Jeniffer Nascimento encontra em Nancy o desafio de ser muitas sem deixar de ser uma

Jeniffer Nascimento fala ao Pittaplay sobre a construção de Nancy em Quem Ama Cuida, a parceria com Adriana e o desejo de interpretar uma grande vilã.

Foto: Globo/ Beatriz Damy

Nancy entrou em Quem Ama Cuida carregando no corpo a necessidade de sobreviver. Na prisão, endureceu a fala, a postura e a maneira de reagir ao mundo. Quando a novela avançou no tempo, Jeniffer Nascimento precisou encontrar outra mulher dentro daquela que havia apresentado ao público: uma mãe afetuosa, tentando recuperar os anos perdidos com o filho e reconstruir a própria identidade depois do cárcere e de um relacionamento abusivo. Agora, uma terceira face começa a ocupar espaço. Ao lado de Adriana (Leticia Colin), Nancy descobre como exercer poder.

É nessa transformação constante que Jeniffer encontra o maior desafio da personagem que considera a mais difícil de sua trajetória. Em entrevista ao Pittaplay, a atriz conta que recebeu apenas os primeiros 16 capítulos quando aceitou o papel e ainda desconhecia boa parte do caminho que seria percorrido por Nancy. Sua preparação começou, portanto, pela mulher que precisou criar uma proteção para sobreviver na prisão: “Um grande aprendizado que tenho tido com a Nancy e um grande desafio é entender que, assim como as pessoas na vida real, os personagens não são uma coisa só”, afirma.

A percepção se tornou ainda mais importante quando chegaram os capítulos da segunda fase. Jeniffer descobriu que precisaria diminuir a rigidez que havia marcado a apresentação da personagem para revelar quem Nancy era antes das experiências que mudaram sua vida: “Lembro quando conversei com a Amora [Mautner, diretora artística da novela], ela falou assim: ‘Olha, agora a gente vai conhecer o lado da Nancy antes de entrar nesse inferno de um relacionamento abusivo e esse pesadelo que foi a cadeia. Agora a gente vai ver a mãe mais doce do mundo, que fez isso movida pelo amor que ela tinha pelo seu filho’”, recorda.

Com Camilo, Nancy recupera uma parte de quem era

A mudança aparece principalmente quando Nancy está diante de Camilo. Jeniffer precisava sustentar a mulher que aprendeu a se defender sem levar a mesma postura para uma relação em que a fragilidade vinha do desejo de recuperar o lugar de mãe.

Para construir esse comportamento, a atriz encontrou uma imagem bastante específica e pensou Nancy diante do filho como um aluno que procura constantemente a aprovação da professora, sempre querendo saber se está fazendo tudo certo. A culpa surge porque a personagem reagiu para proteger a própria vida e também a do menino, mas pagou por isso sendo afastada dele durante anos: “Ela agiu em legítima defesa para não morrer, mas acabou sofrendo uma morte social, sendo privada de ver o filho crescer, de estar com o filho”, explica Jeniffer.

A doçura que aparece nessa relação recupera, segundo ela, uma parte de Nancy que sobreviveu às experiências posteriores: “Ela com o filho é a parte da Nancy antiga que não morreu”, define.

Essa reconstrução também passa pela relação com Mirtes, responsável por cuidar de Camilo durante a ausência da mãe biológica. Jeniffer conta que sua escolha inicial foi tratar essa convivência com delicadeza, reconhecendo a dívida afetiva de Nancy com a mulher que assumiu os cuidados da criança. Conforme Mirtes demonstra dificuldade em abrir mão desse lugar, porém, o conflito ganha outra dimensão.

A pesquisa levou Jeniffer para além da personagem

A preparação para Nancy também aproximou Jeniffer de histórias de mulheres que passaram pelo sistema prisional depois de reagirem à violência. A atriz assistiu a documentários, participou de laboratórios e conversou com egressas que haviam agido em legítima defesa.

Foi nesse contato que uma questão passou a acompanhá-la com maior força: o que acontece depois que essas mulheres deixam a prisão?

Jeniffer ouviu relatos de rompimentos familiares, dificuldades para retornar ao mercado de trabalho e da permanência de um julgamento social que frequentemente desconsidera as circunstâncias anteriores ao crime. Para ela, representar Nancy exigia compreender esse percurso e levá-lo à televisão com responsabilidade: “Sabia que não era só uma personagem. Quando a gente faz novelas realistas, a gente tem uma responsabilidade social”, afirma.

A experiência também levou a atriz a ampliar a discussão para suas redes sociais. Durante a exibição da novela, passou a relacionar situações vividas por Nancy com experiências reais e divulgar projetos voltados à reinserção de mulheres que sofreram violência doméstica.

