Dadado de Freitas transforma um beijo em pergunta sobre amor, política e liberdade

Dadado de Freitas analisa a direção de Essa Peça Tem Beijo Gay e fala sobre amor, censura, conservadorismo e a força das narrativas LGBTQIAPN+. Foto: Andrezza Mariot

Foto: Andrezza Mariot

Um beijo talvez seja uma das formas mais antigas e reconhecíveis de demonstrar afeto. Não precisa de explicação, tradução ou justificativa. Mas basta que determinados corpos se beijem para que aquilo que deveria pertencer à intimidade se transforme em julgamento, vigilância e, em alguns casos, interdição. É dessa contradição que Dadado de Freitas parte para dirigir “Essa Peça Tem Beijo Gay”.

Escrito e protagonizado por Leandro Fazolla e Rohan Baruck, o espetáculo acompanha um casal colocado diante de um conflito depois que a fotografia de um beijo circula pelas redes sociais. Se, na entrevista dos dois atores e dramaturgos ao Pittaplay, a experiência pessoal revelou como essa história nasceu, conversar com Dadado permite olhar para outra camada: como transformar uma questão tão política em linguagem teatral sem entregar respostas prontas ao público?

Para o diretor, a pergunta que acompanha a peça desde sua origem nunca encontrou uma resposta definitiva. Pelo contrário, tornou-se ainda maior durante o processo: “A pergunta principal continuou reverberando em todo o processo: por que um simples beijo, talvez o mais ancestral dos gestos de afeto, com diversas expressões em muitas sociedades, ainda pode ser um elemento de interdição do desejo nos tempos atuais. O beijo é só a ponta de uma discussão maior”.

É neste ponto que está a chave da encenação. O beijo provoca o conflito, mas olhar somente para ele significaria ignorar tudo aquilo que existe ao redor desses personagens.

O amor também é atravessado pela política

Dadado não tenta separar a intimidade do casal da discussão política proposta pelo espetáculo. Para ele, seria impossível fazê-lo porque é justamente a interferência do mundo exterior que produz parte das tensões vividas pelos personagens.

Quando questionado sobre como equilibrar a dimensão política da obra com a humanidade de Pedro e João, o diretor inverte a lógica: uma coisa não existe apesar da outra. Uma constrói a outra: “O contorno destes personagens, o que lhes garante humanidade, é totalmente influenciado pela dimensão política. Sem essa dimensão o conflito deles sequer existiria. Esse é o cerne da questão. Nossas relações íntimas, em muitas esferas, são constantemente afetadas e influenciadas pela dimensão política da vida. E sem olhar pra isso eu sequer consigo começar a pensar em uma peça”.

A afirmação ajuda a compreender por que Essa Peça Tem Beijo Gay não utiliza o debate político como camada acrescentada posteriormente à história de amor. Ele está dentro dela. Aquilo que acontece socialmente determina como os personagens podem amar, demonstrar afeto, se proteger e ocupar determinados espaços. O pessoal e o político deixam, portanto, de ocupar lados diferentes da encenação.

Quando a vigilância política contamina a vida cotidiana

Essa relação ganha dimensão ainda mais preocupante quando Dadado observa o momento político contemporâneo. O diretor identifica no avanço do conservadorismo e da extrema direita em diferentes partes do mundo, com atenção especial à América Latina, um ambiente capaz de ultrapassar políticas institucionais e interferir diretamente nos comportamentos sociais.

“Vivemos momento delicado e extremamente perigoso em que o conservadorismo, principalmente na sua expressão política mais evidente, através das vozes de extrema-direita, chega novamente ao poder em várias partes do mundo. Especialmente na América Latina esse tem sido um movimento bastante visível”.

Para Dadado, as consequências não permanecem restritas aos governos: “É claro que o pensamento retrógrado vocalizado por estes movimentos não se restringe apenas às políticas de governos, o que já seria bastante grave. Essa ‘vigilância’ moral sobre os comportamentos dissidentes acaba contaminando todo o organismo social”.

O teatro também sente seus efeitos. A censura nem sempre precisa assumir a forma explícita de uma proibição. Ela pode surgir na resistência institucional, na dificuldade de circulação ou na maneira como determinados temas passam a ser tratados: “No teatro isso se reflete em possibilidade de censura ou, pelo menos, de hipersensibilidade a determinados temas e abordagens. Nossa peça mesmo tem alguma dificuldade de circulação institucional, com um título tão evidentemente claro sobre do que se trata”.

O título, nesse sentido, não apenas anuncia a peça, mas testa os espaços pelos quais ela tenta circular.

Nelson Rodrigues entra em cena para perguntar: até quando?

Há outro beijo atravessando a montagem. O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues, aparece como referência dramatúrgica, mas Dadado não está interessado simplesmente em reverenciar um clássico brasileiro.

Existe ironia nessa aproximação: “Esta escolha autoral tem algum caráter irônico. Muito para além de reverenciar o cânone e, sem dúvida, O Beijo no Asfalto é um primor da nossa dramaturgia, um dos textos mais sensacionais de todos os tempos, citá-lo é também renovar a pergunta de ‘até quando essa será uma questão?’”

