Entre criador e criatura, Pergunte Alguma Coisa embaralha quem domina quem

Quem está aprendendo com quem? E em que momento aquilo que criamos começa a disputar poder conosco?

Pergunte Alguma Coisa começa estabelecendo imediatamente a sintonia entre Daphne Bozaski e Gabriela Medvedovsky. As atrizes alternam os papéis a cada apresentação, mas, na sessão que assisti, Gabriela interpretava a humana diante da inteligência artificial vivida por Daphne. Essa possibilidade de inversão já diz muito sobre uma peça interessada em embaralhar as fronteiras entre quem cria, quem aprende e quem, afinal, passa a exercer poder sobre o outro.

O texto de Gustavo Pinheiro é perspicaz ao partir de temática tão atual que praticamente ninguém está ileso dela. A inteligência artificial já está assustadoramente próxima, acumulando informações sobre nossos comportamentos, desejos, fragilidades e formas de comunicação. A dramaturgia compreende esse presente sem transformar o palco em palestra sobre tecnologia. Pelo contrário: coloca humana e máquina em permanente conflito sobre quem sabe mais, quem conhece melhor o outro e, sobretudo, quem pode exercer domínio sobre quem.

O texto exige muito das duas atrizes. Daphne encontra composição precisa para a inteligência artificial sem recorrer à representação óbvia de um robô. Sua entonação, o ritmo das respostas e principalmente a observação do comportamento da personagem de Gabriela constroem uma IA cuja principal ferramenta é a réplica. Ela analisa para reproduzir. Aprende enquanto observa.

Em determinado momento, Daphne repete discretamente um gesto feito anteriormente por Gabriela. Pode passar despercebido, mas concentra uma das ideias mais interessantes da encenação: enquanto o humano simplesmente existe, a máquina está aprendendo com ele. A repetição corporal deixa de ser apenas um recurso de interpretação e passa a materializar no palco aquilo que a inteligência artificial faz durante todo o espetáculo.

Gabriela, por sua vez, precisa percorrer um caminho mais instável. Sua personagem está diante de uma máquina, mas a dramaturgia exige que esse encontro revele questões profundamente humanas. A atriz transita com segurança entre o absurdo da situação e a verdade emocional de alguém obrigada a defender pensamentos, certezas e a própria percepção de si. Conforme esse embate avança, a personagem parece discutir menos com algo exterior e cada vez mais com aquilo que existe dentro da própria cabeça.

A direção de Guilherme Gobbi, com interlocução artística de Debora Lamm, compreende muito bem esse jogo entre duas mentes. Há momentos em que Pergunte Alguma Coisa se aproxima de um confronto entre criador e criatura. Em outros, parece uma longa brincadeira de cabo de guerra: a corda passa de um lado para o outro e a posição de poder nunca permanece estável por muito tempo.

Essa dinâmica ganha outra dimensão no Tucarena. O formato de arena não funciona apenas como disposição espacial para a encenação. Com a plateia ao redor das atrizes, surge a sensação de estarmos dentro de uma mente, observando seu centro enquanto duas formas de inteligência disputam espaço. Não existe um único ponto de observação e, consequentemente, também não existe uma maneira confortável de permanecer distante do conflito.

O humor nasce muito dessa proximidade. A peça provoca risos sem abandonar a inquietação que sustenta a dramaturgia. O público ri da lógica das respostas, das contradições humanas e do estranhamento provocado pela máquina, até perceber que aquilo que parecia estabelecer uma distância segura entre humano e tecnologia começa a desaparecer.

Nesse movimento o espetáculo também expõe duas fragilidades. A humana é evidente: somos contraditórios, emocionais e nem sempre conhecemos a nós mesmos tanto quanto acreditamos. Mas existe também a fragilidade tecnológica. A inteligência artificial depende daquilo que recebe, observa, reproduz e aprende. E essa dependência a torna inquietante: ela pode ser limitada em sua origem e, ainda assim, perigosa em sua capacidade de assimilação.

Daphne e Gabriela sustentam esse confronto em perfeita sintonia. E isso é especialmente importante porque nenhuma pode simplesmente esperar a outra terminar para reagir. Existe escuta, observação e transformação contínua. Uma modifica a atuação da outra diante do público. A peça depende dessa engrenagem para que a disputa intelectual também permaneça fisicamente viva no palco.

Quando essa corda parece não suportar mais a tensão, a mente humana naufraga. E o espetáculo convida a plateia a naufragar junto. O final é dilacerante porque não encerra confortavelmente aquilo que a peça passou uma hora problematizando. Não oferece uma resposta capaz de reorganizar tudo o que vimos nem transforma a inteligência artificial simplesmente em vilã de uma história sobre seres humanos ameaçados pela tecnologia.

Pergunte Alguma Coisa provoca algo mais difícil de definir do que medo ou estranhamento. O público sai do Tucarena com sensação para a qual ainda não há exatamente um nome e isso é um dos maiores méritos do espetáculo. É preciso assistir para tentar descobrir. E, se a resposta não vier, o próprio título já oferece a única alternativa possível: pergunte alguma coisa.

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