Quem Ama Cuida: cena de Adriana e Otoniel mostra que a casa também pode ensinar a ferir

Adriana não tenta vencer uma discussão. Ela tenta abrir espaço para que Otoniel escute. Foto: Reprodução/Globoplay.

Há muito tempo a televisão brasileira compreendeu que preconceito não nasce apenas de pessoas cruéis. Em Quem Ama Cuida, Walcyr Carrasco e Claudia Souto entendem isso com sensibilidade ao construir Otoniel. O personagem de Tony Ramos não foi escrito para ser odiado. Foi escrito para ser reconhecido. E talvez aí esteja um dos maiores acertos desse arco dramático.

Otoniel ama a família, sofre pela filha, protege os netos, se preocupa com o futuro de todos e, ao mesmo tempo, reproduz comportamentos profundamente homofóbicos. Não existe contradição nisso. Existe humanidade. Ele representa um tipo de homem formado por uma geração que aprendeu a enxergar masculinidade como regra, comportamento e obrigação. Cresceu acreditando que determinadas roupas, gestos, interesses e maneiras de falar pertencem a um único modelo de homem. Nunca foi levado a questionar isso e, por consequência, também nunca aprendeu a ouvir quem vive diferente.

Tony Ramos entende esse homem como poucos. Sua interpretação jamais transforma Otoniel em caricatura ou em um antagonista simplista. Pelo contrário. Ele lhe empresta afeto, fragilidade, culpa, cansaço e amor. Tudo isso torna suas falas ainda mais difíceis de assistir, justamente porque lembram pessoas que existem fora da televisão. Otoniel é o avô de muitos brasileiros. É o tio, o pai, o vizinho. Não é uma exceção. É parte da realidade.

A violência começa muito antes da grande rejeição

A sequência desta quinta-feira (23) não nasce na discussão da cozinha. Ela vem sendo construída há semanas. Primeiro, Otoniel corrige a maneira como Mau Mau se senta. Depois, implica com seu jeito de falar. Critica o fato de cozinhar porque considera que “isso é coisa de mulher”. Em outro momento, reage com indignação ao descobrir que o neto está lendo um livro de temática LGBTQIA+. Agora, a implicância surge por causa de uma camiseta.

Nenhum desses episódios, isoladamente, parece suficiente para expulsar alguém de casa. Mas juntos eles constroem uma mensagem permanente: “você não pode ser quem é.” É assim que a violência cotidiana costuma acontecer. Ela raramente chega em um único episódio explosivo. Vai se acumulando em pequenas correções, comentários, olhares e constrangimentos que, pouco a pouco, ensinam alguém a esconder partes de si.

O espelho nunca falou sobre uma camiseta

Antes de qualquer palavra, veio o espelho. O sorriso de Mau Mau diante do próprio reflexo transforma uma simples camiseta em símbolo de identidade, pertencimento e do direito de gostar de quem se vê. Foto: Reprodução/Globoplay.
Antes de qualquer palavra, veio o espelho. O sorriso de Mau Mau diante do próprio reflexo transforma uma simples camiseta em símbolo de identidade, pertencimento e do direito de gostar de quem se vê. Foto: Reprodução/Globoplay.

Antes mesmo da discussão acontecer, a novela entrega uma das imagens mais bonitas da sequência. Adriana dá ao irmão uma camiseta que não usa mais. Mau Mau veste a roupa, olha para o espelho e sorri.

À primeira vista parece um momento simples. Não é. O espelho ocupa historicamente um lugar simbólico nas narrativas porque representa identidade. Diante dele não enxergamos apenas o corpo. Enxergamos quem somos, quem gostaríamos de ser e, muitas vezes, quem acreditamos que o mundo nos permite ser.

Quando Mau Mau sorri para o próprio reflexo, aquela cena deixa de ser sobre uma camiseta. Ela passa a falar sobre reconhecimento. Pela primeira vez, ainda que por poucos segundos, ele se vê confortável consigo mesmo. O conflito que vem logo depois deixa de discutir uma peça de roupa e passa a discutir a legitimidade dessa identidade.

Adriana entende que a história do irmão pertence apenas a ele

Sem levantar a voz, Adriana faz o avô olhar para dentro de si. Foto: Reprodução/Globoplay.
Sem levantar a voz, Adriana faz o avô olhar para dentro de si. Foto: Reprodução/Globoplay.

