Foto: Velso Ribas
É surpreendente ver o passado documentado de forma tão clara. Além de documentar, Anistia 79, de Anita Leandro, mostra a emoção das pessoas envolvidas naquele cenário. É mais do que entender a história, é sentir o que eles sentiram.
Anistia 79 é um documentário histórico que resgata imagens da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, realizada em Roma, em 1979, em plena ditadura militar brasileira. Hamilton Lopes dos Santos registrou o acontecimento, mas o material ficou guardado em um porão parisiense por quase meio século.
É nesse ponto que o filme se torna ainda mais interessante, importante e histórico. São imagens que permaneceram escondidas durante décadas e que agora voltam à tela para revelar não apenas um acontecimento, mas as pessoas que fizeram parte dele.
Naquele momento, o Brasil vivia os últimos anos da ditadura militar. O presidente Ernesto Geisel havia iniciado o processo de abertura política, definido por ele como “lento, gradual e seguro”. Em 1979, acontecia a troca de presidência, com João Figueiredo assumindo o cargo. Meses depois, em agosto daquele ano, ele sancionaria a Lei da Anistia.
O documentário também evidencia uma das principais contradições da lei: ao mesmo tempo em que permitiu o retorno de brasileiros exilados e a libertação de perseguidos políticos, a anistia também alcançou agentes do Estado envolvidos na repressão da ditadura, ou seja, anistiou também os militares. A discussão sobre seus significados e seus efeitos permanecem, até hoje, como uma questão importante para a memória e a justiça no Brasil.
‘Anistia 79’ transforma imagens esquecidas em memória viva
Anistia 79 não se limita a apresentar essas imagens como documentos históricos. Durante as cenas inéditas, pessoas que fizeram parte daquela história assistem às gravações e comentam o que veem. Entre elas estão Luiz Eduardo Greenhalgh, Heloísa Greco, Hamilton Lopes dos Santos, Dirceu Greco Monteiro, Branca Moreira Alves, José Pedro da Silva, Marijane Lisboa, Jean Marc von der Weid, Denise Leal, Mariana Conceição Leal e Denise Crispim.
São exilados, filhos de exilados ou pessoas próximas de quem viveu os horrores da ditadura e perdeu amigos e familiares ao longo dos 21 anos de regime militar.
Ao longo do documentário, os personagens vão se identificando nas imagens, reconhecendo pessoas próximas e contando suas lembranças. O que inicialmente parece apenas um registro histórico ganha outra dimensão quando aqueles que estiveram ali passam a reencontrar, diante da câmera, uma parte de suas próprias histórias.
Um dos pontos mais interessantes de Anistia 79 é ouvir essas pessoas contando os detalhes da história a partir de seus próprios pontos de vista. As torturas, as viagens para o exílio, o medo, a luta, a união e também o reencontro com os amigos durante a Conferência em Roma deixam de ser apenas acontecimentos registrados em livros e passam a ser lembranças contadas por quem viveu tudo aquilo.
É essa aproximação entre o documento histórico e a memória de quem participou dos acontecimentos que dá força ao filme. As imagens não estão ali apenas para mostrar o que aconteceu, mas para provocar lembranças, emoções e reencontros.
Relembrar a história é importante para não reviver momentos como aquele. E Anistia 79 se torna ainda mais importante por mostrar que, apesar de tudo o que foi vivido, a luta pela anistia, pelo retorno dos exilados e pela democracia não foi em vão.

Jornalista apaixonada por boas histórias. Entre filmes, séries, livros e espetáculos, está sempre em busca de narrativas que mereçam ser compartilhadas.
