Foto: Beatriz Damy/Globo
Zara não foi criada para passar despercebida. Ambiciosa, manipuladora e responsável por colocar em movimento parte importante de Nas Profundezas do Amor, a vilã interpretada por Thaila Ayala precisava existir “um tom acima”. Para a atriz, porém, elevar a personagem sem ultrapassar a fronteira da caricatura tornou-se justamente um dos grandes desafios da produção vertical do Globoplay, que estreou nesta terça-feira (25).
A intensidade cobrou até fisicamente. Foram 10 dias de gravações marcados por agressividade verbal, física e uma energia que precisava permanecer elevada mesmo quando Zara sequer dizia alguma coisa: “Construir a Zara nesse tom acima foi desafiador, pois o risco do exagero está muito próximo. Isso exige energia absurda; mesmo sem abrir a boca, a presença da personagem já precisa estar em um patamar elevado, o que me deixa fisicamente exausta (risos)”.
Thaila conta que passou os 10 dias de trabalho com a garganta inflamada de tanto gritar, apesar dos cuidados com a voz. Para encontrar verossimilhança dentro dessa intensidade, buscou uma referência próxima: “Usei como referência a vivência de uma amiga querida que desenvolveu uma doença psíquica grave. Ela vivia normalmente e, em determinado momento, teve virada de chave no psíquico e virou uma doença que você tem que conviver para o resto da vida. Essa referência me ajudou a construir um tom elevado para a Zara que permanecesse real e humano”.
Uma vilã cruel sem julgá-la
Encontrar humanidade em Zara não significa suavizar aquilo que ela faz. Thaila define a personagem como cruel do início ao fim e reconhece que suas justificativas não estão necessariamente apresentadas de maneira explícita no roteiro.
Foi no trabalho interno como atriz que ela procurou sustentação para interpretar comportamentos tão distantes dos seus: “Para justificá-la internamente, criei camadas relacionadas a um quadro psíquico mais severo, como uma patologia ou desvio de personalidade. Embora isso não estivesse detalhado no texto original, mergulhar nesse universo me deu a sustentação necessária para interpretar a crueldade e a falta de limites da personagem sem julgá-la”.
A distância entre atriz e personagem também ajudou a tornar o trabalho estimulante. Thaila estima que quase 90% das situações gravadas por ela jamais fariam parte de sua vida real: “Estava com muita vontade de fazer uma vilã como a Zara, com desvio de caráter marcado desde o início. As sequências da Zara envolvem momentos de grande agressão física e verbal. Ao mesmo tempo, tentei trazer nuances humanas para que ela não ficasse plana”.
Nesse processo, a parceria com Cristiano Marques [diretor da produção] ganhou importância. Depois de entregar aquilo que estava previsto no roteiro, Thaila recebia do diretor liberdade para improvisar e experimentar outros caminhos para Zara.
Cristiano Marques, Zara e uma nova linguagem
A relação com Cristiano também esteve entre os motivos que levaram Thaila a aceitar Nas Profundezas do Amor. Os dois já haviam trabalhado juntos em Sangue Bom e Família É Tudo: “Quando ele me chamou, olhei para o projeto com um carinho especial. Além disso, ao ler o roteiro, gostei bastante da história. Quando li sobre a Zara, achei a personagem deliciosa e um ótimo desafio de vilania”.
Desde o início, segundo ela, o diretor buscava uma vilã que também carregasse um toque cômico. A combinação entre personagem, direção e possibilidade de aprender outra linguagem terminou de conquistá-la: “Achei essa combinação muito interessante: a direção dele, uma personagem diferente de tudo que já fiz e a oportunidade de aprender nova linguagem. Na nossa profissão, ter a oportunidade de aprender é sempre maravilhoso”.
Thaila, porém, não encara o trabalho exatamente como um retorno à dramaturgia. A atriz lembra que gravou Família É Tudo recentemente e também vinha de dois longas no cinema.
O elo entre seu trabalho anterior e Zara aparece no tom das personagens. Embora não enxergue em Família É Tudo uma vilania tão pesada, Thaila identifica ali uma interpretação que também exigia intensidade maior e acredita que isso contribuiu para Cristiano pensar novamente em seu nome.
Dois minutos para fazer Zara existir
Se Zara já exigia energia elevada, o formato vertical acrescentou outra dificuldade: tempo.
Os capítulos têm aproximadamente dois minutos, fazendo com que a personagem precise apresentar suas diferentes camadas em aparições muito menores do que teria em uma novela tradicional: “O tempo é extremamente reduzido e tentamos condensar várias camadas da personagem em pouquíssimas cenas. Em episódios de dois minutos, cada cena dura cerca de 30 segundos, o que exige máxima atenção e presença em cada aparição”.
Sobre ter encontrado o equilíbrio entre intensidade e caricatura, Thaila prefere deixar que o público responda: “Vou descobrir junto com o público se consegui atingir esse equilíbrio (risos). Espero que sim. Minhas escolhas buscaram evitar a caricatura”.
A própria câmera vertical ainda era uma descoberta para ela. Antes das gravações, havia assistido somente a um ou dois episódios de produções no formato e decidiu confiar principalmente na direção.
Uma experiência no set deixou evidente o quanto a nova linguagem também modificava sua percepção sobre aquilo que estava sendo registrado: “Lembro de gravar uma cena de alta carga dramática, muito entregue na emoção. O autor Paulo Ferreira foi visitar o set logo em seguida e pedi para mostrarem a cena para ele. Quando vi no monitor vertical, percebi que o corte da câmera estava no meu joelho, com a imagem da minha cabeça mais distante. É bem louco para o ator. Por isso, não sei dizer o que vai para a edição final”.
Uma vilã que coloca a história em movimento
Zara não ocupa apenas o lugar da antagonista. Ao planejar o atentado contra Madalena e incriminar Serena, ela desencadeia acontecimentos centrais de Nas Profundezas do Amor. E foi justamente essa importância dentro da engrenagem da história que fez Thaila enxergar ainda mais potencial no papel.
“Foi exatamente essa centralidade que me fez aceitar o papel. Quando vi a importância da Zara na condução da história e os caminhos que poderia explorar, entendi o tamanho do desafio”.
Para a atriz, mais do que a orientação vertical ou horizontal da tela, estava em jogo a oportunidade de encontrar uma personagem capaz de tirá-la de lugares conhecidos: “Todo ator busca papéis que o tirem da zona de conforto e o façam aprender. Independentemente de ser um formato vertical ou horizontal, o fato de a personagem ter um papel tão ativo em mover a trama foi o que me prendeu”.
A experiência parece ter aberto nova possibilidade na trajetória de Thaila. A atriz revela que já recebeu outro convite para trabalhar em uma produção vertical, embora seu próximo movimento esteja direcionado a um projeto próprio: “Foi uma experiência excelente. Inclusive, já recebi convite para outro projeto vertical, mas no momento estou focado na pré-produção do meu projeto autoral, que vou dirigir no segundo semestre”.
Depois de experimentar uma vilã que grita, agride, manipula e exige que sua intérprete permaneça constantemente acima do tom, Thaila não fecha as portas para o que vier depois de Zara: “De qualquer forma, sigo totalmente aberta a novos convites, pois amo atuar em qualquer formato”.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
