Coração Acelerado chega ao fim salva pelo elenco de uma novela que se perdeu pelo caminho

Coração Acelerado chega ao fim com problemas de roteiro e grandes reviravoltas mal aproveitadas, mas encontra na força e sintonia de seu elenco seu maior acerto. Foto: Globo/Fabio Rocha.

Coração Acelerado chegou ao fim nesta sexta-feira (14) deixando uma sensação contraditória. Escrita por Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento, a novela das sete partiu de uma premissa empolgante, estreou com boa condução e tinha um universo particular para explorar. Em algum momento, porém, perdeu o rumo. O que permaneceu até o último capítulo foi um elenco disposto a tirar leite de pedra.

Isabelle Drummond fez de Naiane um dos grandes acertos. A personagem poderia ter crescido como vilã e acompanhado, ou até superado, as mentiras e os segredos da mãe. Ainda assim, Isabelle sustentou sua trajetória com espontaneidade e encontrou uma personagem que funcionava mesmo quando a dramaturgia não lhe entregava tudo o que poderia. Leandra Leal também encontrou Zilá, sobretudo quando a novela permitiu que a vilã ganhasse camadas para além de suas armações.

Aliás, quando as autoras deslocaram o interesse para Zilá, Janete e Alaorzinho, Coração Acelerado ganhou corpo. O passado dos três carregava conflitos muito mais robustos do que boa parte das intrigas que movimentavam o casal protagonista. Havia amor, ressentimento, segredos e consequências. Letícia Spiller e Daniel de Oliveira construíram Janete e Alaorzinho com uma química radiante porque o sentimento dos dois possuía história. Leandra completava esse triângulo com força. No fim, eram eles os verdadeiros protagonistas dramáticos da novela.

Agrado e João Raul nunca receberam a mesma sustentação. O romance demorou a acontecer e, mesmo depois disso, suas separações dependiam frequentemente de intrigas frágeis demais para provocar indignação ou fazer o público desejar desesperadamente a reconciliação. Isadora Cruz e Filipe Bragança salvaram muito dessa relação pela química. Filipe também encontrou ótima troca com Isabelle Drummond, demonstrando que o problema estava menos nos intérpretes do que naquilo que a dramaturgia oferecia para eles defenderem.

Quando os coadjuvantes encontraram espaço

Irene (Fernanda Pimenta) e Walmir (Antonio Calloni) formaram um dos casais mais carismáticos de Coração Acelerado, sustentados pela sintonia e pelo ótimo jogo cênico dos atores. Foto: Estevam Avellar/Globo.
Irene (Fernanda Pimenta) e Walmir (Antonio Calloni) formaram um dos casais mais carismáticos de Coração Acelerado, sustentados pela sintonia e pelo ótimo jogo cênico dos atores. Foto: Estevam Avellar/Globo.

Entre as melhores surpresas está Fernanda Pimenta. Irene começou pequena e conquistou espaço até se tornar uma das figuras mais divertidas da trama. Na reta final, a chegada de uma prima permitiu à atriz interpretar duas personagens e ampliar ainda mais seu repertório cômico. Sua parceria com Antonio Calloni também funcionou muito bem. Irene e Walmir formaram um casal construído com sintonia, enquanto Calloni encontrou profundidade em um dos melhores personagens da novela.

André Luiz Frambach foi outro acerto. Aproximar verdadeiramente Gael de Naiane funcionou porque a química com Isabelle apareceu imediatamente. O personagem cresceu, encontrou função própria e ganhou dimensão suficiente para também ocupar espaço na novelinha vertical Onde Está a Boiadeira?.

A presença de Ana Castela como ela mesma foi outra boa ideia. Em vez de surgir apenas como participação promocional, a cantora ganhou narrativa, movimentou personagens e passou a existir dentro daquele universo ficcional sem deixar de ser uma figura real. A experiência ainda revelou uma desenvoltura diante das câmeras que funcionou dentro da proposta.

O sertanejo deveria ser universo, não muleta

O universo sertanejo oferecia identidade a Coração Acelerado e poderia ter funcionado ainda melhor como pano de fundo para Agrado, João Raul e Eduarda. Quando esse ambiente servia aos personagens, havia personalidade. O problema apareceu quando a novela pareceu acreditar que o próprio universo musical conseguiria sustentar aquilo que a dramaturgia não aprofundava.

Carlos Araújo encontrou caminhos visuais interessantes para esse material. A direção foi precisa em diferentes momentos, principalmente nas sequências de maior tensão, com enquadramentos e movimentos de câmera que ajudavam a criar uma intensidade que nem sempre estava no texto.

Grandes revelações sem a construção necessária

João Raul (Filipe Bragança) esteve no centro de Coração Acelerado e ganhou força graças à entrega do ator, mesmo diante de conflitos que nem sempre favoreceram o protagonista. Foto: Mauricio Fidalgo/Globo.
João Raul (Filipe Bragança) esteve no centro de Coração Acelerado e ganhou força graças à entrega do ator, mesmo diante de conflitos que nem sempre favoreceram o protagonista. Foto: Mauricio Fidalgo/Globo.

Se a novela já apresentava problemas no desenvolvimento, sua reta final tornou isso ainda mais evidente. Transformar João Raul em filho de Ronei e revelar Agrado como filha de Alaorzinho são reviravoltas grandes demais para parecerem retiradas da manga na última semana. Não é o absurdo que condena esses acontecimentos, novela pode e deve abraçar grandes coincidências, segredos familiares e revelações improváveis. O problema é não preparar o público para eles.

Agrado e Naiane serem irmãs, por exemplo, é um ótimo clichê de folhetim. Justamente por isso, merecia ter sido revelado muito antes. Haveria ali material para meses de conflito, aproximação, rejeição e transformação, além de proporcionar mais cenas entre Isadora Cruz e Isabelle Drummond. Guardar uma revelação desse tamanho para o encerramento significa desperdiçar suas consequências dramáticas.

Faltou planejamento e entender que um grande plot não termina quando o segredo é revelado: muitas vezes, é exatamente ali que a melhor história começa. Coração Acelerado tinha bons ingredientes, uma premissa promissora, direção competente e intérpretes capazes de sustentar registros muito diferentes. Mas não conseguiu organizar tudo isso em uma dramaturgia igualmente consistente.

Quando o texto encontrou Zilá, Janete e Alaorzinho, a novela mostrou aquilo que poderia ter sido. Quando entregou espaço a Fernanda Pimenta, Antonio Calloni, Isabelle Drummond, Leandra Leal e André Luiz Frambach, mostrou a força de seu elenco. Isadora Cruz e Filipe Bragança também fizeram o possível para dar verdade a um romance que precisava ter sido muito melhor escrito.

No balanço final, os atores foram maiores que a novela e essa é a melhor definição para Coração Acelerado: uma trama que começou prometendo acelerar o coração, mas terminou dependendo de seus intérpretes para continuar pulsando.

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