Antes mesmo de Amor em Ruínas estrear, João Gana já precisou atravessar territórios desconfortáveis para encontrar Pecaías. Em conversa exclusiva ao Pittaplay, o ator abriu detalhes da construção do vilão da nova série bíblica da Record e falou sobre medo, mergulho emocional, ética em cena e o processo intenso de defender um personagem que, muitas vezes, caminha na direção oposta dos seus próprios valores.
Amor em Ruínas se passa na antiga Israel, em período marcado por instabilidade espiritual e decadência moral, acompanhando a história do profeta Oseias, a ser interpretado pelo ator Murilo Cezar e o relacionamento intenso e desafiador com Gomer, papel de Letícia Laranja, que já contou ao Pittaplay sobre sua construção para viver a protagonista. Clique aqui para ler a entrevista completa.
A Univer Vídeo que está à frente da produção da trama promete uma narrativa já conhecida pelo público, mas que vai ganhar ainda mais força com a proposta da produção.
Pecaías, o vião que João Gana vai viver, não foi construído a partir da caricatura do antagonista clássico. Pelo contrário. João revela que o maior desafio esteve justamente em acessar humanidade dentro de alguém marcado pela manipulação e pelo poder: “Existem algumas ações do personagem que me atravessaram de forma mais intensa, principalmente por irem de encontro com valores meus. Em alguns momentos, precisei refletir até onde eu iria emocionalmente para defender essas atitudes em cena”.
A humanidade dentro do vilão
Ao longo da conversa, João evita tratar Pecaías como alguém definido apenas pela crueldade. Para ele, a construção do personagem começa justamente quando o julgamento termina: “Procuro não julgar as pessoas, nem na vida e nem em cena”, afirma.
Esse entendimento mudou completamente sua relação com o papel: “Quando isso virou uma chave pra mim, a construção ficou muito mais profunda e verdadeira, porque parei de apontar o dedo e comecei a defender aquele ponto de vista com mais honestidade”.
É dessa escolha que nasce um vilão menos previsível e mais humano: “O personagem ganha mais camadas, mais humanidade, e deixa de ser só mais um vilão”.
O corpo oposto ao próprio ator

Professor de yoga e ligado a práticas de equilíbrio emocional, João precisou acessar um corpo completamente diferente do seu para viver Pecaías. O personagem exige tensão, rigidez e violência em cena, elementos distantes da energia que o ator cultiva na vida pessoal.
“Foi uma experiência muito intensa e também transformadora. Gosto de interpretar personagens que me tiram do lugar comum, porque isso amplia meu olhar como ser humano.”
Esse mergulho também passou pelo entendimento histórico da narrativa: “Quanto mais distante de mim eu acho, mais interessante se torna o desafio”. E completa: “Nós somos plurais. O ser humano não cabe em uma definição única, e é isso que torna tudo tão rico”.
Um personagem moldado pelo poder
Dentro da trama, Pecaías nasce em estrutura marcada por autoridade e conflitos. Filho de figuras centrais do reino, ele cresce atravessado por relações de poder que influenciam diretamente sua visão de mundo.
“No início, ele é muito fruto da criação que recebeu, principalmente da relação com o pai, que é general. Isso molda o comportamento, a rigidez, a forma de ver o mundo”.
Mas João destaca que o personagem vai além do determinismo familiar: “À medida que ele ganha poder e autonomia, começa a fazer escolhas próprias. E é aí que a complexidade aumenta, porque ele deixa de ser apenas produto do meio e passa a ser responsável pelos próprios caminhos”.
O vilão como reflexo de uma sociedade em colapso
Mais do que provocar conflitos individuais, João enxerga Pecaías como peça central da tensão narrativa de Amor em Ruínas. Para ele, o personagem também funciona como reflexo direto do ambiente em decadência que sustenta a trama.
“Ele movimenta a narrativa, provoca conflitos o tempo inteiro, mas também é reflexo de um ambiente em colapso”. Essa percepção muda a forma de enxergar o antagonista: “Ele não existe isolado, ele é resultado de uma estrutura, de relações de poder e de um mundo em desequilíbrio”.
Referências, luta e densidade emocional

