Foto: Marcio Farias
Depois de quase quatro décadas de carreira, Luciano Quirino parece ter encontrado aquilo que mais o move como artista. Não é o tamanho do personagem, o formato da produção ou a plataforma em que a história será contada. O que desperta seu interesse são personagens atravessados por conflitos, contradições e escolhas difíceis.
Atualmente, o ator vive Pascoal em A Nobreza do Amor, personagem que se movimenta pelos bastidores do poder. Ao mesmo tempo, o público também poderá vê-lo como Mendonça, em Dona Beja; como o delegado Aquino no filme inspirado no caso Elize Matsunaga; e, em breve, novamente nos palcos interpretando Carlos Gomes.
Em entrevista ao Pittaplay, Luciano refletiu sobre essa fase da carreira e explicou por que, hoje, procura histórias que provoquem mais perguntas do que respostas.
A atuação também acontece no silêncio
Em A Nobreza do Amor, Pascoal raramente revela aquilo que pensa. Para Luciano, justamente aí está o maior desafio da construção: “Acredito que o mais desafiador é interpretar alguém que esconde o que pensa. Quando o personagem verbaliza suas intenções, ele entrega parte do caminho ao ator. Já quando ele guarda tudo para si, a atuação precisa acontecer nos silêncios, nos olhares, na respiração, na presença.”
Segundo o ator, Pascoal exige uma construção interna constante: “Pascoal me exige isso o tempo todo. Ele raramente revela suas cartas, então o trabalho é construir uma vida interna muito forte para que o público perceba que algo está acontecendo, mesmo quando ele não diz uma palavra.”
Essa característica também define a maneira como o personagem ocupa os espaços de poder dentro da narrativa.
Inteligência antes da força

Ao comentar a trajetória de Pascoal, Luciano acredita que sua principal arma nunca foi a força física: “A inteligência. A força pode intimidar, mas a inteligência estratégica é capaz de mover pessoas, criar alianças e manipular situações.”
Na visão do ator, Pascoal constrói seu poder porque observa antes de agir: “Ele observa, analisa e só depois age. Ele não é o tipo de personagem que entra em confronto sem necessidade. Sua maior arma é perceber rapidamente onde estão as fragilidades e como pode se beneficiar delas.”
Essa estratégia também aparece na relação construída com o rei Jendal: “Acho que existe uma mistura de tudo isso. Inicialmente, a relação nasce da conveniência e do interesse mútuo. Mas, à medida que convivem, surge uma espécie de reconhecimento. Pascoal percebe em Jendal alguém tão ambicioso e estratégico quanto ele. Existe uma admiração silenciosa entre os dois, mas sempre atravessada pelo jogo de poder. É uma relação em que ninguém baixa completamente a guarda.”
Personagens que habitam as zonas cinzentas

Ao longo da carreira, Luciano interpretou mocinhos, homens comuns e vilões. Hoje, admite sentir interesse especial por personagens moralmente ambíguos: “Sem dúvida. Os personagens ambíguos nos lembram que o ser humano é contraditório. Ninguém é completamente bom ou completamente mau. Muitas vezes, essas figuras transitam por zonas cinzentas que revelam medos, desejos, fragilidades e escolhas difíceis. Isso os torna extremamente humanos e, por isso mesmo, muito interessantes de interpretar.”
Para ele, A Nobreza do Amor amplia ainda mais essa discussão ao inserir essas disputas em um universo pouco explorado pela dramaturgia brasileira: “O que mais me chamou atenção foi a forma como esses temas aparecem dentro de um universo pouco explorado pela dramaturgia brasileira. A novela fala de poder e ambição, mas também de identidade, pertencimento, ancestralidade e representação. Isso amplia muito a discussão e torna a narrativa ainda mais rica.”
Linguagens diferentes, desafios diferentes

Nos últimos anos, Luciano transitou entre televisão aberta, streaming e cinema. Em Dona Beja, interpretou Mendonça, personagem movido por conflitos entre amor, honra e desejo: “Foi uma experiência muito rica. Mendonça vive conflitos profundamente humanos e isso sempre me interessa como ator.”
Ao comparar os formatos, ele observa diferenças importantes: “O streaming costuma permitir uma narrativa mais concentrada, com uma construção mais cinematográfica. Já a novela aberta tem um diálogo diário com o público e uma dinâmica muito viva, que se transforma ao longo da exibição. Gosto muito dos dois formatos porque cada um exige ferramentas diferentes do ator.”
No cinema, o desafio ganha outro peso: “Quando você trabalha com fatos reais, existe uma responsabilidade adicional porque aquelas pessoas existiram e suas histórias impactaram muitas vidas. É preciso pesquisar, compreender o contexto e tratar o material com respeito. O objetivo não é reproduzir alguém mecanicamente, mas buscar a verdade humana daquele personagem dentro da narrativa.”
O tempo muda as perguntas
Quase quarenta anos depois do início da carreira, Luciano acredita que seus desafios também mudaram: “Hoje me desafia justamente a busca pela profundidade. Quando somos mais jovens, muitas vezes estamos preocupados em provar que somos capazes. Hoje me interessa investigar o ser humano com mais delicadeza e complexidade.”
Esse processo também desperta novos interesses: “Também me desafia continuar me reinventando, aprendendo novas linguagens e encontrando formas de permanecer artisticamente inquieto.”
Mesmo com tantos trabalhos no audiovisual, ele afirma que o teatro continua sendo o lugar de maior exposição: “O teatro continua sendo o lugar da maior exposição. No palco não existe edição, corte ou segunda tomada. É o encontro direto entre artista e público. Talvez por isso ele continue sendo tão fascinante para mim. É um espaço de risco, de presença e de verdade. Cada apresentação é única.”
Personagens que permanecem
Ao olhar para Pascoal, Mendonça, Aquino e Carlos Gomes, Luciano identifica um elo entre todos eles: “A complexidade humana. São personagens muito diferentes entre si, mas todos carregam conflitos profundos, escolhas difíceis e uma dimensão humana que convida o público à reflexão. Hoje me interessam personagens que não oferecem respostas fáceis, mas que provocam perguntas.”
Essa filosofia também explica aquilo que mais deseja como ator: “Sem dúvida, personagens que o público não consegue esquecer. O amor do público é maravilhoso, mas a memória é ainda mais poderosa. Quando um personagem permanece vivo na lembrança das pessoas, significa que ele tocou algo verdadeiro. É isso que procuro como ator: construir personagens que continuem dialogando com o público mesmo depois que a obra termina.”
