Fotos: Rodolfo Abreu
João Bethencourt escreveu O Filho das Mães em 2005, quando famílias homoafetivas ainda encontravam pouco espaço de representação e reconhecimento no Brasil. Mais de duas décadas depois, o texto retorna ao palco e encontra uma sociedade diferente daquela em que foi criado. As relações mudaram, algumas discussões avançaram, mas preconceitos, convenções e a necessidade de pertencimento continuam fazendo com que a comédia preserve uma incômoda atualidade.
A nova montagem, dirigida por Pia Manfroni, está em cartaz no Teatro Laura Alvim, no Rio de Janeiro, e recupera pela primeira vez o título original da obra, anteriormente apresentada como Circuncisão em Nova York. O retorno também integra as celebrações pelo centenário de nascimento de Bethencourt e reúne, entre outros nomes, Jalusa Barcellos, Sergio Fonta e Narjara Turetta, três artistas que atravessaram diferentes momentos do teatro e da televisão brasileira.
Em entrevista ao Pittaplay, os três revisitam personagens que já conheceram em outra montagem e refletem sobre aquilo que o tempo modificou dentro e fora do palco.
Uma sociedade diferente diante do mesmo texto
Jalusa Barcellos, que interpreta Sarah, encontra na permanência das questões levantadas por Bethencourt uma das forças da dramaturgia. Para a atriz, o humor permite que assuntos como conservadorismo e preconceito atravessem a peça sem retirar dela sua natureza de comédia.
“Foram quatro anos de intervalo. E além dos méritos indiscutíveis de João Bethencourt como dramaturgo, um dos maiores comediógrafos do mundo na minha opinião, é o fato de como O Filho das Mães faz com que se reflita sobre temas como preconceitos, conservadorismo, convenções sociais, etc… Tudo está lá, só que da forma mais divertida possível”.
Narjara Turetta também percebe mudanças importantes na maneira como essas histórias encontram o espectador. Atriz desde a infância, ela acompanhou de dentro da profissão transformações que ultrapassam o teatro e chegam à própria sociedade.
“Comecei muito cedo, ainda criança, e tive o privilégio de acompanhar a transformação da televisão, do teatro e também da sociedade. Antigamente, alguns temas geravam muito mais polêmica. Hoje, o público está mais disposto a ouvir, conhecer e se emocionar com histórias diferentes da sua própria realidade”.
Para Narjara, essa transformação ajuda a retirar o modelo familiar do centro da discussão para colocar ali algo mais elementar: a humanidade das relações: “No fim das contas, acho que o que realmente toca as pessoas não é o modelo de família, mas a verdade daquela história. Quando existe amor, conflito, humor, emoção e personagens bem construídos, o público se reconhece ali. É isso que a arte faz: ela aproxima, cria diálogo e nos ajuda a enxergar o outro com mais humanidade. Acho que essa é uma das maiores evoluções que eu vi ao longo da minha carreira”.
Miriam não quer representar uma bandeira. Quer pertencer
É Narjara quem interpreta a personagem que provoca o terremoto familiar criado por Bethencourt. Miriam vive em Nova York e precisa contar aos pais que mantém relacionamento com Emily e que as duas esperam um filho concebido por inseminação artificial. Diante de uma família profundamente ligada às tradições, revelar a verdade significa também enfrentar o medo de deixar de pertencer àquele espaço.
Narjara procura não transformar Miriam simplesmente em símbolo de discussão sobre diversidade: “Miriam não quer levantar bandeira, ela quer ser aceita por sua família tradicional, ser amada, ser respeitada e poder viver seu amor sem se prender as tradições, mas ao mesmo tempo respeitando-as. Miriam carrega a sensação de que, para continuar pertencendo à família, ela precisa se adaptar, engolir, negociar quem ela é”.
A atriz encontra nesse conflito o arco fundamental da personagem: “Miriam começa querendo: ‘Preciso que meu pai me aceite.’ Mas a jornada dela é descobrir: ‘Eu preciso me aceitar, mesmo que ele não consiga me compreender’”.
E a nova montagem permitiu que Narjara encontrasse outra mulher dentro de uma personagem que já havia interpretado anteriormente: “Nessa montagem estamos tendo realmente uma direção de atores, com a Pia Manfroni, e com isso pude descobrir outra Miriam, mais profunda, mais preocupada em ocupar o seu lugar nessa família e no mundo”.
Sarah e Abraão não cabem simplesmente nos lugares de certo e errado
Se Miriam precisa encontrar coragem para revelar quem é, Sarah tenta desesperadamente impedir que a verdade provoque uma ruptura familiar.