Nancy entra “nas trincheiras” por Adriana

Jeniffer Nascimento fala ao Pittaplay sobre a construção de Nancy em Quem Ama Cuida, a parceria com Adriana e o desejo de interpretar uma grande vilã.
Jeniffer Nascimento fala ao Pittaplay sobre a construção de Nancy em Quem Ama Cuida, a parceria com Adriana e o desejo de interpretar uma grande vilã. Foto: Beatriz Damy/Globo.

Se a maternidade recuperou a vulnerabilidade de Nancy, sua aproximação com Adriana permitiu que outra característica ganhasse força. As duas se conheceram na prisão e construíram uma amizade que continuou depois da liberdade. Agora, Nancy participa diretamente do plano que coloca a protagonista novamente diante daqueles que a fizeram ser condenada injustamente.

Jeniffer entende que a fidelidade da personagem também nasce de uma identificação. Ao ajudar Adriana, Nancy encontra uma forma de lidar com a própria sensação de injustiça: “No fundo, Nancy também se sente injustiçada tanto quanto Adriana. Ela foi só salvar a própria vida. Então, de alguma forma, ela ajudar a Adriana fazer justiça tem realização pessoal, de alguma forma ela também está conseguindo fazer justiça por ela, já que ela não teve isso”, analisa.

A atriz reconhece que a escolha coloca Nancy em posição delicada. Ela ainda está em liberdade condicional e passa a circular por um plano que pode produzir consequências imprevisíveis. Mesmo assim, Jeniffer vê a personagem comprometida com a amiga: “Acho que ela já está cegamente nas trincheiras pela Adriana”.

A chegada à Joalheria Brandão também representa uma virada para Jeniffer

Essa parceria terá um de seus momentos mais importantes quando Adriana retornar à Joalheria Brandão para revelar sua nova posição dentro da empresa. Nancy estará ao lado dela na sequência, participação que Jeniffer não sabia que aconteceria quando começou a acompanhar o desenvolvimento do plano.

A atriz demonstra expectativa particular pela cena e acredita que ela estará entre os momentos emblemáticos de Quem Ama Cuida. Mas existe outra conquista acontecendo ali, desta vez fora da trajetória de Nancy: “Enquanto atriz, eu não tinha tido oportunidade até então de fazer uma personagem rica, poderosa e bem posicionada na sociedade”, conta Jeniffer.

A atriz reflete que para Nancy, ocupar esse ambiente permite descobrir como utilizar uma força que já possuía, mas que anteriormente estava associada à sobrevivência. Para Jeniffer, significa mostrar ao público e ao mercado que seu trabalho também pode ocupar personagens construídas a partir desses lugares sociais: “Para que o mercado e o público enxerguem que, enquanto atriz, eu também posso representar esses papéis, por mais que estruturalmente a sociedade não pense tanto na gente ainda para isso”, afirma.

A transformação ajuda a compreender o percurso que Jeniffer procura preservar em cena. A Nancy da prisão marcava território porque precisava sobreviver. A mãe que reencontra Camilo permite que a defesa diminua diante do filho. Na Joalheria Brandão, surge uma mulher capaz de marcar território novamente, agora a partir de outra posição: “Agora a gente vê Nancy que já tem um pouco mais dessa marcação de território num lugar de poder, mas sem a violência”, explica. “Para mim, o desafio é sempre manter a unicidade da personagem diante de tantas personalidades.”

Jeniffer Nascimento quer interpretar uma grande vilã

A experiência com Nancy também ampliou aquilo que Jeniffer deseja encontrar nos próximos trabalhos. Depois de viver Dita e assumir uma personagem que considera especialmente desafiadora em Quem Ama Cuida, a atriz já sabe qual território gostaria de explorar: “Tenho muita vontade de fazer uma vilã. Acho que a gente não tem na teledramaturgia uma vilã preta tão emblemática como a gente tem de tantas atrizes brancas. Acho que falta e eu adoraria ter a oportunidade de fazer uma grande vilã. Quem sabe numa novela das nove”, afirma.

Jeniffer também deseja protagonizar uma novela das nove, independentemente de chegar a esse espaço como mocinha ou antagonista, e planeja ampliar a carreira para produções internacionais. A atriz fala outros idiomas e vê nessa preparação uma possibilidade de trabalhar fora do Brasil.

Enquanto esses papéis ainda pertencem ao futuro, Nancy permite que Jeniffer apresente agora uma personagem que muda conforme o espaço que ocupa sem perder a história que carrega. A prisão exigiu dureza, o reencontro com Camilo recuperou a mãe que havia sido interrompida e a parceria com Adriana apresenta uma mulher aprendendo a transformar força em poder. É nessa continuidade entre mulheres aparentemente tão diferentes que Jeniffer encontra o trabalho que deseja sustentar: fazer com que todas elas continuem sendo Nancy.

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