Júlio Kadetti transforma memória de Aguinaldo Silva em retrato de um Brasil que insiste em não mudar 

Júlio Kadetti transforma memória de Aguinaldo Silva em retrato de um Brasil que insiste em não mudar 

Foto: Arquivo Pessoal

Adaptar uma obra é também interpretá-la. É decidir o que permanece, aquilo que precisa desaparecer e quais sentidos podem surgir quando uma história deixa as páginas de um livro para ocupar o palco. Para Júlio Kadetti, esse exercício ganhou responsabilidade ainda maior em Lábios que Beijei: por trás da literatura estava a experiência profundamente pessoal de Aguinaldo Silva.

Em cartaz no Teatro Laura Alvim, no Rio de Janeiro, o espetáculo dirigido por Marco Miranda nasce de obra considerada quase autobiográfica por Aguinaldo e retorna à Lapa entre 1969 e 1970. No centro está um jovem escritor negro, conhecido como “a Escritora”, recém-chegado ao Rio e disposto a encontrar seu lugar como autor. Ao redor dele estão prostitutas, malandros e personagens colocados à margem de uma sociedade que, enquanto celebrava a conquista da Copa do Mundo, também atravessava os anos mais violentos da ditadura militar.

Mas antes de pensar nesse Brasil, Júlio precisou entrar na memória de outro escritor: “Entrar artisticamente na obra de qualquer autor exige coragem, ousadia e grande responsabilidade em relação à obra e ao autor”, afirma em entrevista exclusiva ao Pittaplay.

Adaptar também é interpretar

Júlio guarda lembrança envolvendo Lygia Fagundes Telles para explicar como compreende o trabalho de adaptação. Ele estava sentado ao lado da escritora durante uma palestra de um roteirista que havia acabado de adaptar uma de suas obras.

Depois de ouvi-lo explicar como enxergava a trama e os personagens, Lygia teria se voltado para a acompanhante e demonstrado surpresa diante de elementos que nem ela havia percebido no próprio livro.

A experiência ajudou Júlio a compreender algo fundamental sobre esse processo: “A adaptação de qualquer obra literária, seja para o teatro, para TV ou para o cinema, é um exercício hermenêutico, e a hermenêutica nos mostra que ninguém lê e entende um livro da mesma maneira”.

Por isso, adaptar pressupõe também apropriação e subjetividade: “Se aventurar na adaptação de um livro é mergulhar nessa obra, se apropriar da história e dos personagens e depois sentar e contar essa história a partir de uma interpretação única e subjetiva. Nem sempre o resultado final agrada ao autor da obra”.

Com Lábios que Beijei, entretanto, havia uma camada adicional. Aguinaldo não era apenas o autor de um material que Júlio admirava. Era mestre, amigo e ídolo: “Só comecei a escrever porque sabia que teria toda liberdade, mas, e até para continuar merecendo essa liberdade, tomei muito cuidado para não desvalorizar a obra literária escrita pelo Aguinaldo e, principalmente, para não desrespeitar a história do Aguinaldo”.

A razão desse cuidado aparece na definição que faz da própria obra: “Lábios que Beijei não é peça de ficção, mas relato de uma história de paixão que o Aguinaldo viveu e que deixou marcas profundas nele”.

Uma adaptação que Aguinaldo só conheceu quando estava pronta

Em Lábios que Beijei, a Lapa dos anos de chumbo abriga uma história de paixão, desejo e resistência enquanto personagens marginalizados tentam sobreviver à repressão e à violência da ditadura militar. Foto: Rodolfo Abreu.
Em Lábios que Beijei, a Lapa dos anos de chumbo abriga uma história de paixão, desejo e resistência enquanto personagens marginalizados tentam sobreviver à repressão e à violência da ditadura militar.
Foto: Rodolfo Abreu.

A ideia de adaptar Lábios que Beijei começou a acompanhar Júlio ainda em 2015, depois de sua participação como roteirista na criação da sinopse e dos primeiros capítulos de O Sétimo Guardião.

