Foto: Beatriz Damy
Escrever uma novela significa organizar conflitos, personagens, revelações e ganchos capazes de sustentar uma história por dezenas de capítulos. Mas o que acontece quando toda essa engrenagem precisa funcionar em episódios de apenas dois minutos? Foi diante desse desafio que Paulo Ferreira construiu Nas Profundezas do Amor, sétima novelinha Original Globoplay, que estreia em 25 de agosto.
Com 50 capítulos de até dois minutos, a produção dos Estúdios Globo exigiu do autor uma lógica de escrita diferente daquela tradicionalmente associada às novelas. Durante coletiva de imprensa acompanhada pelo Pittaplay, Ferreira explicou que a duração reduzida não significa uma dramaturgia igualmente reduzida.
Questionado pelo Pittaplay sobre como encontrou um ritmo capaz de apresentar conflito, desenvolver a ação e chegar a um novo gancho sem transformar a história apenas em uma sucessão de reviravoltas, o autor contou que partiu de uma ferramenta bastante conhecida da dramaturgia: a escaleta.
“Criei uma escaleta prevendo o que aconteceria naqueles 50 capítulos. Então, na verdade, eu desenho todo o arco dramático da história, porque, apesar dos capítulos curtos, a novela vertical tem que ter fôlego para 50 capítulos”, explicou.
A resposta ajuda a desmontar uma impressão que o próprio formato pode provocar. A velocidade está na narrativa, mas não necessariamente na construção do roteiro. Para Paulo, escrever episódios tão breves não significa simplesmente condensar acontecimentos: “Não é só escrever rapidinho. As pessoas acham que é uma escrita acelerada. Não. Você tem que ter uma história, você tem que ter um mistério”, afirmou.
Foi durante a elaboração da escaleta, inclusive, que o autor percebeu a necessidade de acrescentar um mistério envolvendo a vilã que não existia no argumento original. A ideia surgiu justamente da busca por elementos capazes de sustentar a curiosidade do espectador ao longo dos episódios.
Uma novela sem espaço para “barriga”
Se a escaleta organiza o todo, cada capítulo precisa justificar individualmente sua existência. Ferreira explicou durante a coletiva que a dramaturgia vertical parte de uma exigência bastante específica: reconquistar a atenção do espectador praticamente a cada dois minutos.
Por isso, cada episódio precisa oferecer alguma recompensa narrativa. Pode ser uma informação importante, uma revelação, uma situação dramática de impacto, uma briga ou uma sequência emocional. O que não pode acontecer, segundo ele, é um capítulo terminar sem ter cumprido alguma função: “Você não pode ter barriga numa novela vertical de jeito nenhum. Nenhum capítulo pode não ter nada. Ele tem que ter sempre alguma função”, explicou.
Essa lógica também interfere na própria arquitetura da história. Diferentemente de uma novela convencional, Nas Profundezas do Amor não possui espaço para diversas tramas paralelas. Segundo Ferreira, o formato pede concentração quase absoluta no conflito principal: “Não tem espaço para subtrama. Não tem personagens suficientes e eu não posso fragmentar a história em várias histórias para não perder a atenção do público. Tudo tem que estar a serviço da trama central”.
Isso não significa, porém, abrir mão de camadas. O autor conta que procurou construir conflitos, medos e traumas para evitar personagens excessivamente planos. A síntese usada por ele durante a coletiva resume a proposta: “A história é simples, mas ela não é simplória”.
Mais de 300 novelinhas como referência
Paulo chegou ao projeto também como consumidor do formato. Durante a coletiva, revelou já ter assistido a mais de 300 novelinhas verticais e manter 18 aplicativos dedicados a essas produções no celular.
Esse repertório serviu especialmente para a construção de Zara, personagem de Thaila Ayala. Inspirado pelas vilãs melodramáticas encontradas em produções estrangeiras, o autor decidiu concentrar nela deliberadamente uma dose maior de exagero.
A personagem funciona como um dos motores da narrativa. É Zara quem precisa criar obstáculos continuamente para impedir que os protagonistas encontrem estabilidade por tempo suficiente para diminuir a tensão da história: “Eu precisava de um personagem que movimentasse a trama o tempo inteiro”, explicou Ferreira.
Ainda assim, a intenção era impedir que a antagonista existisse somente pela maldade. É justamente aí que entra Mila, interpretada por Tamie Panet. A relação conflituosa entre as duas irmãs foi criada para revelar outras dimensões de Zara e acrescentar complexidade à personagem sem desviar a narrativa de seu eixo principal.
Amor, conspiração e vingança em capítulos de dois minutos
Com roteiro de Paulo Ferreira e direção de Cristiano Marques, Nas Profundezas do Amor acompanha Serena (Jeniffer Dias) e Romualdo (Joaquim Lopes), herdeiros de duas famílias rivais da mineração.
O romance é atravessado pela conspiração de Zara (Thaila Ayala), que, com a ajuda da meia-irmã Mila (Tamie Panet), faz Serena ser injustamente acusada de um atentado contra Madalena (Ana Beatriz Nogueira), mãe de Romualdo.
Dada como morta depois de um incêndio, Serena reaparece anos mais tarde com uma nova face. Agora sob a identidade de Carmem Quevedo (Jéssica Córes), ela retorna movida pelo desejo de justiça e vingança contra Zara.
A trama carrega ingredientes conhecidos do melodrama: famílias rivais, amor, conspiração, falsa morte, nova identidade e vingança, mas os reorganiza dentro de outra lógica de consumo. Para Paulo Ferreira, o desafio não está simplesmente em fazer uma novela caber em episódios menores, mas em construir uma história na qual cada capítulo tenha força suficiente para conduzir imediatamente ao seguinte.
Em Nas Profundezas do Amor, dois minutos não representam apenas a duração de um capítulo. São também o tempo disponível para convencer o público a continuar assistindo.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
