Foto: Globo/Beatriz Damy.
O celular pode até ter mudado a maneira de assistir, mas não necessariamente aquilo que faz o público permanecer diante de uma história. Amor proibido, vingança, falsa morte, troca de identidade, vilania e grandes reviravoltas continuam no centro de Nas Profundezas do Amor, nova novela vertical do Globoplay, que estreia no streaming em 25 de agosto. A diferença é que, agora, toda essa tradição do melodrama brasileiro precisa caber em episódios de aproximadamente dois minutos e em uma tela que deixou de ser horizontal.
Para Cristiano Marques, diretor da produção, entender essa mudança exigiu antes reconhecer que o próprio tempo da dramaturgia passa a funcionar de outra maneira. Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, ele explica que conflitos e reações precisam acontecer com uma velocidade diferente daquela praticada tradicionalmente nas novelas: “A primeira lição foi entender que o tempo de evolução dos conflitos é outro, bem diferente do que nós estamos acostumados na dramaturgia tradicional. Os personagens recebem e reagem aos acontecimentos de forma muito mais ágil”, afirma.
A velocidade, porém, trouxe um desafio: como acelerar a narrativa sem fazer com que os personagens simplesmente reajam mecanicamente aos acontecimentos? Cristiano conta que a direção buscou características capazes de justificar essa dinâmica dentro da própria personalidade dos personagens, preservando uma âncora realista na interpretação.
Essa preocupação também aparece na maneira como o melodrama é conduzido. Mesmo diante de capítulos tão curtos, a produção não quis eliminar pausas, silêncios ou momentos de elaboração emocional: “Procuramos dentro dos episódios, ainda que curtos, momentos de respiro. Olho no olho, reflexão”, explica o diretor.
A estrutura também não transforma necessariamente cada sequência em um episódio isolado. Embates mais complexos podem atravessar dois ou três capítulos, enquanto a busca de Serena/Carmem por justiça funciona como o grande arco responsável por sustentar a história até o desfecho.
Um novelão dentro do celular
A modernização do formato não significou abandonar aquilo que existe de mais reconhecível no gênero. Pelo contrário. Cristiano decidiu assumir os códigos clássicos do melodrama: “Nessa trama eu não tinha como fugir dos signos do melodrama clássico, do novelão. Então, procurei usar essas referências. Sempre falava que essa trama era um western com todos os seus símbolos”.
A comparação ajuda a compreender a proposta. Nas Profundezas do Amor não tenta esconder seus excessos ou transformar a história em algo distante do melodrama popular. A novidade está na maneira de acomodá-lo ao consumo contemporâneo: episódios curtos, acontecimentos rápidos e ganchos constantes.
Essa intensidade também atravessa Zara, principal antagonista da história vivida por Thaila Ayala. Para Cristiano, dirigir uma personagem deliberadamente carregada exigiu encontrar a fronteira entre assumir o exagero e impedir que a vilã perdesse sua verdade: “O desafio para diretor e atriz é o equilíbrio entre embarcar de olhos fechados no exagero e manter a personagem real”, explica. “Não podemos abandonar a intensidade e fazer uma personagem insossa”.
O vertical não é apenas uma câmera virada
Se o tempo da dramaturgia muda, a imagem também precisou encontrar outras soluções. E foi durante os primeiros testes que Cristiano confirmou algo que já intuía: o enquadramento que melhor conversa com a verticalidade é o retrato: “A pintura clássica já nos ensinou isso há muito tempo”, lembra.
A mudança abre possibilidades particularmente interessantes para os closes. Enquanto um enquadramento horizontal tradicional costuma mostrar o rosto e parte do cenário, o vertical permite aproximar a câmera sem necessariamente eliminar outras partes do corpo. Segundo o diretor, foi possível construir closes que mantinham ombros e peito no quadro e supercloses que ainda preservavam todo o rosto.
Se a proximidade favoreceu as emoções intensas da história, os planos gerais produziram o problema contrário: como colocar vários personagens dentro de uma imagem com pouca margem lateral?
