Diário de Leitura #4 | Em Todos os Lugares — O estacionamento da locadora

Talvez criar raízes seja uma das coisas mais assustadoras para quem aprendeu a viver esperando a próxima partida.

No quarto capítulo de Em Todos os Lugares, Thainá Toffo começa a transformar B. em algo maior do que o cenário de uma história. A cidade passa, pouco a pouco, a significar pertencimento para Pedro.

E isso é tão bonito quanto perigoso porque Pedro está começando a encontrar motivos para ficar.

O capítulo volta a explorar sua relação familiar e aprofunda especialmente um conflito que parece essencial para compreendermos quem ele é. Existe amor dentro daquela casa, mas também existem feridas. Algumas profundas o suficiente para fazer Pedro desejar uma realidade diferente daquela que conhece.

Thainá não precisa explicar excessivamente esse sentimento porque o mais importante está no efeito que ele provoca.

Cada vez fica mais evidente que Pedro não é apenas um garoto com dificuldade para se aproximar das pessoas. Existe uma razão para sua resistência aos vínculos. Existe uma vida anterior a B., marcada por mudanças, distâncias e relações que ajudam a explicar por que permanecer pode ser tão assustador quanto partir.

E então existe Caio.

A relação dos dois continua sendo construída naquele território delicioso em que o leitor já percebe alguma coisa que os personagens ainda tentam esconder de si mesmos.

Pedro evita enquanto Caio se aproxima.

Pedro desconversa enquanto Caio insiste.

E quanto mais tenta tratar aquilo como uma amizade qualquer, mais Pedro parece perceber que talvez não seja.

Há delicadeza por parte da autora que é muito bonita nessa construção porque Thainá não apressa seus protagonistas. Não existe necessidade de fazer com que eles compreendam imediatamente aquilo que sentem.

Eles simplesmente estão vivendo e a escrita faz o leitor viver junto.

Eles conversam, provocam um ao outro e até dividem pequenos momentos e Pedro começa a descobrir que estar perto de Caio pode ser desconfortável porque é confortável demais.

Mas O estacionamento da locadora também marca outro acontecimento fundamental na trajetória do protagonista: seu primeiro show com a banda.

E aqui Thainá acerta especialmente naquilo que vem depois. Não é apenas o palco que importa, mas o corpo depois dele.

A música termina, o show acaba, as pessoas vão embora, mas Pedro continua atravessado pela adrenalina daquela experiência.

Ele nunca havia sentido aquilo e isso não está escrito, mas o leitor entende nas entrelinhas e isso é o mais rico da narrativa criada por Thainá.

É uma descoberta que ultrapassa a música porque, pela primeira vez, parece existir algo em B. que pertence verdadeiramente a ele.

Uma banda. Amigos. Um palco e a sensação que deseja experimentar novamente.

Pedro chegou à cidade carregando consigo a certeza de que lugares são temporários. Agora começa a descobrir que alguns lugares deixam marcas antes mesmo de percebermos que nos tornamos parte deles.

E isso o anima, mas também o assusta porque criar raízes é aceitar que existe alguma coisa a perder.

Quanto mais Pedro se aproxima da banda, de seus novos amigos e principalmente de Caio, menos B. parece apenas mais uma letra no mapa de sua vida.

A cidade começa a ganhar rostos, memórias, música e afeto.

É interessante pensar nisso depois de observar a escolha de Thainá de nomear seus lugares apenas por letras. Pedro já viveu em T. Agora está em B. Seu pai trabalha em C.

Como se fossem apenas pontos sucessivos de uma existência acostumada ao deslocamento.

Só que B. começa a deixar de ser uma letra.

B. começa a ser Caio.

B. começa a ser uma garagem.

B. começa a ser uma banda.

B. começa a ser a adrenalina depois de um show.

B. começa a ser aquilo que Pedro talvez nunca tenha conseguido construir completamente em lugar algum: uma vida que parece sua.

E essa é uma das construções mais bonitas de Em Todos os Lugares. Thainá Toffo está escrevendo um romance, mas a descoberta de Pedro não se resume a por quem ele pode se apaixonar.

Pedro está descobrindo quem pode ser quando não está pensando na próxima despedida.