Daphne Bozaski devolve ao público o prazer de odiar uma vilã com Lucélia de Três Graças

Faltava a personagem que atravessa a tela e causa incômodo real. E é exatamente isso que Daphne Bozaski entrega com sua Lucélia em Três Graças.

Há algo que andava em falta nas novelas: a experiência genuína de odiar uma vilã. Não aquele ódio irônico que vira meme, não a vilã “icônica” que cai nas graças do público e ganha torcida organizada nas redes sociais. Faltava a repulsa. Faltava a personagem que atravessa a tela e causa incômodo real. E é exatamente isso que Daphne Bozaski entrega com sua Lucélia em Três Graças.

Daphne é, sem exagero, uma das melhores atrizes de sua geração. Seu trabalho é técnico, visceral e, acima de tudo, consciente. Lucélia é inconveniente, cínica, sem filtro, e a atriz não suaviza essas camadas para torná-la palatável. Pelo contrário: ela potencializa cada traço desagradável com precisão cirúrgica. O olhar enviesado, a pausa venenosa antes de uma frase cruel, o sorriso enviesado que antecede uma humilhação pública. Tudo é calculado e, ao mesmo tempo, orgânico.

Em tempos em que vilãs costumam ser “amadas”, transformadas em gifs e bordões, Lucélia incomoda. Ela não quer ser carismática. Não quer ser compreendida. Quer vencer, mesmo que precise atropelar afetos e princípios. E essa construção só funciona porque Daphne sustenta a personagem sem piscadas para a plateia. Ela não pede desculpas por Lucélia existir.

É impossível não lembrar que estamos falando da mesma atriz que foi revelada como a delicada e singular Benê em Malhação: Viva a Diferença, e que também conquistou o público como a expansiva Lupita em Família é Tudo.

O texto de Aguinaldo Silva, Zé Dassilva e Virgílio Silva resgata essa vilania mais crua, que provoca desconforto e reações viscerais. A direção artística de Luiz Henrique Rios amarra esse tom com firmeza, criando o ambiente ideal para que Lucélia floresça, ou melhor, contamine. É um casamento feliz entre texto, direção e atuação para a infeliz (e deliciosa) existência dessa peste chamada Lucélia.

Para quem é noveleiro raiz, há um sabor especial nisso. É muito bom perceber que ainda é possível odiar um personagem não por caricatura, mas pela potência da interpretação.

E quando uma atriz consegue fazer o Brasil inteiro cerrar os dentes diante da TV, é porque estamos diante de um trabalho grande.

Foto: Globo

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *