Dinah Feldman: os encontros que transformam a vida e mantêm uma atriz em movimento

Dinah Feldman os encontros que transformam a vida e mantêm uma atriz em movimento

Foto: Mare Martin

Para Dinah Feldman, é no movimento provocado pelo outro que uma identidade se constrói dentro e fora do palco. A ideia está no coração de Mazal Tov – Quando a Vida Sorri, espetáculo protagonizado pela atriz e em temporada no Teatro Moise Safra, em São Paulo. Baseada no livro Mazal Tov – Minha Surpreendente Amizade com uma Família de Judeus Ortodoxos, da belga J. S. Margot, a montagem dirigida por Dan Rosseto acompanha uma mulher que entra em contato com uma realidade diferente da sua e, enquanto tenta compreender o outro, passa também a revisitar as próprias escolhas.

Para Dinah, conhecer verdadeiramente alguém dificilmente acontece sem que algo também se transforme dentro de nós: “A gente se vê, muitas vezes, no espelho do outro. Algumas coisas reafirmamos, outras abandonamos, outras transformamos. Eu acredito que conhecer o outro nos transforma, sim, nesse jogo de espelhos e questionamentos. Numa amizade, num relacionamento afetivo e até como mãe. É impossível não se rever quando você cria outra pessoa”, afirma em entrevista exclusiva ao Pittaplay.

O outro como espelho

Margot está justamente em uma fase da vida em que essas transformações encontram terreno fértil. Dinah acredita que a juventude é um período determinante para a formação da identidade e compara o início da existência a uma tela em branco sobre a qual valores familiares, sociais e os encontros vão deixando marcas.

Em determinados momentos, porém, tudo aquilo precisa passar pelo filtro dos próprios questionamentos: “Alguns caminhos são reafirmados, outros são abandonados, outros mudam completamente de direção”.

É o que acontece com Margot. A aproximação com uma família judaica ortodoxa não significa abandonar aquilo em que acredita. Algumas convicções, inclusive, são reafirmadas, como a decisão de não ter filhos. Ainda assim, aquela convivência deixa marcas.

Dinah destaca um momento da peça em que a personagem participa de um jantar de Shabat e admite ter sentido inveja da solidariedade compartilhada pela família, do ato de todos cantarem juntos e daquela força coletiva que não reconhecia em seu próprio cotidiano: “Isso não a fez abandonar seus valores, mas fez com que ela os questionasse. E talvez seja justamente aí que começam as escolhas futuras”.

Ser judia para enxergar o judaísmo pelos olhos de quem não é

Dinah Feldman protagoniza Mazal Tov – Quando a Vida Sorri como Margot, mulher que encontra no contato com uma família judaica novas maneiras de questionar a própria identidade e suas escolhas. Foto: Mare Martin
Dinah Feldman protagoniza Mazal Tov – Quando a Vida Sorri como Margot, mulher que encontra no contato com uma família judaica novas maneiras de questionar a própria identidade e suas escolhas.
Foto: Mare Martin

Existe inversão particularmente interessante entre personagem e intérprete. Margot não é judia e entra nesse universo como alguém de fora. Dinah é judia, embora nunca tenha sido religiosa, e precisa encontrar justamente esse olhar estrangeiro para conduzir a personagem.

Para ela, entretanto, cultura, tradição e valores familiares sempre estiveram na base de sua identidade: “Ver o mundo pela lente da arte sempre foi, para mim, um ponto de questionamento. Eu me sinto muitas vezes vivendo e observando a vida ao mesmo tempo. Escolhendo enquadramentos que podem ir para o palco”.

Esse exercício não está distante da própria relação que mantém com o judaísmo: “Os textos-base são simbólicos, existe toda uma tradição de estudo, interpretação e perguntas. Acho muito saudável não se acomodar em verdades absolutas e poder sempre exercitar esse olhar de fora”.

O diálogo entre palco e raízes existe desde o começo de sua formação. A primeira peça que Dinah fez na escola profissionalizante de teatro foi O Diário de Anne Frank. Naquele momento, já se viu ensinando canções em hebraico aos colegas.

Décadas depois, percebe crescer o desejo de compartilhar com o público a riqueza da cultura judaica por diferentes manifestações artísticas, da literatura ao cinema, passando pela música, pelas artes plásticas e, naturalmente, pelo teatro: “Talvez porque, para mim, pertencer também tenha a ver com poder olhar de fora”.

Os faróis encontrados pelo caminho

Se Mazal Tov fala sobre pessoas capazes de modificar trajetórias, olhar para mais de duas décadas de carreira inevitavelmente faz Dinah reconhecer aquelas que transformaram a sua.

Dois nomes aparecem imediatamente: Denise Weinberg e Francisco Medeiros: “Tive e tenho muita sorte. Tive encontros que me deram a base pela qual caminho, grandes mestres que me ensinaram o valor do ofício. Numa área em que estamos sempre em exposição, pode ser fácil desviar do que é fundamental”.

Dinah recorda uma leitura simples da qual participou com os dois. Algumas horas de ensaio provavelmente seriam suficientes, mas Denise e Chiquinho, como Francisco era chamado, trataram aquele trabalho com dedicação e artesania: “Chiquinho sempre entrava em uma sala de ensaio como se fosse o primeiro dia. E estava sempre disposto a ensaiar. Foi um grande mestre”.

Foi também trabalhando com ele que uma transformação para além do teatro aconteceu. Dinah engravidou da filha durante um trabalho e permaneceu em cena até o último mês de gestação. Em vez de ser tratada como um problema para a montagem, a gravidez acabou incorporada à própria poética do espetáculo.

A experiência ganhou dimensão ainda maior diante dos obstáculos profissionais que enfrentou naquele período: “Enfrentei tantos obstáculos profissionais com a gravidez que aquela oportunidade que vivi com o Chiquinho me fez acreditar que eu poderia conciliar esses dois papéis na vida. E é como eu sustento minha filha até hoje: com o meu trabalho”.

Denise ocupa outro lugar igualmente determinante: “Denise é um farol”. Dinah cita O Último Azul e enxerga na atuação da colega não apenas um grande desempenho, mas uma demonstração de como o amadurecimento pode tornar uma artista ainda mais potente.

“No encontro com ela, entendi a potência da palavra, conheci o realismo contemporâneo como uma das minhas formas dramatúrgicas preferidas e encontro uma interlocução entre a artista que quero ser e a mulher que sou”. 

E sintetiza: “Todo encontro é uma potência. Mas esses dois são faróis”.

Aquilo que herdamos e aquilo que escolhemos carregar

Se Mazal Tov investiga como os encontros ajudam a construir uma identidade, outro trabalho fundamental na trajetória de Dinah olha para aquilo que chega antes mesmo que possamos escolher.

O Vazio na Mala nasceu de uma história familiar e de uma mala de guerra hoje preservada no Museu Judaico de São Paulo. Misturando memória e ficção, o trabalho investiga silêncios, traumas e aquilo que atravessa diferentes gerações.

Para Dinah, tentar separar completamente herança e escolha talvez seja impossível: “Eu acho que a gente é uma mistura muito difícil de separar. Tem aquilo que recebemos, aquilo que escolhemos e aquilo que vamos transformando no caminho”.

O processo criativo fez a atriz perceber que decisões aparentemente individuais também poderiam estar atravessadas por acontecimentos anteriores à própria existência: “A família, os deslocamentos, as perdas, a cultura, as coisas que foram ditas e também as que não foram ditas”.

Foi nesse percurso que encontrou uma ideia que ultrapassa a discussão sobre trauma transgeracional: “Acho que existe também uma espécie de herança afetiva, de gestos, medos, desejos e maneiras de olhar para o mundo que chegam até nós sem manual de instruções”.

A arte, então, ilumina relações que talvez sempre tenham existido, mas permaneciam difíceis de enxergar. Isso não significa, para Dinah, que alguém esteja condenado a reproduzir aquilo que recebeu: “Não acredito que a herança seja uma sentença. A gente recebe muitas coisas, mas também pode escolher o que fazer com elas”.

Nem todo vazio precisa ser preenchido

Com mais de 20 anos de carreira, Dinah Feldman encontra na curiosidade uma força para continuar experimentando: “Ainda existe muita coisa que eu não sei como atriz. E isso, para mim, é uma boa notícia”. Foto: João Caldas
Com mais de 20 anos de carreira, Dinah Feldman encontra na curiosidade uma força para continuar experimentando: “Ainda existe muita coisa que eu não sei como atriz. E isso, para mim, é uma boa notícia”.
Foto: João Caldas

O Vazio na Mala também colocou Dinah diante de uma questão delicada para qualquer artista que transforme histórias reais em criação: o que fazer com aquilo que a memória não preservou?

