Foto: Ibsen Vasconcellos
Jack Berraquero não mede um personagem pelo número de cenas, pelo tamanho das falas ou pela posição que ocupa nos créditos. Formado no teatro de rua, o ator atravessou mais de duas décadas de carreira construindo figuras muito diferentes e mantém diante de cada novo trabalho uma disposição que ele próprio resume de maneira simples: “Eu tô pra jogo”.
Essa percepção atravessa um momento em que projetos distintos se encontram em sua trajetória. Jack integra Carolina, Quarto de Despejo, dirigido por Jefferson De e premiado em Cannes; está em Impuros; interpreta Roberto na comédia Socorro! Tô Falido, de Fred Mayrink; e ainda revela uma participação em A Nobreza do Amor, novela das seis da Globo.
Em comum entre trabalhos aparentemente tão distantes está a maneira como o ator procura fazer cada personagem existir: “Nunca tive a oportunidade de escolher personagens, mas sempre tibe o privilégio de ser escolhido por eles”.
Carolina exige cuidado para que a pobreza não vire estereótipo
Em Carolina, Quarto de Despejo, Jack interpreta Alexandre e entra em uma narrativa atravessada pela experiência registrada por Carolina Maria de Jesus. Para o ator, trabalhar dentro de uma história com esse peso modifica a responsabilidade envolvida na criação.
“A entrega tem que acompanhar o peso e importância daquela figura para a partitura da construção da personagem. Isso exige do ator uma escuta e uma pesquisa muito cuidadosa, evitando transformar a pobreza em estereótipo ou usar o sofrimento apenas como recurso dramático”.
Sua preocupação está em não reduzir aquelas pessoas à condição social que as cerca. Ao construir Alexandre, Jack procurou imaginar uma trajetória anterior ao período apresentado na história, passando pela infância e adolescência do personagem, além de recorrer às próprias memórias afetivas.
“Carolina não escreveu apenas sobre pobreza, miséria. Ela escreveu sobre pessoas, sobre relações, fome, sobre violência doméstica, sobre violência social, mas também sobre desejo, vaidade, indignação, esperança e sobrevivência”.
É dessa complexidade que parte seu trabalho: “O meu ofício como ator é buscar preservar essa complexidade, permitindo que a personagem exista para além da estatística ou da função que ele desempenha na história”.
“Nunca ‘tento’ transformar nenhum personagem em símbolo”

A força social da obra também poderia criar outra armadilha: fazer com que o ator tentasse carregar cada gesto com a importância histórica da narrativa. Jack prefere outro caminho: “Nunca ‘tento’ transformar nenhum personagem em símbolo. Eles surgem e são construídos a partir daquela narrativa. Sendo fictícia ou não”.
Ao lado de Maria Gal, que interpreta Carolina, e sob direção de Jefferson De, ele encontrou justamente no equilíbrio uma maneira de preservar a humanidade de Alexandre: “Sempre queremos engrandecer os nossos personagens na nossa passagem pela história. Mas tem o risco do ator perder a humanidade da personagem, aí o equilíbrio se perde junto”.
O encontro com a obra de Carolina também aprofundou uma percepção que Jack já carregava de sua própria trajetória. Há mais de 20 anos vivendo no Rio de Janeiro, ele realizou trabalhos sociais e intervenções teatrais em diferentes favelas. Na Cidade de Deus, deu aulas de teatro, trabalhou e chegou a morar durante um período: “A experiência com ‘Quarto de despejo’ ampliou ainda mais a minha compreensão da desigualdade social brasileira”.
De Alexandre a Tubarão
Embora Carolina, Quarto de Despejo e Impuros pertençam a universos bastante diferentes, Jack identifica um ponto de contato entre as duas obras: personagens que tentam existir enquanto convivem com estruturas de violência e opressão.
“Os dois denunciam a opressão e a agressão contra os seres mais vulneráveis. São pessoas que vivem à margem e que muitas vezes são reduzidas à condição em que estão inseridas. Para mim, esse é um ponto de encontro muito importante entre os dois trabalhos”.
