, do desejo de ser o rei, de ocupar um lugar que não é seu por direito, e tudo que ele é capaz de fazer para isso”. 

O autor segue contando que a riqueza e a complexidade deste vilão vem de elemento que não foi planejado: “Nenhum poder é mais importante para Jendal do que o amor de Alika. Ele quer que ela o admire, o respeite, ele quer Alika. Essa é sua obsessão e exatamente por isso, Alika se torna seu ponto frágil”.

O autor também elogia a construção feita por Lázaro Ramos, responsável por viver seu primeiro grande antagonista na televisão: “Lázaro é um ator maduro, ele borda o personagem pelas brechas, ele se detém exatamente na riqueza das lacunas de Jendal. Ele faz com que cada cena seja exercício de investigar o personagem, entender suas motivações. É um prazer escrever pra ele, e vivenciar essa construção”.

Dôra dialoga com o Brasil de hoje

Outro núcleo que tem chamado atenção do público é o de Dôra, interpretada por Vitória Rodrigues. Ao abordar identidade racial e pressão estética, a novela estabelece diálogo direto com experiências que atravessam gerações de mulheres negras. Segundo Elísio, essa conexão com o presente é uma escolha consciente dos autores.

“Eu, Duca e Júlio estamos escrevendo uma novela para nossa época. O que nos interessa é construir pontes entre o público de hoje e a época que a novela retrata. Nos interessa dialogar com o nosso tempo e buscamos fazer isso com todas as tramas. Dôra, a primeira-dama, tem sua história revelada aos poucos”.

O roteirista fala que as motivações Dôra que fazem ela não se identificar com seu cabelo e que para estar ‘digna’ precisa estar alisada, é uma dor que atravessa as mulheres negras desde sempre: “Tenho memória da minha irmã sentada do lado do fogão, e minha mãe alisando o cabelo dela pra ir pra escola. São vivências muito brasileiras e que por isso chamam a atenção do público. A escrita precisa ser feita assim, com o desejo de falar com o público, sobre questões que fazem parte da nossa história”.

Para Elísio, representar o Brasil também passa pela diversidade de quem escreve essas histórias. Ao comentar a construção de personagens negros, ele afirma que o combate aos estereótipos começa ainda nos bastidores das produções: “A única forma de fugir dos estereótipos é investir em olhares diversos na escrita e na direção das produções. Não tem outro caminho”.

O autor reforça que as vozes precisam ser ouvidas: “Precisamos de homens, mulheres, negros, brancos, indígenas, trans, pcd´s, precisamos ouvir as histórias que cada um tem pra contar, entender as motivações de dentro pra fora e levar ao ar tramas que se pareçam com as nossas vivências. No caso da pauta racial, ela precisa vir junto com a preocupação de humanizar todas as existências brasileiras. Só assim teremos orgulho de sermos esse povo misturado, o povo que mantém esse país de pé”.

Três apaixonados pelo ofício

Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr. assinam o roteiro de A Nobreza do Amor e conduzem, em conjunto, a construção da novela das seis da Globo. Foto: Globo/Fábio Rocha.
Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr. assinam o roteiro de A Nobreza do Amor e conduzem, em conjunto, a construção da novela das seis da Globo. Foto: Globo/Fábio Rocha.

Na entrevista, o autor também falou sobre a parceria construída com Duca Rachid e Júlio Fischer ao longo de duas novelas consecutivas. Segundo ele, a convivência diária e o compromisso compartilhado com a história explicam a sintonia do trio: “Duca e Júlio são grandes mestres não só de ofício, de vida. Tenho convívio diário de muitas horas com eles, nós criamos juntos, partilhamos ideias, não concordamos com tudo, mas é exatamente dessa pluralidade que nasce a riqueza”.

Elísio diz aprender diariamente com seus colegas de trabalho: “Me questiono, reciclo meu olhar, e vamos juntos porque temos em comum o amor ao que fazemos e o desejo de oferecer o melhor ao público. Tem uma coisa que é ótima, somos os três obsessivos pelo nosso trabalho. Dizemos internamente: ‘Aqui ninguém larga o osso!’ Não fazemos nada por menos, estamos integralmente mergulhados na contação de A Nobreza do Amor. E eu não sei como é possível fazer diferente disso. Escrever uma história tão longa, com tantos personagens, que chega à casa de tantas pessoas com essa responsabilidade, só é possível com amor e devoção. E nós três somos extremamente devotos ao nosso ofício”.

Encerrando a conversa, Elísio resume a visão que orienta não apenas A Nobreza do Amor, mas o próprio papel da ficção na sociedade. Para ele, contar histórias também é forma de ensinar, provocar reflexão e fortalecer identidades: “Acredito que as histórias nos ensinam como viver. A melhor forma de aprender é vivendo, observando. A ficção pode curar, pode tocar em pontos escondidos, pode apenas emocionar ou divertir, e nada disso é menor. Não existe identidade sem arte”.

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