Na preparação, João buscou referências cinematográficas e mergulhou em personagens que escondem fragilidade atrás de rigidez emocional: “Procurei me aprofundar nos personagens que evitam demonstrar fragilidade, onde sentir pode ser visto como fraqueza”.
Fisicamente, o processo também exigiu transformação: “Procurei me aproximar do universo da luta, o que me ajudou muito a construir esse cenário”.
A intenção era evitar um antagonista superficial. E é justamente por isso que ele acredita que Pecaías pode provocar sentimentos contraditórios no público.
Entre a rejeição e a empatia
João reconhece que existe linha tênue entre afastar o espectador e despertar fascínio. Para ele, o personagem caminha exatamente nesse limite: “Pecaías tem atitudes que são difíceis de aceitar, mas ao mesmo tempo existem camadas humanas que podem gerar identificação”.
Mas o ator faz questão de separar compreensão de justificativa: “Meu objetivo não é justificar o personagem, mas permitir que o público se reconheça em alguns conflitos”.
No fim, o que mais interessa é a reflexão: “Entender que o ser humano é complexo, capaz de luz e de sombra”.
O medo como combustível
Estrear na televisão já interpretando um antagonista de peso naturalmente trouxe inseguranças. E João não tenta esconder isso: “O medo apareceu em vários momentos sim, e eu fui com ele”.
O ator conta que mergulhou intensamente na preparação para sustentar emocionalmente o personagem: “Teve um momento em que fiquei dias praticamente vivendo a história, estudando sem parar. Eu só saía da frente do roteiro pra me alimentar e dormir”.
Foi experiência quase imersiva: “Acredito muito nisso: a gente não começa pronto, a gente se constrói no caminho”.
A própria história atravessando a ficção

João também fala com orgulho sobre sua trajetória antes da televisão. Vindo de realidade distante do centro da indústria, ele vê sua história pessoal como parte fundamental da forma como constrói personagens.
“Minha história pessoal influencia tudo que faço. Sempre fui muito conectado com o imaginário, com a criação, desde criança”.
E completa: “Venho de realidade desafiadora e poder atravessar esses espaços hoje é motivo de muito orgulho”. Essa vivência fortalece sua busca por personagens que carreguem verdade: “Isso me dá ainda mais vontade de contar histórias e dar vida a personagens que tenham verdade”.
Uma carreira sem zona de conforto
Mesmo vivendo sua primeira experiência na TV aberta, João não pensa em estabilidade artística. O desejo é justamente continuar se desafiando: “Ainda estou no começo da minha trajetória, então me sinto muito aberto. Não penso em um tipo específico de papel”.
Mais do que personagens específicos, ele busca expansão: “Quero viver o máximo de histórias possível, explorar diferentes universos, ampliar meu repertório”.
E resume sua visão sobre atuação de forma simples: “Pra mim, atuar é justamente isso. Uma oportunidade constante de expansão”.
O início de Amor em Ruínas
O convite para integrar o elenco da nova série bíblica da Record surgiu através da agência do ator, em processo conduzido pelo diretor de elenco Edu Pradella: “Recebi com muita gratidão e responsabilidade. É um personagem desafiador, e isso exige entrega total”.
João também faz questão de destacar o trabalho coletivo da produção: “Sou muito grato a toda a equipe envolvida, direção, preparação, produção. É um trabalho construído em conjunto. E tem sido uma experiência muito especial”.
Amor em Ruínas estreia em 17 de julho Univer Vídeo e depois deve estrear na Record e a produção é em parceria com o Univer Vídeo e a Seriella Productions. Ambientada na antiga Israel, a trama acompanha a história do profeta Oseias e mergulha em temas como fé, poder, decadência moral e relações humanas atravessadas por conflitos e redenção.