Em Impuros, porém, sua composição percorre outro caminho. Tubarão é definido pelo ator como “uma figura pitoresca, às margens da ostentação do tráfico carioca”, construída também com uma inspiração clownesca em Cheech & Chong: “Um criminoso atrapalhado e por vezes é obrigado a ser hostil, vive ‘chapado’ e com uma risada marcante que virou um bordão da personagem”.
Chegar a uma produção que já possui linguagem própria também poderia limitar as possibilidades de criação, mas Jack destaca o acolhimento que encontrou desde sua chegada como fundamental para imprimir uma identidade ao personagem.
“Eu tô pra jogo”
A disposição para personagens de diferentes tamanhos aparece novamente quando Jack fala sobre o que ainda consegue desafiá-lo como ator. A resposta inclui até um trabalho que está gravando atualmente.
“Sou desafiado por todos, desde o ‘sem fala’, o morto na primeira cena ou o forasteiro, personagem na participação que estou gravando na novela A Nobreza do Amor, na rede globo. Uma morte por engano. Uma participação sem fala, mas…”.
É diante de um personagem sem falas que ele reafirma sua maneira de enxergar o ofício: “Eu tô pra jogo. Acredito que sou desafiado por cada personagem, mesmo aquele que seja uma participação pontual. Pra mim cada um tem suas camadas, e eu vou descobrindo cada uma delas, no meu ‘método’.”
Essa relação com a atuação começou no teatro de rua, ao lado de Cico Caseira, a quem Jack chama de seu grande mestre: “O que mais me interessa é manter aquele personagem vivo, mesmo com pouco tempo de tela, seja ele qual for, mas vivo”.
Vinte anos entre a figuração e Ary Fontoura
Em Socorro! Tô Falido, Jack muda novamente de registro para interpretar Roberto. O longa de humor dirigido por Fred Mayrink ainda não tem previsão de estreia e guarda para o ator um encontro particularmente simbólico com Ary Fontoura.
Cerca de 20 anos antes, recém-chegado ao Rio de Janeiro, Jack havia feito figuração em Chocolate com Pimenta. Na novela, observava um artista que admirava desde criança. Duas décadas depois, os dois voltaram a se encontrar profissionalmente, agora dividindo set e camarim.
“A passagem de tempo de vinte anos, desde de eu ter tido o privilégio de encontrar aquela figura criativa que eu sempre admirei quando criança, até reencontrá-lo em um longa dirigido pelo mesmo diretor, que também dirigia a novela. Eu, no elenco principal fazendo genro dele, Ary Fontoura, antológico”.
A imagem poderia representar um ponto de chegada. Jack, porém, prefere enxergá-la de outra maneira: “Sinto que a construção da minha trajetória é constante, estou em constante evolução”.
A lembrança da figuração permanece, mas já não existe para ele a necessidade de reconhecer em cada novo trabalho a sensação de finalmente ter chegado a algum lugar: “A cada oportunidade de trabalho, a cada personagem, a sensação da chegada não está mais presente, somente as lembranças de dias difíceis. Nas memórias afetivas”.
Quando convidado a definir o artista que esses trabalhos estão construindo, Jack retorna justamente ao lugar onde tudo começou: “Um artista com formação no teatro de rua criado pelo mestre Cico Caseira em constante evolução”.
Mais de duas décadas depois, a trajetória mudou. Os personagens também. A disposição para mantê-los vivos, não.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.

O meu querido e amado irmão sempre estive e estarei torcendo por vc que Deus continue te abençoando hoje amanhã e sempre dando-lhes paz saúde e prosperidade um forte abraço de seu irmão Airton Berraquero
Parabéns meu irmão que Deus te abençoe hoje amanhã e sempre dando-lhes paz saúde e prosperidade.
Um forte abraço
Att . Airton Berraquero
Ô loco irmão parabéns 3 veis
Tá pro jogo né contra o nixika e o hiogo kkkk