Nanda Marques não julga Bruna para conseguir entendê-la em Quem Ama Cuida

Nanda Marques não julga Bruna para conseguir entendê-la em Quem Ama Cuida

Foto: Amanda Lovarato

Na novela das nove, atriz mergulha nas contradições de uma personagem que transita entre o amor, a obsessão e as escolhas questionáveis; no cinema, ela interpreta Graziela Gonçalves, viúva e musa inspiradora de Chorão

Bruna pode mentir, manipular, transformar a própria doença em instrumento para manter Pedro por perto e caminhar cada vez mais para o lugar de antagonista em Quem Ama Cuida, novela das nove criada e escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, com direção artística de Amora Mautner. Nanda Marques, porém, precisa fazer exatamente o contrário do público: não julgá-la.

É dessa recusa em enxergar a personagem simplesmente como vilã que a atriz parte para compreender uma mulher criada entre privilégios materiais e profundas carências afetivas. Para Nanda, defender Bruna não significa justificar suas escolhas, mas encontrar a lógica interna que faz com que ela própria acredite nelas: “O ator não pode interpretar um papel pensando que o personagem é vilão, porque senão o jogo já está ganho para o lado do mocinho”, explica.

É nessa perspectiva que a atriz encontrou o caminho para compreender Bruna. Em vez de julgá-la pelas escolhas, Nanda procurou entender de onde elas vieram.

A humanidade por trás das escolhas de Bruna

Na visão da atriz, Bruna é resultado da criação que, apesar de cercada de privilégios, não ofereceu a ela referências emocionais saudáveis. A relação com a mãe, Carmita, interpretada por Débora Evelyn, é um dos principais elementos dessa formação: Vejo uma menina traumatizada, uma menina que teve uma vida completamente longe de princípios, de exemplo de caráter, de afeto”, afirma.

Bruna cresceu em uma bolha. Teve acesso a boas escolas, dinheiro e conforto, mas não desenvolveu visão ampla de mundo ou projetos próprios para além do relacionamento amoroso. Segundo Nanda, a personagem aprendeu que casamento e família seriam caminhos para validar sua existência.

“Ela não criou aspirações, sonhos, projetos futuros. Por isso eu humanizo: é uma mulher que não tem uma visão muito ampla de mundo, que focou no relacionamento e acabou tornando essa relação obsessiva como o único ponto de chegada, o único caminho para ser feliz”.

Essa dependência também passa pela maneira como Bruna aprendeu a enxergar o amor. Para ela, Pedro representa mais do que uma relação: é quase a resposta para todas as faltas que carrega: “Ela coloca todas as fichas dela e acha que todos os buracos que tem dentro dela, todas as faltas que ela carrega, vão ser preenchidas por esse amor romântico”, explica Nanda.

A atriz reconhece, entretanto, que essa compreensão não significa concordar com as atitudes da personagem. Pelo contrário. Conforme Bruna avança em suas escolhas, até mesmo a própria Nanda admite que fica mais difícil defendê-la.

Quando Bruna escolhe um lado

A fase atual da novela representa virada importante para a personagem. Ao começar a utilizar a própria doença como maneira de tentar manter Pedro ao seu lado, Bruna passa a assumir conscientemente comportamentos que antes poderiam ser atribuídos à influência da mãe. “Ela estava em cima do muro. Consegui sustentar essa amorosidade até então, mas agora ela desceu, escolheu um lado. Ela decidiu fazer o que a mãe faz”, analisa.

Para a atriz, esse é o momento em que a personagem começa a caminhar de maneira mais evidente para o lugar de antagonista. Ainda assim, Nanda mantém um pacto com Bruna durante o trabalho: “Tenho que olhar para ela com o maior carinho do mundo, acreditando nas motivações dela, pegar na mãozinha e falar: ‘Vamos juntos’.”

A relação com o público, no entanto, é outra história. Nanda entende que quem está do outro lado da tela tem liberdade para julgar, torcer ou até mesmo rejeitar Bruna: “Quando eu falo que ela não é vilã é que não posso ler ela como uma vilã. Mas o público pode, está liberado. Pode ler como quiser. A gente faz para o mundo”.

Uma construção feita a muitas mãos

Dar vida a Bruna também exigiu processo que foi muito além da leitura do texto. Nanda conta que participou de preparação de elenco, leituras e encontros individuais, além de desenvolver ferramentas próprias para compreender a personagem.

Entre elas estão a criação de uma playlist e de um caderno em que registra pensamentos e linhas de raciocínio de Bruna. Para a atriz, esse material funciona quase como um espaço para organizar tudo aquilo que existe na cabeça da personagem: “São muitas mãos e também esse trabalho em casa. Sempre vou emprestar a minha alma para a personagem. Vou receber dela também alguma coisa e aprender com ela alguma coisa.”

Algumas características de Nanda também acabaram encontrando espaço na construção da personagem. A atriz, por exemplo, levou para Bruna sua relação mais física e carinhosa com as pessoas: “Sou muito a pessoa do toque, então trouxe isso para ela para tentar deixar esse amor mais real, essa relação, essa troca”.

Ao mesmo tempo, Bruna também ensina coisas para a própria atriz. Uma delas é a capacidade de enfrentar e confrontar, algo que Nanda reconhece não fazer naturalmente: “Não sou muito da briga. Sou muito da conversa. Eu desisto um pouco, depois vou lá puxar para conversar. Acho que a Bruna tem essa força de atração que é diferente da minha”.

Nanda Marques dá vida a Bruna em Quem Ama Cuida, personagem que vem ganhando novas camadas e revelando suas contradições ao longo da novela.
Foto: Amanda Lovarato
Nanda Marques dá vida a Bruna em Quem Ama Cuida, personagem que vem ganhando novas camadas e revelando suas contradições ao longo da novela.
Foto: Amanda Lovarato

A química com Débora Evelyn

Se a relação entre Bruna e Carmita funciona tão bem na tela, parte disso vem da parceria construída entre Nanda e Débora Evelyn.

As duas passaram por preparação juntas, conversaram sobre as personagens e trocaram impressões sobre a relação entre mãe e filha. Mas, para Nanda, a conexão ultrapassou o ambiente profissional: “Acredito na importância de ter boa relação com o ator, pessoa física, CPF e não só o CNPJ”, brinca.

A convivência permitiu que as duas compartilhassem experiências pessoais, o que acabou fortalecendo a intimidade necessária para interpretar uma relação tão complexa: “Ela me falou muito da vida particular dela, eu falei muito da minha vida. Ela é mãe também, então acho que isso já tem uma coisa muito natural de cuidado. Ela me deu conselhos maravilhosos, me acolheu em momentos especiais”.

O resultado aparece nas contradições da relação entre Bruna e Carmita. Elas podem entrar em conflito em uma cena e, pouco depois, voltar a conversar como se nada tivesse acontecido. Para Nanda, essa dinâmica aproxima a ficção da realidade.

De Cecília a Bruna: uma carreira que vira repertório

Bruna não é a primeira personagem de Nanda a ter uma relação complicada com a própria mãe. Em Um Lugar ao Sol, novela de Lícia Manzo, a atriz interpretou Cecília, que também vivia conflitos familiares. Na ocasião, sua mãe era Rebeca, personagem de Andréa Beltrão. Apesar da semelhança superficial, Nanda não acredita que tenha simplesmente repetido um caminho. Para ela, cada trabalho acrescenta algo ao repertório do ator: “Todos os trabalhos vão ganhando corpo, você vai ganhando confiança. Vai levando uma malinha e enchendo conforme vai passando por cada trabalho”.

Cecília e Bruna, inclusive, têm personalidades bastante diferentes. Enquanto a primeira era mais fechada e melancólica, Bruna é mais expansiva e intensa: “Uma era arica do Rio de Janeiro, a outra é uma rica de São Paulo. Acho que a gente faz um trabalho e vai carregando o que há de bom de cada um para os outros”.

O desafio de viver uma novela em movimento

Uma das particularidades de Quem Ama Cuida para Nanda está no fato de a novela ser uma obra aberta. Diferentemente de trabalhos gravados integralmente antes da exibição, como cinema e algumas produções de streaming, a atriz descobre junto com o público parte dos caminhos que sua personagem vai seguir.

Isso significa lidar com mudanças constantes. Novos blocos chegam, características são alteradas e acontecimentos podem modificar completamente a estrutura de um personagem: “Como é uma obra aberta, a cada semana chegam cenas novas escritas. Têm alterações de cena, alterações de história, de estrutura da personagem. Às vezes muda pai, mãe, aparece uma doença, uma viagem. Coisas que mudam completamente a estrutura daquele ser”.

Foi assim, inclusive, que a própria Nanda descobriu junto com o processo alguns dos rumos de Bruna. No início, imaginava uma jovem muito mais ingênua e frágil: “Achava que era uma menina com visão limitada de mundo, muito inocente, quase ingênua, muito frágil. Logo no bloco seguinte eu já vi ela enfrentando, já vi ela indo para tal lugar e falei: ‘Opa, então ela não é tão ingênua assim’.”

Essa imprevisibilidade, longe de ser um problema, é uma das coisas que mais instigam a atriz. “Eu amo trabalhar. Independente se é obra aberta, fechada, cinema, série ou novela. Eu podendo exercer o meu ofício, é isso que me instiga”.

Entre o cinema, a televisão e a vontade de experimentar

Para Nanda, cada formato oferece um tipo diferente de experiência. Na novela, a velocidade exige que o ator esteja preparado para gravar muitas cenas em um mesmo dia, frequentemente fora da ordem cronológica.

No cinema e nas séries, existe um tempo diferente de preparação e execução. No teatro, a relação é ainda mais prolongada, com meses de ensaio e apresentações. A atriz, porém, não escolhe necessariamente um formato em detrimento do outro: “Sou viciada em novidade, em experimentação. Então está sendo uma delícia, muito doido, instigante”.

A rotina de Quem Ama Cuida também mudou sua relação com a própria personagem. Como Bruna está presente diariamente em seu cotidiano, Nanda sente que consegue acessar suas emoções com mais facilidade, mesmo quando as cenas são gravadas fora de ordem: “Quanto mais você se apropria da personagem, quanto mais você tem essa dinâmica de fazer essa rotina diária de gravação, mais fácil fica para você acessar. Porque fica tudo pertinho”.

A experiência também envolve assistir ao próprio trabalho. Nanda conta que gosta de acompanhar a novela e observar o que funcionou, o que poderia ter sido diferente e quais caminhos ainda podem ser explorados: “Adoro essa experiência de novela”.

Do universo de Bruna para a história de Chorão

Nanda Marques e José Loreto em Chorão: Só os Loucos Sabem, filme em que interpretam Graziela Gonçalves e o cantor Chorão.
Foto: Arquivo Pessoal/Nanda Marques
Nanda Marques e José Loreto em Chorão: Só os Loucos Sabem, filme em que interpretam Graziela Gonçalves e o cantor Chorão.
Foto: Arquivo Pessoal/Nanda Marques

Se na televisão Nanda vive personagem completamente ficcional, o cinema trouxe desafio diferente: interpretar uma mulher real e importante para a história de um dos maiores nomes do rock brasileiro.

A atriz interpreta Graziela Gonçalves em Chorão: Só os Loucos Sabem, filme que teve sua apresentação no Festival de Gramado e tem previsão de chegada aos cinemas em 2027.

Graziela foi companheira de Chorão, escreveu o livro Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz?, que serviu de base para o longa, e foi uma das grandes inspirações por trás das músicas românticas do artista.

Para Nanda, interpretar Graziela também foi uma oportunidade de apresentar ao público uma mulher que muitas vezes permaneceu à sombra da trajetória do cantor: “Ela é uma mulher fenomenal. É uma artista incrível, escritora, feminista, superengajada. Foi muito inspirador poder fazer uma personagem tão forte”.

A atriz, que cresceu ouvindo Charlie Brown Jr., admite que também desconhecia parte da importância de Graziela na trajetória da banda. “Eu mesma, que cresci ouvindo Charlie Brown desde criança, não sabia da Grazi.”

Segundo Nanda, a personagem teve participação importante em diferentes aspectos da trajetória artística de Chorão, desde o incentivo para que a banda passasse a cantar em português até referências culturais e musicais que ajudaram a ampliar o repertório do artista.

“Vocês vão ter uma grande surpresa no filme. Vão conhecer essa mulher sensacional que é a Graziela e conhecer um pouco mais sobre o Chorão, nosso ídolo, que levou tantas mensagens de amor para o mundo”.

Uma parceria intensa com José Loreto

No longa, Nanda contracena com José Loreto, que interpreta Chorão. Para construir a relação entre os dois personagens, os atores passaram por uma preparação intensa com Fátima Toledo.

A experiência, segundo Nanda, foi fundamental para criar a intimidade necessária entre Graziela e Chorão: “Nossa experiência foi incrível. Ela leva a gente para uma outra intensidade. A gente acessou sombras e coisas muito densas que só uma troca de melhores amigos poderia proporcionar”.

Entre uma personagem que começa a revelar seu lado mais sombrio na televisão e uma mulher real que ajudou a construir parte da história de um dos grandes nomes da música brasileira, Nanda Marques atravessa momentos diferentes de sua carreira sem abrir mão daquilo que, para ela, parece ser o mais importante: continuar experimentando: “Trabalhando, eu estou feliz”.

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