A ficção pode ocupar essas lacunas, segundo ela, desde que não elimine a força da experiência original: “Acho que ela pode ampliar aquela experiência, fazer com que uma história particular encontre outras pessoas”.

O espetáculo nasceu de uma história silenciosa que quase permaneceu escondida como segredo. Foi pela ficção que aquela memória familiar encontrou a possibilidade de se tornar universal.

Mas há limites, segundo a atriz: “Existe uma responsabilidade nesse processo: entender que aquilo que não sabemos também faz parte da história. Nem todo vazio precisa ser preenchido”.

Às vezes, é a ausência que permite uma aproximação mais profunda: “É justamente o espaço que falta que permite que o público entre naquela história com a própria experiência”.

De Marília à China, todos respirando a mesma história

A capacidade de fazer uma história particular encontrar outras pessoas acompanha Dinah também por meio da narrativa oral.

Ao longo da carreira, ela já contou histórias em contextos radicalmente distintos. Passou por cidades brasileiras, festivais na Colômbia e na África, estudou na Europa e, no ano passado, esteve em festivais de teatro na Escócia e na China.

Depois de tantos territórios, línguas e públicos, uma certeza permaneceu: “Teatro, arte ao vivo, precisa de um diante do outro. Essa potência do encontro é única. Não tem como substituir”.

Um espetáculo pode ser o mesmo, mas nunca será exatamente igual: “Cada noite acontece alguma coisa única, compartilhada por pessoas que estão ali, naquele momento específico. Isso é um tesouro”.

E as diferenças culturais não necessariamente determinam a intensidade dessa troca: “Sem demagogia, para mim, a intensidade de um encontro pode ser a mesma em Marília, no interior de São Paulo, ou em Wuzhen, na China”.

É nesse momento que Dinah chega talvez à imagem que melhor sintetize não apenas sua experiência como narradora, mas toda a conversa sobre Mazal Tov, memória, identidade e teatro: “A gente pode não falar a mesma língua, não ter a mesma religião, não ter a mesma história. Mas, por alguns minutos, estamos diante da mesma história, respirando juntos”.

Mais de 20 anos depois, voltar ao ponto zero

Uma carreira de mais de duas décadas poderia convidar Dinah Feldman a falar principalmente sobre aquilo que domina. Ela prefere preservar espaço para tudo o que ainda não sabe: “Sinto que sempre começo um novo trabalho um pouco no ponto zero”.

É nesse lugar que começa novamente a pesquisar, brincar, experimentar e conhecer aqueles que dividirão o próximo processo. Só depois a bagagem acumulada encontra aquilo que ainda é desconhecido: “Brinco que sempre faço alguma coisa que nunca fiz dentro dessa profissão. Às vezes dá certo, às vezes tem perrengue, dificuldade, frustração. Mas monotonia eu nunca tive”.

Dinah ainda quer experimentar outros formatos. O audiovisual está entre os territórios que deseja explorar mais profundamente, ao mesmo tempo em que pretende continuar investigando a palavra, a narrativa e a transformação que acontece quando uma história atravessa o corpo de quem conta para chegar a quem escuta.

Mas não conhecer todas as respostas não parece provocar insegurança. Pelo contrário: “Acho que ainda existe muita coisa que eu não sei como atriz. E isso, para mim, é uma boa notícia”.

Depois de mais de vinte anos, o frio na barriga também permanece: “No fundo, o que me mantém é a curiosidade. A dúvida. A possibilidade de não saber exatamente o que vai acontecer”.

É significativo que uma conversa iniciada com Mazal Tov, uma história sobre alguém transformado ao encontrar o outro, termine justamente assim. Porque, depois de tantos palcos, países, personagens, mestres, memórias e histórias, Dinah Feldman ainda parece procurar aquilo que poderá surpreendê-la no próximo encontro.

“Gosto daquele frio na barriga antes de começar alguma coisa. Depois de mais de vinte anos, ainda sinto isso. E talvez seja justamente isso que me faz continuar me sentindo viva como artista”.

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