Fotos: Beatriz Damy/Globo
Zara não estaria completa sem Mila. Se Thaila Ayala encontrou em Nas Profundezas do Amor a oportunidade de interpretar uma vilã assumidamente má, exagerada e sanguinária, é na relação com a meia-irmã vivida por Tamie Panet que a personagem ganha outras camadas. Entre cumplicidade, inveja, admiração e rejeição, as duas formam uma parceria que promete transformar a vilania em assunto de família.
Na sétima novelinha Original Globoplay, com estreia marcada para 25 de agosto, Zara e Mila estão diretamente envolvidas na tragédia que transforma a vida de Serena (Jeniffer Dias). Ambiciosa, Zara articula com a ajuda da irmã uma conspiração que faz a protagonista ser injustamente acusada de um atentado contra Madalena (Ana Beatriz Nogueira), mãe de Romualdo (Joaquim Lopes).
Dada como morta após um incêndio, Serena retorna anos depois com uma nova face e sob a identidade de Carmem Quevedo (Jéssica Córes). Movida pela sede de justiça e vingança, ela volta disposta a acertar as contas com Zara.
Durante coletiva de imprensa acompanhada pelo Pittaplay, Thaila e Tamie revelaram que a sintonia entre as duas começou antes mesmo das gravações. O pouco tempo de preparação exigido pela produção fez com que a aproximação acontecesse rapidamente.
Para Thaila, o encontro foi imediato: “Acho que a gente arrasou muito. A gente se divertiu muito fazendo e teve uma cumplicidade verdadeira”, contou.
A atriz acredita que essa conexão ultrapassa a relação amorosa normalmente associada à ideia de química entre atores: “Existem vários outros tipos de química, não só a coisa sexual, sensual do casal. Acho que eu e Tamie entramos numa química muito boa e isso com certeza vai ser visto”.
Mila quer ser Zara, mas também sente horror por ela
É Tamie Panet quem encontra uma definição precisa para a relação entre as duas personagens: “amo e odeio”.
A contradição está na própria maneira como Mila enxerga a irmã. Ela admira Zara a ponto de desejar ocupar seu lugar, mas essa admiração convive com inveja, ressentimento e rejeição: “O sonho da Mila é ser a Zara, mas, ao mesmo tempo, ela tem horror à Zara”, explicou Tamie.
Essa dependência também funciona no sentido inverso. Segundo a atriz, Zara não consegue realizar tudo aquilo que deseja sem a presença da meia-irmã.
Para Tamie, são duas personagens explosivas e, ao mesmo tempo, semelhantes. A aproximação entre elas não elimina o conflito; faz justamente com que a relação produza ainda mais atrito: “São da mesma natureza. Uma não consegue fazer nada sem a outra”, afirmou.
A atriz compara essa dinâmica a dois elementos que se aproximam e se desgastam simultaneamente. Existe cumplicidade para praticar as perversidades, mas também uma disputa silenciosa pela posição que cada uma ocupa.
É nessa contradição que Tamie identifica algo profundamente humano: “Revela muito da nossa humanidade, dos nossos desejos mais sórdidos. Acho que na vilania sempre tem um lugar para a gente olhar para essa parte mais feia da nossa humanidade”.
Mila foi criada para revelar outra Zara
A complexidade dessa relação não nasceu apenas do trabalho das atrizes. Paulo Ferreira, autor de Nas Profundezas do Amor, contou durante a coletiva que Mila possui uma função específica na construção dramatúrgica de Zara.
A vilã precisava movimentar constantemente uma história contada em capítulos de até dois minutos. Por isso, Ferreira assumiu deliberadamente o exagero melodramático da personagem interpretada por Thaila.
Mas havia um risco: transformar Zara apenas em uma sucessão de maldades: “Quando criei a Mila, a ideia era dar alguma camada para a Zara, para a Zara não ser também só aquela pessoa ruim, ruim, ruim, ruim”, explicou.
A relação familiar foi a resposta encontrada pelo autor: “Ela tem relação problemática com a irmã, que tem muitas complexidades, tem inveja, quer ser ela. Então tentei criar essas camadas internas nos personagens também para não ficar muito plano”.
Mila, portanto, não funciona somente como cúmplice dos planos da antagonista. É através dela que o público pode observar Zara em uma relação diferente daquela estabelecida com Serena e os demais personagens.
A vilania continua existindo, mas passa a dividir espaço com uma intimidade marcada por dependência e conflito.
Duas atrizes que se encontraram rapidamente
A relação entre Zara e Mila também precisou nascer em velocidade acelerada. Nas Profundezas do Amor teve seus 50 capítulos gravados em apenas oito dias, fazendo com que vínculos que poderiam levar semanas para serem desenvolvidos em outras produções precisassem aparecer quase imediatamente.
Cristiano Marques, diretor da novelinha, contou que Thaila e Tamie construíram a relação de irmãs praticamente em uma tarde. Tamie, que se considera menos experiente naquele ritmo de produção, lembra que chegou à leitura diante de atores com trajetórias mais extensas e encontrou justamente na generosidade dos colegas uma maneira de atravessar a experiência.
Thaila teve participação importante nisso. Tamie recorda, inclusive, a surpresa quando a colega se dispôs a passar o texto com ela fora do set. O gesto ajudou a transformar uma aproximação inicialmente cercada pelo nervosismo em parceria.
Para Thaila, essa cumplicidade posteriormente chegou às cenas: “Foi uma honra trabalhar com ela”, afirmou.
Uma dupla criada para provocar o caos
Com produção dos Estúdios Globo, roteiro de Paulo Ferreira e direção de Cristiano Marques, Nas Profundezas do Amor reúne ainda Joaquim Lopes, Ana Beatriz Nogueira, Jeniffer Dias e Jéssica Córes no elenco.
Embora Zara seja a principal responsável pela conspiração contra Serena, a construção de Mila mostra que a antagonista não agirá sozinha. A meia-irmã está diretamente ligada aos seus planos e, ao mesmo tempo, funciona como uma espécie de espelho de suas próprias contradições.
Quando perguntada sobre o que o público pode esperar da dupla, Tamie encontrou uma definição bem menos complicada do que a relação entre elas: “Tiro, porrada e bomba”.
Se depender de Zara e Mila, os capítulos de até dois minutos de Nas Profundezas do Amor terão pouco espaço para tranquilidade. E talvez esteja justamente aí a força das duas: elas não precisam se amar ou se odiar. Conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