A parceria artística continuou. Aguinaldo o incentivou a escrever série sobre a vida do jornalista João do Rio. O projeto não avançou na Globo, e Júlio partiu para outra empreitada: uma novela policial de cem capítulos construída a partir de cinco obras de Aguinaldo Silva — Lili Carabina, República dos Assassinos, 98 Tiros de Audiência, O Homem que Comprou o Rio e Aquele que Deve Morrer.

Lábios que Beijei permaneceu fora justamente por possuir outra natureza. Depois de terminar o roteiro da novela, Júlio retornou ao livro. Dessa vez, decidiu escrever sua adaptação teatral sem contar ao autor: “Comecei a escrever sem que o Aguinaldo soubesse. Só mostrei a ele quando estava pronto”.

A resposta veio sem a necessidade das grandes negociações que poderiam ser esperadas ao adaptar uma memória tão pessoal: “Ele gostou da adaptação e aprovou sem qualquer ressalva”.

“A paixão do escritor pelo Alemão é a espinha dorsal”

A aprovação não eliminava um dos maiores desafios de qualquer adaptação: escolher. 

O livro possui dezenas de personagens. Reproduzir todos no palco poderia comprometer a fluidez da montagem, tornando-a excessivamente longa e fragmentada. Júlio decidiu concentrar a dramaturgia naqueles diretamente ligados ao conflito principal.

Havia, entretanto, algo intocável: “Lábios que Beijei conta a história de uma paixão avassaladora entre um jovem escritor e um malandro bonito, sensual e muito esperto. Isso tinha que permanecer”.

O jovem escritor chega ao Rio sonhando com a literatura e encontra em Alemão uma paixão capaz de determinar os rumos daquela experiência: “A paixão do escritor pelo Alemão é a espinha dorsal do espetáculo”.

Todo o restante precisaria, portanto, gravitar ao redor dessa relação: “O livro também tem dezenas de personagens e seria impossível manter todos. Por isso, só deixei aqueles que estavam diretamente relacionados à trama principal. Do contrário, o espetáculo ficaria longo, chato e fragmentado”.

“Não são as histórias que se repetem, mas o Brasil que não muda nunca”

A história pertence ao final dos anos 1960 e início dos 1970, mas Júlio não acredita que o espectador consiga observá-la apenas como retrato de um passado encerrado: “Costumo dizer que não são as histórias que se repetem, mas o Brasil que não muda nunca”.

Na peça, a Lapa é ocupada por personagens marginalizados que discutem, amam, desejam e tentam sobreviver enquanto uma ameaça muito maior circula ao redor deles: “Lábios que Beijei se passa em uma Lapa habitada por grupo de pessoas que gasta energia brigando entre si sem perceber o perigo maior que ronda a todos”.

É desse comportamento que Júlio parte para estabelecer sua leitura do Brasil contemporâneo. Para ele, o país vive atualmente o risco de um “abismo político”, e as divisões internas da sociedade dificultam a percepção de ameaças coletivas.

Ao comparar os dois períodos, o dramaturgo faz uma leitura política contundente sobre o presente e enxerga permanências entre as forças autoritárias daquele período e movimentos contemporâneos: “Hoje, como na década de 1970, grande parte da população vive como se não percebesse o perigo que ronda todos nós”.

Quem ganha o direito de contar uma história?

Em Lábios que Beijei, personagens da Lapa vivem paixões, conflitos e desejos sob a repressão da ditadura, em uma história que confronta memória, exclusão e resistência. Foto: Rodolfo Abreu.
Em Lábios que Beijei, personagens da Lapa vivem paixões, conflitos e desejos sob a repressão da ditadura, em uma história que confronta memória, exclusão e resistência.
Foto: Rodolfo Abreu.

Essa relação entre passado e presente ganha outra dimensão quando Júlio é questionado sobre os personagens que ocupam o centro de Lábios que Beijei.

São pessoas que estiveram à margem não apenas da sociedade, mas muitas vezes dos próprios registros oficiais da história. Prostitutas, malandros, homossexuais e outros sujeitos considerados indesejáveis deixam de ocupar as bordas para assumir o protagonismo.

