Foto: Arquivo Pessoal/Diego Betioli
Um metrô deveria levar alguém ao destino, assim como um endereço deveria indicar onde alguma coisa precisa chegar e um carteiro deveria conhecer os caminhos de uma cidade. Mas, Diego Betioli parece interessado no instante em que todas essas certezas deixam de funcionar e é quando aquilo que deveria orientar começa a ameaçar que o escritor encontra seu terror.
Autor da duologia A Última Estação, escrita ao lado de Rodolfo Bezerra, e de CEP, Diego construiu parte de sua literatura transformando elementos absolutamente cotidianos em territórios de desconfiança. Não é necessário procurar o horror muito longe. Ele pode estar no transporte usado todos os dias, no trabalho ou naquele vizinho que parecia não esconder absolutamente nada.
“Estamos muito habituados com um horror que se manifesta de forma mais chamativa, muitas vezes inspirado em outras culturas, e são manifestações que não parecem tão verossímeis a nossa realidade brasileira. Então, quando um túnel de metrô se torna um lugar perigoso, quando o carteiro da sua rua pode ser um cara com questões sobrenaturais, isso se torna mais próximo e, de alguma forma, mais real e assustador. Porque gera identificação”, explica em entrevista ao Pittaplay.
Antes do horror, existem pessoas
Essa proximidade não está apenas nos espaços. Mesmo quando sabe que conduzirá seus personagens para situações extraordinárias, Diego prefere começar pelas pessoas que estarão no centro delas.
Foi assim com Gabriel e Alex, de A Última Estação, e Jefferson, de CEP. O horror não determina quem precisa protagonizar a história. Primeiro, o escritor encontra seus personagens: “Eu sabia que queria contar a história delas; depois, naturalmente envolveria elas em uma maré de horror para que suas histórias (e a mensagem que cada uma carregava) fosse contada.”
Nem mesmo essa definição inicial significa que Diego saiba exatamente quem essas pessoas serão quando chegar à última página. Ele se considera um escritor “do tipo jardineiro” e preserva espaço para que a própria escrita transforme aquilo que havia imaginado: “Todos eles ‘criaram vida própria’ e me conduziram ao longo da história a partir de certo momento. Me considero um escritor do tipo jardineiro, então deixo uma margem considerável de implementação da história ao longo da escrita e ela acaba, sempre, ganhando contornos que descubro durante o processo.”
O survival horror saiu da tela e encontrou a página
Entre as referências que atravessam sua literatura estão os jogos de survival horror. A influência, entretanto, exige uma tradução entre linguagens. No videogame, o medo também depende da interação, dos recursos audiovisuais e da possibilidade de colocar o próprio jogador diante de uma decisão.
Na literatura, Diego procura alcançar sensações semelhantes por outros caminhos: “O que absorvo deles é especialmente a atmosfera, que para a escrita, traduzo com o tom constante de suspense, a descrição detalhada de ações e ambientes (mas buscando sempre não ser prolixo) e a criação de personagens vulneráveis, perseguidores implacáveis e locais claustrofóbicos.”
E resume: “A boa descrição, nesses casos, é tudo.” A vulnerabilidade talvez seja justamente o ponto em que essa influência encontra sua própria literatura. Se os personagens fossem extraordinários, a identificação diminuiria. Diego prefere pessoas comuns entrando em situações para as quais não estavam preparadas.
São Paulo também pode assombrar
Existe uma personagem que atravessa boa parte dessas histórias sem necessariamente ocupar a lista de protagonistas: São Paulo. Nascido e criado na cidade, Diego aproveita bairros, construções, deslocamentos, histórias de imigração e lendas urbanas para aproximar ainda mais suas narrativas do leitor. São Paulo não funciona apenas como indicação geográfica. A cidade participa da experiência: “Gosto que os leitores possam ver a cidade da mesma forma que vejo, com essa lente de aumento da perspectiva dos personagens.”
