Leona Cavalli atravessa séculos da dramaturgia em fase marcada por grandes clássicos do teatro

Leona Cavalli atravessa séculos da dramaturgia em fase marcada por grandes clássicos do teatro

Foto: Henrique Butcher

Poucos atores têm a oportunidade de atravessar, ao mesmo tempo, alguns dos maiores nomes da história da literatura e do teatro. Em intervalo de poucos meses, Leona Cavalli mergulha na ironia filosófica de Erasmo de Roterdã, revisita o universo de William Shakespeare e retorna ao teatro de Nelson Rodrigues. Três autores separados por séculos, mas unidos pela capacidade de provocar reflexões sobre o comportamento humano, as relações de poder e as contradições da sociedade.

Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, Leona resumiu esse encontro entre três universos dramatúrgicos como uma travessia pela complexidade humana: “Fico submersa na loucura humana e nas máscaras da sociedade em três espetáculos distintos, baseados nas obras de Nelson Rodrigues, William Shakespeare e Erasmo de Roterdã. Enquanto apresento Elogio da Loucura, também me preparo para Shakespeare em Crise, ambos sob direção de Eduardo Figueiredo. Entre esses caminhos, encontro Senhora dos Afogados, em montagem do Teatro Oficina”. 

A coincidência entre os três projetos vai além da simultaneidade. Embora pertençam a épocas distintas, todos dialogam com questões que permanecem atuais. Loucura, desejo, culpa, identidade, violência e moralidade atravessam essas obras, demonstrando como determinados conflitos humanos continuam ecoando mesmo séculos depois de terem sido escritos.

A loucura como espelho da sociedade

Entre os trabalhos atualmente em cartaz, “Elogio da Loucura” ocupa lugar especial nessa travessia artística. Inspirado na obra publicada por Erasmo de Roterdã em 1509, o espetáculo adapta para o palco um dos textos mais influentes do pensamento humanista europeu.

Não deixa de ser simbólico que justamente a Loucura assuma o papel de narradora. É ela quem observa, ironiza e questiona as vaidades, os excessos e as contradições da sociedade, transformando um texto escrito há mais de cinco séculos em uma reflexão surpreendentemente contemporânea.

Adaptado por Leona em parceria com o diretor Eduardo Figueiredo, o monólogo combina teatro e música executada ao vivo, com participação do violoncelista Matheus Vieira e da percussionista Cika. A proposta amplia a experiência sensorial do espetáculo, que também promove atividades formativas paralelas às apresentações, aproximando o público do processo criativo.

Shakespeare revisitado pelo presente

Se Erasmo observa o homem pela ironia, Shakespeare o investiga pelo conflito.

Essa é a base de “Shakespeare em Crise – A Invenção de uma Vida”, novo trabalho desenvolvido por Leona Cavalli ao lado de Eduardo Figueiredo. Ambientado no século XVI, o espetáculo estabelece uma ponte entre o universo do dramaturgo inglês e as inquietações da sociedade contemporânea.

A montagem propõe reflexão sobre o próprio processo de criação artística, aproximando Shakespeare de questões relacionadas à identidade, à imaginação e ao papel da arte como ferramenta de interpretação do mundo.

Leona Cavalli vive uma fase dedicada a grandes clássicos que atravessam séculos da dramaturgia.
Leona Cavalli vive uma fase dedicada a grandes clássicos que atravessam séculos da dramaturgia.
Foto: Henrique Butcher

Nelson Rodrigues e a tragédia brasileira

A travessia entre diferentes autores se completa em setembro, quando Leona retorna ao Teatro Oficina Uzyna Uzona para integrar “Senhora dos Afogados”, um dos textos mais emblemáticos de Nelson Rodrigues.

Na montagem dirigida por Monique Gardenberg, a atriz interpreta Dona Eduarda, protagonista de uma tragédia familiar marcada por culpa, desejo, violência e memória, temas recorrentes na dramaturgia rodrigueana.

Leona participa de encenação que transforma o espaço do Teatro Oficina em ambiente sensorial, onde elementos audiovisuais e a presença simbólica do mar ampliam a atmosfera criada pelo dramaturgo. Ao lado dela, um grande elenco: Marcelo Drummond, Regina Braga, Lara Tremouroux, Cristina Mutarelli e Giulia Gam.

Mais do que revisitar um clássico, a montagem reafirma a atualidade da obra de Nelson Rodrigues ao provocar o público a refletir sobre os limites entre realidade, fantasia e os conflitos mais profundos da condição humana.

Clássicos que continuam falando sobre o presente

Mais do que dividir sua agenda entre três produções, Leona Cavalli atravessa três formas distintas de compreender o ser humano.

Erasmo de Roterdã questiona a razão por meio da ironia. Shakespeare investiga os dilemas da criação e da existência. Nelson Rodrigues expõe aquilo que a sociedade prefere esconder.

Entre autores separados por séculos, permanece a atriz, conduzindo personagens que demonstram como os grandes clássicos continuam encontrando novas maneiras de dialogar com o presente e de provocar o público muito além do palco.

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