Ao falar sobre representatividade, Júlio prefere abandonar resposta teórica e olhar diretamente para as pessoas envolvidas na criação da montagem: “Eu poderia escrever uma resposta longa, pretensamente profunda e politicamente engajada, mas vou lembrar que o espetáculo dramatúrgico Lábios que Beijei é adaptado da história real de um nordestino, preto, pobre, viado… que enfrentou sozinho todos os obstáculos e se transformou em um escritor de sucesso, rico e respeitado”.

Depois, olha para si próprio: “E que essa história está sendo contada por um dramaturgo preto, filho de lavradores, viado… que enfrentou vários desafios para desfrutar do direito de contar essa história”.

A resposta aproxima autor, adaptador e personagens. Quem um dia precisou lutar para ocupar determinados espaços agora possui também o poder de narrar a experiência daqueles que historicamente tiveram suas vozes reduzidas ou apagadas.

Júlio encontra numa poesia de Leia Miccolis uma síntese para seu pensamento: ninguém precisa ser aquilo que os outros determinam que seja.

Enquanto o Brasil comemorava

Existe uma imagem histórica particularmente forte atravessando a montagem.

Enquanto os personagens enfrentam repressão, censura e violência, o Brasil celebra a Copa do Mundo de 1970. O contraste entre festa e horror não aparece por acaso na adaptação: “Escrevi Lábios que Beijei também para lembrar que a ditadura militar utilizou intensamente a propaganda ufanista e o futebol como cortina de fumaça”.

Júlio recorda slogans como “Ame-o ou deixe-o”, o hino “Noventa milhões em ação” e manifestações da cultura popular daquele período como parte de uma narrativa oficial que, em sua leitura, ajudava a deslocar a atenção de prisões, torturas e censura.

“A maioria dos brasileiros não sabe definir o que foram, de fato, os chamados ‘anos de chumbo’”.

Para ele, a maneira como uma sociedade preserva o passado está diretamente ligada às relações de poder: “Isso demonstra como a infraestrutura usa todo o seu poder para esconder crimes, violações de direitos humanos, corrupção… e moldar a memória de maneira que essa não ameace o status quo”.

Um país não possui apenas uma memória

É por isso que Júlio rejeita a ideia de uma memória nacional homogênea. O mesmo Brasil pode ser vivido de maneiras completamente diferentes dependendo da posição ocupada por cada pessoa dentro da sociedade: “Os donos do poder sabem que a história de um país é vivida de maneiras radicalmente diferentes dependendo da posição social e política de seus cidadãos”.

Em Lábios que Beijei, essa diferença aparece de maneira concreta. Há um Brasil que comemora. Há outro que tenta sobreviver: “A memória nacional não é única; ela é feita de múltiplas camadas de experiências complementares e, muitas vezes, violentamente opostas”.

Por isso, retornar à Lapa dos anos de chumbo significa mais do que reconstruir uma época. É devolver o olhar para pessoas que também viveram aquele Brasil, embora suas experiências nem sempre tenham ocupado o centro das narrativas posteriormente construídas sobre ele.

Júlio sabe que está contando uma história de paixão. A paixão de um jovem escritor por Alemão continua sendo a espinha dorsal de Lábios que Beijei. Mas ao redor desse amor existe um país inteiro: autoritário, contraditório, desigual e atravessado por pessoas tentando existir apesar de tudo.

É nesse encontro entre o íntimo e o coletivo que a adaptação encontra sua força. A memória de Aguinaldo Silva leva Júlio Kadetti de volta a um Brasil de mais de cinco décadas atrás. Mas o dramaturgo não quer que o espectador deixe o teatro apenas olhando para 1969 ou 1970: “O que quero com a minha arte é que o espectador reflita sobre a responsabilidade”.

Porque, para Júlio, a pergunta provocada por Lábios que Beijei não é somente o que aquele Brasil fez com aquelas pessoas, mas também o que fazemos, no presente, diante daquilo que escolhemos enxergar ou ignorar.

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