Quando Otoniel humilha Mau Mau durante o jantar, Adriana imediatamente o defende. Mais tarde, já com os dois a sós, ela faz algo ainda mais inteligente. Em nenhum momento Adriana fala sobre a sexualidade do irmão. Ela não diz que Mau Mau é gay. Não tenta explicar quem ele é. Não antecipa uma conversa que pertence exclusivamente a ele.

Essa escolha dramatúrgica demonstra enorme respeito pelo personagem. A identidade de Mau Mau continua sendo dele. O papel de Adriana não é revelá-la. É garantir que exista espaço para que um dia ele possa fazê-lo sem medo. Por isso ela conduz a conversa por outro caminho e pergunta ao avô quantas vezes ele ouviu que homem não chora. Depois lembra quantas vezes já o viu chorar.

É uma inversão brilhante. Sem levantar a voz, Adriana desmonta a ideia de masculinidade rígida usando o próprio Otoniel como exemplo. Ela não o enfrenta. Ela o convida a se olhar e curiosamente, depois do espelho físico de Mau Mau, é Otoniel quem passa a encarar um espelho emocional.

Proteger também pode significar machucar

Talvez o momento mais delicado da sequência aconteça quando Otoniel admite que age daquela maneira porque acredita estar protegendo o neto. Ele sabe que a sociedade julga, que a violência existe e que o preconceito machuca. Sua conclusão, porém, é equivocada: acredita que, se Mau Mau mudar dentro de casa, sofrerá menos quando sair para o mundo.

Essa lógica não absolve sua homofobia. Mas explica sua origem e dramaturgia madura faz exatamente isso: explica sem justificar. Otoniel continua errado. Continua reproduzindo violência. Mas deixa de ser um personagem unidimensional para se tornar alguém preso às próprias convicções, incapaz de perceber que sua tentativa de proteção produz exatamente o sofrimento que gostaria de evitar.

A primeira proteção deveria morar dentro de casa

Talvez a maior força da conversa entre Adriana e Otoniel esteja justamente no que ela nunca verbaliza. Nas entrelinhas, ela lembra ao avô que o mundo inevitavelmente será hostil com Mau Mau. O preconceito continuará existindo quando ele atravessar a porta de casa. A diferença é que, se também encontrar rejeição dentro da própria família, não haverá lugar para onde voltar.

Toda pessoa precisa saber que existe espaço seguro quando a violência do lado de fora se tornar insuportável. É isso que Adriana tenta ensinar. Antes de preparar alguém para enfrentar o mundo, é preciso garantir que ele seja acolhido dentro da própria casa.

Um nó na garganta vale mais do que uma mudança instantânea

Entre o afeto e o preconceito, a novela constrói um dos diálogos mais humanos e importantes de Quem Ama Cuida. Foto: Reprodução/Globoplay.
Entre o afeto e o preconceito, a novela constrói um dos diálogos mais humanos e importantes de Quem Ama Cuida. Foto: Reprodução/Globoplay.

A sequência termina sem grandes discursos e sem uma transformação milagrosa. Otoniel apenas diz que está com um nó na garganta. É pouco e por isso é tão verdadeiro. Ninguém abandona décadas de formação depois de uma única conversa. Mudanças profundas costumam começar pelo desconforto, seguem pela dúvida e só muito depois alcançam a transformação.

Walcyr Carrasco e Claudia Souto resistem à tentação de oferecer uma solução imediata. Preferem algo mais difícil e muito mais honesto: mostrar um homem incapaz de sustentar suas próprias certezas com a mesma segurança de antes.

Esse nó na garganta talvez seja o primeiro passo de Otoniel. E talvez também seja o primeiro passo de muitos espectadores. Se algum avô terminou o capítulo pensando um pouco diferente do que pensava antes, a novela já cumpriu uma função importante. Se algum Mau Mau se reconheceu naquele sorriso diante do espelho e encontrou algum conforto ao perceber que não está sozinho, ela cumpriu outra ainda maior.

As novelas sempre tiveram a capacidade de entrar nas salas das casas brasileiras. Mas poucas conseguem fazer isso sem apontar culpados fáceis ou oferecer respostas prontas. Quem Ama Cuida escolheu um caminho mais complexo: mostrar que o preconceito também mora em pessoas que amam, e que o amor, sozinho, não basta quando não existe escuta.

Talvez o maior mérito dessa sequência seja justamente esse. Não transformar Otoniel em outro homem de uma hora para outra, mas permitir que ele e tantos outros do lado de cá da tela descubram que algumas certezas também podem começar a rachar pelo silêncio de um nó na garganta.

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