Foto: Estevam Avellar/Globo
Marcelo Médici tem o desafio de dividir a cena consigo mesmo em A Nobreza do Amor. Padre Viriato e Carrapato são irmãos gêmeos, têm o mesmo rosto, mas foram atravessados por experiências tão distintas que o ator encontrou justamente na história de cada um o caminho para separá-los. No meio dessa construção, ainda existe uma memória pessoal: Valdevino, verdadeiro nome do cangaceiro, também era o nome do avô paterno de Marcelo.
Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, o ator fala sobre a composição dos dois personagens, o desafio de interpretar Carrapato fingindo ser Viriato, a maturidade conquistada em 36 anos de profissão e sua relação com a novela, gênero que ajudou a despertar seu desejo de atuar.
Dois rostos iguais, duas histórias completamente diferentes
Interpretar gêmeos abriu para Marcelo uma experiência que dificilmente poderia acontecer fora do audiovisual: contracenar consigo mesmo. A caracterização ajuda a estabelecer as diferenças, mas o ator procurou não depender apenas da aparência para separar os irmãos.
“Está sendo uma experiência maravilhosa. Quando soube que interpretaria dois personagens, tentei me ater mais à diferença entre a história de vida deles, porque fisicamente já são idênticos”.
A construção de Carrapato exigiu ainda alguma espera. Marcelo precisava conhecer melhor Valdevino antes de definir completamente quem seria aquele homem: “Tive que esperar os capítulos que explicavam melhor o Valdevino, para que pudesse entendê-lo, e isso me deixou bem ansioso… Valdevino é o nome de meu avô paterno, pernambucano, a autora Duca Rachid me deu esse presente de homenageá-lo”.
A homenagem ultrapassou o nome e chegou à própria composição: “Acho que a junção de histórias tão distintas, mesmo sendo vividas por irmãos gêmeos, daí entra também a memória afetiva de meu avô, que não era nem padre nem cangaceiro, mas muitas expressões dele utilizo em ambos os personagens, mais o trabalho do figurino, da caracterização e da direção possibilitaram que eu conseguisse ir para tão longe de mim”.

Foto: Estevam Avellar/Globo
Quando Carrapato precisa interpretar Viriato
A dramaturgia colocou uma dificuldade adicional nesse jogo. Carrapato precisou assumir a identidade do irmão e, para Marcelo, interpretar um personagem fingindo ser o outro quase fez surgir uma terceira composição.
O desafio se tornou ainda maior porque essas foram as primeiras cenas que gravou como o cangaceiro: “Como são personagens totalmente antagônicos em absolutamente tudo, digo que exigiu bastante da minha concentração… Era quase um terceiro personagem, ainda que não me sentisse no controle do Carrapato”.
Foi nesse momento que a experiência acumulada ao longo da carreira entrou em cena: “Modéstia à parte, foi quando minha experiência de 36 anos da profissão me ajudou a ter tranquilidade e fazer, porque para o ator não tem saída… O ator sempre precisa se arriscar”.
Viriato não poderia ser um “padre fofinho”
A diferença entre os irmãos também está na maneira como Marcelo compreende o lugar ocupado por cada um naquele universo. Em Viriato, encontra um homem de caráter, mas evita construir sua bondade a partir de uma imagem excessivamente afável do religioso.
“Viriato é exatamente o que ele demonstra ser, um homem justo, vocacionado e direto. Há de se levar em conta que estamos falando de um homem da igreja no Nordeste da década de 20, então ele não poderia jamais ser um padre fofinho. O padre nessa época tinha grande poder e acredito que Padre Viriato tem muito caráter”.
Existe, porém, uma parte do religioso que pertence somente ao ator. Como a dramaturgia não explica aquilo que levou Viriato ao sacerdócio, Marcelo criou sua própria resposta para sustentar internamente o personagem: “Com relação ao que realmente o levou a ser padre, embora não tenha nada na sinopse que explique isso, tenho minhas teorias, mas são aqueles segredos que todo ator guarda para construir seus personagens. Se isso não for explicado pelos autores, me cobre no final da novela que conto a história que inventei na minha cabeça”, diz aos risos.