A resposta veio, curiosamente, de referências anteriores ao próprio celular: “Fomos de novo aos clássicos. Buscamos marcações com primeiro, segundo e terceiros planos. Procuramos elementos cenográficos que preenchessem as partes altas e baixas dos quadros e fomos assim criando essa nova linguagem”.
A limitação lateral também acabou transformada em recurso. Em sequências de suspense e mistério, mostrar menos daquilo que existe ao redor do personagem passou a trabalhar a favor da narrativa.
A direção dos atores não precisou ser completamente reinventada, mas enquadramentos muito fechados impuseram algumas limitações. Com pouco espaço nas laterais, determinados planos exigiam movimentos menores dos intérpretes para que permanecessem dentro da composição.
Duas atrizes, a mesma personagem
Outro desafio particular de Nas Profundezas do Amor aparece na protagonista. Serena começa a história interpretada por Jeniffer Dias e, após assumir outra identidade, retorna como Carmem Quevedo, vivida por Jessica Córes.
A mudança de rosto faz parte do pacto que a novela estabelece com o espectador. Para preservar a continuidade emocional entre as duas intérpretes, o texto de Paulo Ferreira criou pontes entre passado e presente, especialmente nas lembranças de Carmem e no impacto provocado por sua presença em Romualdo.
Cristiano destaca ainda o trabalho de Jessica nas primeiras cenas após a transformação:“Jéssica foi muito feliz em emular algumas características da Jeniffer nas primeiras aparições pós-cirurgia. E, depois da passagem de tempo, os personagens se distanciam mesmo”.
A solução permite que a substituição não dependa apenas da compreensão racional do público de que se trata da mesma mulher. Gestos, memórias e relações ajudam a carregar Serena para dentro de Carmem.
A disputa por atenção não começou no celular
Com 50 episódios curtos conectados por ganchos fortes, a própria estrutura de Nas Profundezas do Amor evidencia questão central da dramaturgia vertical: conquistar a atenção de um espectador que tem inúmeras outras possibilidades a poucos toques de distância.
Cristiano, entretanto, considera um erro enxergar essa disputa como problema exclusivo do formato: “A TV convencional disputa público com quem está usando o celular como segunda tela”, observa.
Para ele, é natural que a busca por atenção tenha influenciado essa primeira leva de produções pensadas para celulares, mas isso não significa que toda dramaturgia vertical precise obedecer eternamente à mesma fórmula. Outras experiências já começam a surgir.
O mesmo vale para a tentativa de encontrar uma identidade brasileira para o formato. As novelas verticais cresceram em outros mercados, mas a aposta da Globo é incorporar uma experiência acumulada durante décadas de produção de dramaturgia: “A gente começou se inspirando no formato consolidado lá fora, mas de cara já colocamos nossa cara”, diz Cristiano. “Agora, com as tramas originais, vamos colocar o nosso DNA e a nossa expertise”.
Uma linguagem que ainda não conhece suas próprias regras
Cristiano evita decretar qual será o futuro da dramaturgia vertical. O formato ainda é recente demais para saber seu alcance ou estabelecer regras definitivas. Para ele, justamente por estar no começo, não deve nascer engessado.
O ponto de partida, entretanto, é objetivo: as pessoas consomem cada vez mais audiovisual pelo celular, e a indústria começa a produzir dramaturgia especificamente para esse comportamento.
Mais interessante do que prever se a vertical substituirá, complementará ou desenvolverá caminhos completamente independentes da televisão tradicional talvez seja observar aquilo que a experiência já revela: “Entre todas as possibilidades de conteúdo para se consumir no celular, muita gente está escolhendo consumir dramaturgia”, afirma o diretor.
É nesse encontro que Nas Profundezas do Amor tenta encontrar seu lugar. Uma história que recorre ao amor proibido, à vingança, à vilania e às identidades secretas enquanto procura descobrir como esses elementos podem funcionar dentro de uma tela que cabe na palma da mão.
O suporte mudou. O enquadramento mudou. O tempo mudou, mas o desejo de acompanhar uma boa história, aposta Cristiano Marques, continua ali.

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