É também por isso que romper a confiança nesses espaços se torna tão importante. Em CEP, o carteiro encontra o horror justamente nos endereços e trajetos que deveriam fazer parte de seu domínio. Em A Última Estação, um sistema criado para conduzir pessoas a destinos conhecidos pode levá-las para onde jamais deveriam chegar: “Sim, é proposital, e talvez seja meu principal mecanismo de escrita. Eu acredito que, quanto mais mundano e banal, mais terrível pode ser o horror, justamente pelo inesperado.”
Para Diego, o mal não precisa surgir como uma força capaz de “parar o mundo”. Talvez seja mais perturbador quando continua pequeno o suficiente para caber no nosso: “Quando ele está no nosso trabalho, no nosso transporte, ou mesmo em um parente ou vizinho que guarda algo sombrio consigo, para mim, é muito mais impactante e verossímil; é isso que deveríamos temer.”
Diego Betioli prefere perturbar a assustar
Existe, porém, uma diferença entre provocar medo enquanto uma história está sendo lida e fazer com que alguma coisa permaneça depois que o livro é fechado. Entre susto e perturbação, Diego escolhe a segunda possibilidade: “A perturbação, certamente. Mais do que causar desconforto, entretanto, o que busco é um ‘incômodo bom’, que deixei o leitor pensando a respeito por uns dias.”
Essa intenção ajuda a explicar por que pessoas comuns são tão importantes para sua literatura. O horror pode funcionar como linguagem para questões que continuam existindo quando monstros, espíritos e ameaças sobrenaturais desaparecem: “Muito do meu horror gira em torno de questões sociais, e busco utilizar os artifícios tão únicos do gênero para trazer as reflexões necessárias a respeito de cada tema presente nos meus livros e contos.”
Entre o contista e o romancista
Depois de mais de 50 contos publicados, além dos livros, Diego aprendeu também a conviver com diferentes tempos de escrita. Ele define essa relação como a existência de “dois Diegos” em paralelo: o contista e o romancista.
Os contos costumam aparecer diante de editais ou de datas como o Halloween e interrompem temporariamente o trabalho nos romances. Não existe, entretanto, uma disputa entre os formatos: “Faço uma pausa na escrita de romance para dedicar um tempo a um conto. Mas ambos coexistem pacificamente na minha jornada de escritor.”
Se os formatos mudam, uma obsessão permanece. Entre tudo o que já escreveu, Diego reconhece uma atração particular pelo terror sobrenatural relacionado a espíritos. A explicação volta, curiosamente, ao elemento que aparece desde a criação de seus protagonistas: pessoas: “Acho que, por personificar pessoas, suas histórias são praticamente infinitas, então sinto que ainda tenho muito a contar sobre eles. Acredito que isso vai muito de encontro ao que mais me motiva a escrever como um todo: contar histórias de pessoas comuns, que podem ser qualquer um de nós.”
Quando os personagens passam a assombrar o escritor
Depois de transformar o metrô, os endereços e as ruas em lugares nos quais o leitor talvez pense duas vezes antes de confiar, Diego também não saiu completamente ileso das próprias histórias.
Os personagens de A Última Estação passaram a acompanhá-lo justamente naquele espaço que ajudou a transformar em território literário: “De A Última Estação, por exemplo, não há uma única vez que deixo de pensar nos personagens quando pego o metrô (e, especialmente, quando ele falha…).”
CEP provocou uma transformação diferente. A convivência literária com Jefferson fez com que Diego passasse a observar com ainda mais atenção aqueles que percorrem diariamente os endereços que alimentaram sua ficção: “De CEP, passei a enxergar com ainda mais empatia o trabalho dos carteiros.”
É uma consequência curiosa para alguém que encontra o terror justamente no cotidiano: depois de ensinar o leitor a desconfiar daquilo que conhece, a própria literatura fez Diego olhar com mais cuidado para as pessoas e os lugares que sempre estiveram ali: “Acho que isso é o efeito mais legal deste tipo de escrita: me fazer enxergar (e transmitir isso ao leitor) nosso cotidiano com olhos mais cuidadosos para tudo e todos que estão à nossa volta.”
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