Carrapato também precisa ser defendido pelo ator
Se Viriato carrega a vocação religiosa e um forte senso de justiça, Carrapato percorreu outro caminho. Marcelo, entretanto, não parte do julgamento para interpretá-lo: “Como ator não julgo meus personagens, e defendo que, diante dos acontecimentos na vida de Carrapato, ele fez o que achava certo. Ele, sem dúvidas, tem uma visão da vida completamente distinta da do irmão, valores diferentes, mas criei ele mais sentimental, mais sanguíneo”.
Existe especialmente um sentimento que o ator não coloca em dúvida: “Ele ama a filha. Pelo menos foi assim que o construí”, diz referindo-se a Belmira, personagem de Raissa Xavier.
Essa relação ainda deve movimentar Carrapato nos próximos capítulos. Depois de sua ligação com a filha ser revelada, Marcelo acredita que o personagem buscará permanecer próximo dela: “Carrapato está voltando. A relação dele com a filha foi exposta, mas acredito que, a partir disso, ele vai querer manter contato com ela”.
Curiosamente, a paternidade também atravessa Viriato, ainda que de outra maneira: “Com relação a Viriato, além da vocação religiosa, ele quer ver suas meninas, Belmira e Ritinha, encaminhadas e felizes. Isso é o desejo de qualquer pai, e de certa forma, ele é pai das duas”.
“Nenhuma casa pode ser construída pelo telhado”
Marcelo atravessou também uma transformação profunda na maneira como novelas são assistidas. O gênero, entretanto, ocupa um espaço particular em sua formação: foi uma das artes que fizeram com que desejasse ser ator.
“Peguei uma mudança significativa na forma de consumir novela, arte que muito me fez desejar ser ator. Acredito que a novela da TV aberta vai viver por muitos anos no Brasil, ainda fazemos novela com muita qualidade”.
Para ele, a permanência do gênero está diretamente ligada à capacidade de continuar contando boas narrativas: “Enquanto existirem boas histórias, bons atores e bons profissionais na direção das tramas, teremos boas novelas e público para isso”.
Ao olhar para aqueles que estão começando agora, Marcelo defende algo que sua própria trajetória parece comprovar: experiência artística também precisa ser construída sobre conhecimento: “Espero que os novos profissionais sejam empenhados em estudar, aprender, saber. Ter base em qualquer profissão é muito importante. Nenhuma casa pode ser construída pelo telhado”.

Foto: Globo/Lucas Teixeira
Aos 36 anos de carreira, as ansiedades começam a dar lugar ao prazer
Marcelo já realizou muitos dos sonhos que tinha como ator e encontrou na televisão a possibilidade de construir personagens muito diferentes. Ao recordar sua trajetória, percebe curiosa coleção de características marcantes.
“Em novelas fiz coisas bem diferentes, o que é um privilégio, porque a TV às vezes faz com que os atores façam coisas muito parecidas. Os personagens que fiz sempre tiveram característica marcante: ou gaguejava, ou era italiano, ou tinha língua presa, ou se disfarçava de mulher, até morto eu já fiz, (risos). E o pior é que eu gosto!”
Em A Nobreza do Amor, entretanto, há espaço também para outro registro: “Estou tendo a chance de fazer esse padre mais contido e também tendo oportunidade de fazer cenas muito sensíveis e delicadas”.
Viriato e Carrapato chegaram em momento no qual Marcelo não precisa mais carregar algumas das inquietações que acompanharam etapas anteriores da profissão: “Muitas ansiedades foram embora e estou adorando me sentir mais maduro e apreciar totalmente os personagens que caem na minha mão”.
Depois de 36 anos, o risco que Marcelo considera indispensável ao ator continua existindo. O que parece ter mudado é a maneira de encará-lo. Entre um padre e um cangaceiro, dois irmãos idênticos e um terceiro personagem que surge quando um precisa fingir ser o outro, a maturidade não tornou o trabalho menos desafiador. Deu ao ator tranquilidade para aproveitar justamente aquilo que ainda pode surpreendê-lo.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