A aproximação entre as duas obras evidencia uma permanência incômoda. Décadas depois da dramaturgia rodrigueana, o beijo ainda pode mobilizar sensacionalismo, moralismo e julgamento.

Mas Dadado também propõe outra forma de relacionar-se com um clássico. Em vez de aprisioná-lo às circunstâncias históricas nas quais foi produzido, interessa observar o que ele é capaz de revelar quando confrontado pelo presente: “Para mim, o movimento mais interessante quando olhamos para uma obra consagrada é submetê-la ao nosso tempo, olhar para ela não a partir das premissas da sua criação, mas de como ela dialoga com a nossa”.

E Nelson Rodrigues, justamente por carregar suas próprias contradições, torna-se particularmente fértil para essa discussão: “Nelson é o mais contraditório dos nossos autores: visionário e conservador. Cai como uma luva para nossa discussão”.

Quando corpos dissidentes passam a contar as próprias histórias

A relação de Dadado com essa discussão antecede o espetáculo. O diretor pesquisa há anos a cena dissidente e as representações LGBTQIAPN+, e identifica uma transformação importante acontecendo nos palcos: corpos historicamente tratados como objetos da narrativa passam a assumir também a autoria dessas histórias.

“Nos últimos anos estamos vivenciando uma muito bem-vinda mudança de perspectiva nos palcos, quando alguns corpos assumem sua verticalidade e se colocam nas suas autorias como protagonistas”.

Essa mudança, em sua análise, não se restringe aos artistas LGBTQIAPN+, “mas também pretos, sapatões, trans, PCDs, favelados, imigrantes, periféricos de modo geral estamos ocupando a cena”.

A questão deixa então de ser apenas quem aparece no palco e passa a envolver quem possui o direito de construir a narrativa: “O que falta, mas falta cada vez menos, é que a cena dissidente fale por si, através das suas próprias vozes. Quando pessoas LGBTQIAPN+, quando nós, as bichas, passamos a escrever sobre nós, somos capazes de tirar nossos personagens da subalternidade e dar a eles tridimensionalidade, complexidade e profundidade, como somos na vida”.

Em Essa Peça Tem Beijo Gay, essa autoria ganha força adicional porque Leandro e Rohan não observam o assunto de fora. São dois homens gays, um casal, escrevendo e interpretando personagens atravessados por questões que também reconhecem em suas próprias experiências.

Uma sala de ensaio construída por múltiplas vivências

Grande parte da equipe do espetáculo também é formada por profissionais LGBTQIAPN+. Para Dadado, essa configuração não significou buscar uma única percepção compartilhada sobre a experiência dissidente. Pelo contrário: significou permitir que diferentes experiências entrassem em confronto dentro do processo criativo.

Ao resumir como essas vozes interferiram na encenação, ele encontra uma imagem que explica também sua maneira de dirigir: “No caos gerado pela escuta sincera destas múltiplas vozes em processo, na sala, geramos novas harmonias. O espetáculo é fruto disso”.

A montagem não procura uniformizar experiências LGBTQIAPN+ nem sugerir que exista uma única resposta para os conflitos apresentados. A escuta das diferenças passa a fazer parte da própria construção da cena.

O diretor não quer entregar uma resposta

É justamente essa recusa a respostas fechadas que parece organizar a relação de Dadado com o espectador.

Se a peça começa perguntando “qual o problema de um beijo?”, seria tentador conduzir o público até uma conclusão perfeitamente formulada. Dadado prefere fazer o movimento contrário: “Um dos meus grandes desafios sempre, quando me deparo com uma dramaturgia já escrita, ou quando participo da criação delas, e também quando conduzo processos de encenação, é perceber se estamos entregando sentidos fechados e inequívocos, o que geralmente não me interessa, ou se estamos deixando brechas, lacunas, buracos pro público entrar e responder por si”.

Essa abertura não é um detalhe do processo. Para ele, é condição para criar e também o ponto em que a direção de Dadado mais diretamente encontra aquilo que Leandro Fazolla e Rohan Baruck propõem na dramaturgia. Pedro e João não existem para oferecer uma resposta confortável. Suas contradições obrigam a plateia a ocupar os espaços que permanecem abertos entre aquilo que um pensa, aquilo que o outro sente e aquilo que cada espectador leva consigo para o teatro.

Dadado deseja que alguma dessas frestas continue aberta quando as luzes se apagarem: “Espero que o público consiga cair em um destes buracos que cavamos. E que fiquem algum tempo tentando sair de lá”.

Esta é a melhor maneira de compreender Essa Peça Tem Beijo Gay pela perspectiva de quem a dirige. Dadado de Freitas não utiliza o teatro para responder por que um beijo entre pessoas do mesmo sexo ainda incomoda. Ele transforma o palco em espaço para tornar essa pergunta impossível de ignorar.

Porque, quando um gesto ancestral de afeto ainda precisa ser explicado, defendido ou autorizado, o problema nunca esteve no beijo.

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