“Revelação” estreia no Festival de Gramado com humor ácido sobre gênero, redes sociais e identidade

“Revelação” estreia no Festival de Gramado com humor ácido sobre gênero, redes sociais e identidade

Foto: divulgação

Novo curta de Gabriela I. Gaia transforma um chá revelação em uma sátira sobre pertencimento, representatividade e as contradições do Brasil contemporâneo

Uma festa de família, cinco personagens improváveis e uma câmera registrando tudo. É a partir dessa combinação que “Revelação”, novo curta-metragem de Gabriela I. Gaia, constrói uma comédia afiada sobre gênero, raça, identidade e pertencimento no Brasil contemporâneo.

O filme estreia na Mostra Competitiva de Curtas-Metragens do 54º Festival de Cinema de Gramado, no dia 20 de agosto, com a presença da equipe e do elenco. O curta também integra a programação do 37º Festival Internacional de Curtas de São Paulo – Kinoforum.

Na história, um chá revelação se transforma em um retrato bem-humorado de uma sociedade em que praticamente tudo pode virar conteúdo e oportunidade de negócio — inclusive a própria identidade.

No centro da trama está Cris (Lorre Motta), uma pessoa negra e não binária recém-contratada por Adriana (Stella Rabello), mulher branca que comanda a REVEAL, apresentada como a primeira empresa brasileira especializada em chás revelação de gênero.

Ao redor das personagens, estão uma equipe de filmagem desajeitada, influenciadores, patrocínios de casas de apostas online, balões rosa e azul e uma família disposta a transformar qualquer acontecimento em conteúdo para as redes sociais.

Entre ficção, documentário e sátira

Misturando elementos de ficção e documentário, “Revelação” utiliza a comédia para abordar questões relacionadas a gênero, representatividade, redes sociais e aos mecanismos de captura de discursos e identidades.

A narrativa é apresentada como uma espécie de documento arqueológico do futuro. Um disco rígido encontrado nas ruínas do antigo Rio de Janeiro revela imagens de um ritual dos chamados “Anos de Surto”, permitindo que o presente seja observado como um estranho vestígio de uma sociedade que talvez tenha levado suas próprias performances a sério demais.

Para Gabriela I. Gaia, a festa funciona como ponto de partida para discutir os rituais familiares e as contradições presentes nesses espaços.

“Quis partir da festa — essencial para sociabilidade das famílias de subúrbio, como a minha — para perguntar: o que acontece quando os rituais celebram e, ao mesmo tempo, traem uma vida em formação?”, afirma a diretora.

Segundo Gabriela, o filme também mantém o interesse pela câmera como personagem e pela sensação de estranhamento diante do próprio mundo. “É pela festa, e pelas frestas contraditórias dela que REVELAÇÃO caminha”, completa.

O humor como forma de questionamento

A proposta de construir uma comédia decolonial permite que personagens historicamente associados a narrativas de sofrimento também ocupem o espaço do humor. O filme aposta no deboche para questionar estruturas de poder e as tentativas de transformar discursos e identidades em ferramentas de controle.

Nesse sentido, o riso aparece como uma forma de enfrentamento e a festa como possibilidade de resistência em meio a um cenário marcado pelo desencanto. Ao mesmo tempo, “Revelação” questiona o próprio ato de celebrar e convida o público a refletir sobre aquilo que está sendo comemorado — e por quê.

Encerramento da “Trilogia do Encontro”

“Revelação” marca a estreia solo de Gabriela I. Gaia na direção e encerra a “Trilogia do Encontro”, iniciada com “Afeto” (2019) e “Escasso” (2022).

Desenvolvidos em colaboração com os atores que protagonizam as obras, os três filmes exploram relações entre raça, gênero e identidade, além dos limites entre ficção e documentário e da câmera enquanto espaço de performance.

Com elenco e equipe majoritariamente formados por artistas queer, racializados e periféricos, “Revelação” reúne Lorre Motta, Stella Rabello, Heloísa Pires, Natália Balbino e João Mabial.

O curta é uma coprodução entre Brasil e França, realizada por fomofilmes, Por Extenso Produções e Alabama Production.

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