Jalusa Barcellos não observa a personagem apenas pelas mentiras e confusões que ela desencadeia. Para a atriz, existe amor até mesmo nas escolhas equivocadas de Sarah: “Sarah me parece ser aquilo que, culturalmente, se consagra como a verdadeira ‘mãe judia’: amorosa, cuidadosa, mas acreditando ser possível ‘blindar’ a sua família, e em especial o seu tão querido ‘Abraão’ dessa nova realidade familiar. Indiscutivelmente, enxergo Sarah por este filtro: as contradições fazem parte da sua trajetória, mas ela ‘erra’ sempre por amor”.
Do outro lado está Abraão. Sergio Fonta reconhece o conservadorismo do personagem, mas chama atenção justamente para a decisão de Bethencourt de não retirar dele sua humanidade.
“Abraão é um conservador empedernido, mas tem a sua reserva de sentimento. João Bethencourt é um dos maiores comediógrafos brasileiros e trabalha essa dualidade com muita competência, dando margem a seus protagonistas, junto com a direção, para lapidar isso. Há vários momentos na peça em que o espectador pode perceber essas intenções”.
A força do conflito está nessa recusa em transformar os personagens apenas em representantes de ideias opostas. São pessoas tentando preservar afetos enquanto carregam certezas, tradições e preconceitos que inevitavelmente entram em colisão.

Foto: Rodolfo Abreu.
Primeiro a comédia faz rir. Depois, pode “cutucar”
Bethencourt escolheu a comédia para colocar tudo isso em cena. E Sergio Fonta vê no gênero uma capacidade particular de atingir o espectador: “A força da comédia é imensa e Molière já provou isso há muito tempo. Gosto demais, como ator, quando consigo alternar atuações de comédia e drama. Algumas pessoas acham que fazer comédia é mais fácil. Não é. Requer, antes de tudo, um timing, entender o tempo e a artimanha da piada. É uma ligação constante e sutil com a plateia”.
O riso, portanto, não neutraliza aquilo que está sendo discutido. Pode funcionar justamente como caminho para a reflexão: “Isso se dá também com o público. Através do riso, a comédia pode cutucar certas posturas que ele leva na vida. Ele pode até relaxar na hora em que assiste, porém, depois, vai refletir”.
Mais de cinco décadas de carreira e ainda há o que descobrir
O reencontro com O Filho das Mães também acontece em um momento particular da trajetória dos três artistas. Jalusa, Sergio e Narjara acumulam décadas de profissão, mas nenhum deles trata experiência como sinônimo de certezas definitivas.
Para Sergio, interpretar Abraão novamente significa começar outro trabalho: “Considero que é um novo trabalho. Não só porque é um espetáculo completamente diferente do anterior, como também porque a própria vida nos torna, na medida do possível, pessoas melhores. Buscamos sempre a observação constante, o exercício interior permanente e um crescimento não só no campo profissional, como no espiritual”.
Quando pensa no que mudou em sua maneira de construir personagens, ele encontra uma imagem que sintetiza o amadurecimento: “De escutar e de estudar o texto. Mudou tudo. Além de um senso de responsabilidade muito maior, o chutar a porta na juventude, na maturidade passou a ser abrir a porta e entrar. Olhar os personagens não só através de mim, mas através dos outros. E nos livros também. Estou lendo agora a autobiografia do Anthony Hopkins, que considero um ator único no cinema, espetacular. O que ele fala em certos capítulos é uma aula de interpretação”.
Jalusa também coloca a capacidade de rever certezas no centro de sua relação com a profissão: “A vida é um eterno aprendizado. E quem descartar essa possibilidade, estaciona no tempo. Sou uma pessoa que acredita sempre na troca e, portanto, procuro me colocar neste lugar: toda vez que me é pedido algo, que eu não consigo entender, procuro desconstruir esta certeza, e encarar o proposto como mais um desafio fantástico para enriquecer o processo do conhecimento”.
Para ela, não faria sentido que o palco permanecesse o mesmo diante de uma sociedade em transformação: “Os tempos mudaram; a humanidade mudou; as relações mudaram. Portanto, o teatro como representação épica dos sentimentos, conflitos e emoções da espécie, também está aí se reciclando. Até porquê, como já dizia nosso querido Ferreira Gullar, ‘a arte existe, porque a vida não basta’”.
Narjara chega a conclusão semelhante a partir do próprio ofício de interpretar. Mesmo depois de mais de cinco décadas, cada personagem ainda pode colocá-la diante de uma vida que não é a sua: “Através das personagens que interpreto, consigo me colocar no lugar do outro e viver uma história que talvez eu como pessoa jamais passaria e isso é muito enriquecedor pra mim como ser humano. Estar na pele de outra pessoa é sentir realmente o que o outro passa e é isso que amo nessa minha arte! A possibilidade também de aprender mais como ser gente!”
É por isso que O Filho das Mães consiga retornar mais de vinte anos depois sem depender apenas da condição de obra pioneira. A sociedade ao redor do texto mudou, mas a comédia de João Bethencourt continua colocando seus personagens diante de um exercício que permanece necessário: aceitar que amar alguém também exige aprender a enxergá-lo para além das nossas próprias certezas.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
