Xamã domina a tela e prova que Bagdá é um dos melhores personagens de Três Graças

Xamã já não é apenas uma aposta, é uma presença consolidada na teledramaturgia atual. (Foto: Divulgação/Globo)

Xamã entrega em Três Graças um trabalho que vai muito além da expectativa inicial que poderia cercar sua escalação. Como Bagdá, o chefe da Chacrinha, ele constrói um personagem que poderia facilmente cair na caricatura do vilão autoritário, mas escolhe o caminho mais complexo: o da humanidade.

Bagdá é duro, impõe medo, dita regras, mas é, antes de tudo, um homem atravessado por mágoas. A ferida aberta com o pai aparece em nuances, nunca mastigada, e Xamã trabalha essa dor nas entrelinhas. Ele ousa nas camadas emocionais, segura o olhar por meio segundo a mais, deixa a respiração denunciar o que o texto não diz. É composição consciente.

Uma das cenas mais emblemáticas é quando Bagdá observa Jorginho (Juliano Cazarré) brincando e conversando com Joely (Alana Cabral). Ali, sem grandes falas, o ator revela o menino que não teve aquele momento, o filho que queria ter sido visto. É transmissão de sentimento pura. O espectador entende tudo sem que nada precise ser explicado. Isso é maturidade cênica.

Na sequência da morte de Jorginho, Xamã reafirma sua potência dramática. O todo-poderoso da Chacrinha, que aos olhos do povo parece inabalável, surge em seu estado mais vulnerável. O corpo pesa, o olhar perde o eixo, a voz falha. Não há excesso. Há verdade. É atuação com presença, domínio de espaço e consciência de ritmo.

Xamã preenche a tela. Ele não interpreta Bagdá apenas na superfície, ele parece ter estudado a gênese do personagem, compreendido suas cicatrizes, incorporado suas contradições. O resultado é um antagonista que deixa de ser apenas função narrativa e se transforma em personagem com densidade real.

O texto de Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva oferece material rico, cheio de conflito e tensão, e a direção de Luís Henrique Rios potencializa cada embate, criando o espetáculo que chega à casa do público. Mas é na entrega de Xamã que Bagdá ganha carne, osso e emoção.

Que o personagem cresça ainda mais na trama. E que Xamã siga surpreendendo. Ele já não é apenas uma aposta, é uma presença consolidada na teledramaturgia atual.

(Foto: Divulgação/Globo)

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *