Jade Sassará fala sobre Corrida dos Bichos, representatividade e os limites entre ficção e realidade

Jade Sassará fala sobre Corrida dos Bichos, representatividade e os limites entre ficção e realidade

Foto: Laura Campanella

“O mistério está sempre no encontro.” É assim que Jade Sassará pensa a chegada de uma nova personagem e talvez seja também uma boa maneira de compreender sua relação com Marisol, de Corrida dos Bichos. Em uma distopia atravessada pela desigualdade, violência e segregação, a atriz encontrou uma mulher que transforma a sobrevivência em organização coletiva e procura criar possibilidades de existência onde elas parecem cada vez menores. 

No novo filme dirigido por Ernesto Solís, Marisol é uma das figuras centrais da resistência em um universo marcado pela desigualdade, violência e segregação. Por trás da atmosfera distópica da produção, porém, estão questões que a atriz reconhece como extremamente próximas da realidade.

Para Jade, é nessa fronteira pouco definida entre ficção e vida real que está uma das maiores forças da obra. Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, ela falou sobre a construção de Marisol, as escolhas da personagem, a preparação para as filmagens, o encontro com elenco experiente e também sobre a própria trajetória artística.

Marisol entre a proteção e a resistência

Marisol é responsável por um espaço que funciona como espécie de proteção dentro do universo do filme. Ao mesmo tempo em que defende aquele território, ela se vê diante de situações que colocam seus próprios princípios em xeque.

Para Jade, essa contradição foi fundamental para construir a personagem. Mais do que uma líder da resistência, Marisol é alguém que precisa constantemente equilibrar seus valores com as circunstâncias que aparecem diante dela. “A Marisol me despertou algo que também, de alguma forma, eu enquanto Jade me identifico muito, que é essa capacidade que a gente tem de se agrupar, se organizar coletivamente para poder, de alguma forma, criar outros caminhos e outras possibilidades de existência”, explica.

A personagem também carrega relação afetiva importante com o espaço que ajudou a construir. Quando alguém próximo passa a agir contra os princípios que sustentam aquele lugar, Marisol precisa lidar com uma situação que ultrapassa a simples oposição entre certo e errado. “Lidar com essas contradições faz parte da vida de qualquer pessoa. São momentos em que a gente vê os nossos princípios sendo colocados contra a parede”, afirma a atriz.

Uma distopia que conversa diretamente com o Brasil

Embora Corrida dos Bichos esteja ambientado em realidade ficcional, os temas abordados pelo filme são bastante concretos: desigualdade, violência, poder, segregação e a disputa por espaços de pertencimento.

Para Jade, a ficção tem essa capacidade de ampliar questões que já fazem parte da sociedade e permitir que o público as enxergue por outros ângulos: “A ficção tem uma capacidade muito encantadora de manifestar outras possibilidades de realidade a partir dessas reflexões que a gente faz com os paralelos que temos da nossa vida”, comenta.

Segundo ela, a fronteira entre o que é ficção e o que entendemos como realidade também pode ser muito mais nebulosa do que parece. “Eu sinto que esse lugar meio borrado entre a ficção e a realidade é algo que me interessa muito enquanto pensadora, enquanto criadora, enquanto artista e enquanto ser humano”, diz.

A própria história do filme, desenvolvida ao longo de cerca de duas décadas, acabou ganhando novas camadas diante do mundo atual. Questões como a dependência das apostas, a relação com o poder e a desigualdade permanecem reconhecíveis, mesmo que a roupagem tenha mudado: “São questões que acompanham a humanidade desde que existimos nessa terra”, resume Jade.

A preparação para viver Marisol

Para chegar à personagem, Jade passou por um processo de preparação conduzido por Fátima Toledo, nome de grande importância na preparação de atores no audiovisual brasileiro. 

A experiência foi especialmente significativa para a atriz, que encontrou no método uma maneira de aprofundar a relação entre corpo, emoção e personagem. “Foi um prazer encontrar a Fátima Toledo. Sinto que ela desenvolveu um método extremamente rico e poderoso”, conta.

O processo também envolveu preparação corporal e treinamento relacionado às cenas de luta. Mesmo que parte desse material não tenha chegado à versão final do filme, Jade considera que o trabalho foi essencial para construir as camadas de Marisol.

“Por mais que a Marisol que eu trabalhei em preparação tivesse muitas outras nuances, muitas outras camadas que acabaram não vindo no filme por conta de cortes, eu sinto que a personagem ainda aparece ali de uma forma muito potente justamente pela profundidade, pela complexidade do que eu consegui construir em preparação”.

A experiência ainda despertou na atriz um desejo antigo: investir cada vez mais em trabalhos de ação, fantasia e aventura. “Eu tenho muito esse sonho de fazer cada vez mais personagens para filmes de ação, fantasia, fazer uma guerreira, uma espiã, uma mutante, uma super-heroína”, revela.

Uma personagem que poderia ter ido ainda mais longe

As mudanças pelas quais o roteiro passou também fizeram com que algumas das camadas de Marisol não chegassem ao público. Jade conta que diferentes versões da história foram desenvolvidas antes das filmagens e que algumas cenas gravadas acabaram ficando de fora da montagem final. 

Entre elas estão momentos relacionados ao exílio da personagem, depois que ela deixa o comando do perímetro: “Essa Marisol exilada e o Mano visitando ela no exílio… foram cenas lindas, inclusive cenas que eu amei gravar, mas que precisaram ser omitidas por enquanto”, revela.

A atriz brinca com a possibilidade de o material aparecer futuramente em uma versão estendida ou até mesmo em um spin-off.“Por mim, a gente vai contar essa história de todos os jeitos que der”, afirma.

A atriz Jade Sassará integra o elenco de Corrida dos Bichos ao lado de Silvero Pereira.
Foto: Laura Campanella
A atriz Jade Sassará integra o elenco de Corrida dos Bichos ao lado de Silvero Pereira.
Foto: Laura Campanella

O encontro com um elenco experiente

Dividir o filme com nomes como Rodrigo Santoro, Grazi Massafera, Isis Valverde, Mateus Abreu e Silvero Pereira poderia ser experiência intimidante. Para Jade, no entanto, o contato com atores mais experientes funciona principalmente como estímulo.

Ela admite que existe, sim, sensação de realização ao se perceber naquele espaço, mas também precisou construir confiança para reconhecer que estava ali por mérito próprio. “Eu precisei forjar uma autoconfiança, uma excelência no que eu faço, uma autoestima”, explica.

Ao mesmo tempo, ela não se sente inferiorizada diante de profissionais com trajetórias mais longas. “Sinto que eu estou ali no mesmo nível. Me preparei, estudei e entrego o que entrego para poder trabalhar com essas pessoas”.

Entre as parcerias do filme, está a de Silvero Pereira, com quem Jade divide momentos de forte tensão entre Marisol e seu antagonista: “Gravar com ele essa relação de antagonista foi muito gostoso. Ele foi um grande parceiro, bom de troca, bom de jogo”, conta.

Marisol também carrega muito da própria Jade

A personalidade estratégica e provocadora de Marisol é um dos elementos que mais chamam atenção na personagem. E, para Jade, essa característica não surgiu apenas do roteiro: existe troca entre atriz e personagem: “Acho que é bem isso: um pouco de cada. É uma via de mão dupla”, afirma.

A atriz acredita que Marisol está entre as personagens com quem teve uma relação mais profunda porque ambas lhe permitiram trocar experiências e perspectivas: “Ela evidencia para mim muito essa relação das estratégias de sobrevivência”, explica.

Nesse sentido, Marisol também representa a capacidade de encontrar pessoas que compartilham dos mesmos sonhos e, juntas, criar caminhos para transformar esses desejos em realidade.

“Quando a gente compartilha algo que acredita muito e vai buscando as pessoas, os pares que acreditam com a gente, que querem sonhar junto com a gente, a gente cria estratégias para a coisa acontecer, para a coisa se materializar”.

Uma artista formada por muitas “Jades”

A trajetória de Jade não se resume à atuação. Música, design de som, moda e experiências nos bastidores também fazem parte de seu repertório. Para ela, todas essas experiências acabam chegando ao set, mesmo quando não são percebidas diretamente pelo público.

“Acho muito emocionante olhar para quando eu tenho esse olhar amplo em relação à minha trajetória, podendo integrar o que cada Jade, cada pedacinho da minha vida, compõe e traz de complexidade para mim”, afirma.

Ela acredita que conhecer diferentes áreas do audiovisual também ajuda a compreender melhor o funcionamento de um set.

Já ter trabalhado como assistente de direção, por exemplo, fez com que desenvolvesse um olhar mais atento para os detalhes do trabalho de outros departamentos: “Sinto que não só em mim, mas acho que atrizes e atores que eu admiro têm esse olhar atento com o entorno. É um jogo que a gente precisa muito de cada pessoa que está ali para poder contar a história”.

Para Jade, no fim, atuar também é saber jogar junto: “Não existe um lugar mais ou menos importante. Todo mundo que está ali é muito importante para aquela história acontecer”.

O texto como primeiro caminho para construir uma personagem

Quando recebe um novo trabalho, Jade não segue necessariamente um ritual fixo. O processo depende da personagem e das necessidades de cada projeto. Existe, porém, um ponto de partida que considera fundamental: a leitura cuidadosa do texto. “O primeiro momento para mim, sempre quando eu vou construir uma personagem, é uma leitura muito cuidadosa”, explica.

Essa leitura, segundo ela, vai muito além de compreender racionalmente o que está escrito. É preciso perceber as relações, nuances e aquilo que não está necessariamente dito: “Não é só entender com a mente. Eu acho que o entender é nessas camadas mais profundas. É assimilar essas nuances, esses lugares que talvez sejam o que não está dito”.

Por isso, ela costuma ler e reler o material, pesquisar e se aprofundar no universo proposto antes de começar a construir sua personagem.

Jade Sassará em cena de Corrida dos Bichos, produção que mistura ação, aventura e muita adrenalina.
Foto: Laura Campanella
Jade Sassará em cena de Corrida dos Bichos, produção que mistura ação, aventura e muita adrenalina.
Foto: Laura Campanella

Da novela ao cinema: diferentes caminhos para criar

Jade também passou pela experiência de Mar do Sertão, novela em que interpretou Aleluia. A personagem chegou à trama de maneira bastante discreta, mas acabou ganhando espaço conforme a atriz passou a propor novas possibilidades.

Ela entrou na produção com a novela já em andamento e conta que Aleluia inicialmente sequer tinha falas: “Eu era uma atriz muito ousada nesse sentido de propor coisas”, lembra. A personagem foi crescendo a partir dos improvisos e das ideias apresentadas pela atriz, em um processo que Jade considera muito importante para sua formação.

A experiência também despertou o interesse em trabalhos de longa duração, nos quais possa passar mais tempo aprofundando uma personagem: “Sinto que diversificar, poder fazer novela, filme, série, tudo isso também é muito enriquecedor para mim enquanto atriz.”

O mistério de cada novo encontro

Quando começa um trabalho, Jade não carrega necessariamente uma pergunta fixa. Para ela, cada personagem chega em momento diferente de sua vida e encontra uma versão diferente da própria atriz.

A pergunta que fica, então, é: “O que esse encontro vai me apresentar?”.

É a partir desse espaço de abertura que ela acredita ser possível descobrir novos caminhos, tanto na criação de uma personagem quanto nas relações construídas durante um trabalho: “O prazer da vida está muito nisso para mim”.

“Que venha uma super-heroína”

No fim da conversa, Jade deixa um desejo que resume bem o momento de sua carreira: continuar ocupando espaços, contar histórias e encontrar personagens cada vez mais complexas.

Como artista trans, ela também defende uma transformação mais profunda na maneira como a diversidade é incorporada ao audiovisual. “Eu não acho que a gente faz arte, ainda mais num contexto onde tudo é tão individualizado e tão narcísico, sem lembrar da força do coletivo. A gente não chega sozinha”, afirma.

Para ela, o caminho não deve ser apenas colocar corpos dissidentes diante das câmeras, mas permitir que eles façam parte de todas as etapas de criação:“Desejo que a gente deixe de ver diversidade como essa ideia do que está fora da estrutura e que a gente possa estar dentro da estrutura. Que essa diversidade seja integrada”.

Jade reconhece avanços na última década, mas também percebe um movimento de retrocesso e reforça a importância de continuar criando espaços para diferentes corpos e narrativas.

“Tenho muita confiança na excelência que eu e tantas outras profissionais trans e tantos outros profissionais trans no audiovisual temos, na capacidade de entrega para criar e contar histórias”.

E, entre os próximos desejos, ela não esconde a ambição: “Que venham personagens mais complexas, que venha a minha protagonista. Que venha uma super-heroína. Que venha tudo isso para a gente seguir com fé, seguir acreditando e criar e materializar esses outros universos que a gente quer viver.”

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