Foto: Nil Caniné
Depois de três temporadas no Rio de Janeiro marcadas por sessões esgotadas e boa repercussão, “Hétero Sigilo” chega a São Paulo para colocar em cena uma discussão que ultrapassa as questões de sexualidade: até onde uma pessoa é capaz de modificar a própria identidade para ser aceita socialmente?
Escrito e protagonizado por Bernardo Dugin, o espetáculo marcou estreia nesta terça-feira, 1º de setembro, no Teatro Itália, e segue em cartaz até 28 de outubro, com sessões às terças e quartas-feiras, às 20h. A direção é de João Fonseca, conhecido por trabalhos como “Cazuza” e “Minha Mãe é uma Peça”.
Indicado ao Prêmio Shell 2026 na categoria Melhor Cenário, com cenografia de Nello Marrese, “Hétero Sigilo” combina humor, vulnerabilidade e relato pessoal para investigar os mecanismos de disfarce construídos por quem aprende, desde cedo, a controlar gestos, palavras, afetos e comportamentos para evitar julgamentos.
Quando sobreviver significa interpretar um personagem
A ideia central do espetáculo parte de constatação simples, mas incômoda: muitas pessoas passam boa parte da vida interpretando personagens para conseguir sobreviver socialmente.
No palco, Dugin revisita memórias, silêncios e experiências relacionadas à heteronormatividade para falar sobre o impacto psicológico de viver sob vigilância permanente. Mais do que discutir sexualidade, a peça investiga o que acontece quando o medo de ser rejeitado passa a determinar a maneira como alguém se apresenta ao mundo.
A montagem procura transformar uma experiência particular em reflexão coletiva. O que começa como história individual ganha outras dimensões ao abordar masculinidade, performance social, violência simbólica e pertencimento.
“O espetáculo não fala apenas sobre sexualidade. Fala sobre os pactos silenciosos que fazemos para caber. Sobre as versões de nós mesmos que inventamos para evitar rejeição, violência ou abandono”, afirma Bernardo Dugin.
É nessa ampliação que “Hétero Sigilo” encontra sua força. Embora tenha como ponto de partida uma experiência diretamente relacionada à homofobia, a montagem propõe reflexão sobre os diferentes papéis que as pessoas assumem para corresponder às expectativas ao seu redor.
Uma experiência de homofobia que virou investigação cênica
A origem do espetáculo está em um episódio vivido por Dugin e seu namorado durante uma missa de sétimo dia em Nova Friburgo, em 2023. O caso de homofobia ganhou repercussão nacional e acabou se tornando o ponto de partida para o artista investigar, através do teatro, questões como medo, silêncio e pertencimento.
A peça, porém, não se limita à reconstrução daquele episódio. Ao levar a experiência para o palco, Dugin transforma o acontecimento em uma pergunta mais ampla: quanto da nossa identidade foi moldada pelo medo de não caber?
Essa perspectiva também ajuda a explicar a mistura entre humor e vulnerabilidade presente na montagem. Em vez de transformar a experiência em relato exclusivamente dramático, “Hétero Sigilo” encontra diferentes maneiras de abordar situações que fazem parte da vivência de muitas pessoas LGBTQIA+.

Foto Nil Caniné
Do projeto transmídia aos palcos
Antes de se tornar espetáculo teatral, “Hétero Sigilo” nasceu como projeto transmídia. Durante a Parada do Orgulho LGBTQIA+, na Avenida Paulista, foi criada a “Caixa do Sigilo”, instalação que convidava o público a compartilhar anonimamente relatos sobre vidas vividas em segredo.
A proposta também ganhou espaço nas redes sociais por meio do perfil @hetero.sigilo24, que passou a satirizar situações cotidianas relacionadas à lógica do “sigilo”. O projeto alcançou milhões de visualizações e criou uma comunidade em torno da identificação com essas experiências.
A trajetória até o teatro, portanto, preserva uma característica importante do projeto: a tentativa de transformar histórias que muitas vezes permanecem escondidas em algo que possa ser compartilhado.
João Fonseca e a construção de uma estrutura de silêncio
A direção de João Fonseca busca evitar que a peça seja compreendida apenas como história individual. Para o diretor, o interesse está justamente em revelar a estrutura social por trás dos comportamentos apresentados em cena.
“O que me interessa em ‘Hétero Sigilo’ é que ele não aponta indivíduos, mas expõe uma estrutura. A peça fala do preço emocional que se paga para sobreviver dentro de uma norma”, explica Fonseca.
A trilha original e a direção musical ficam a cargo de Federico Puppi, que utiliza a música como camada emocional contínua da narrativa, acompanhando tensões, silêncios e estados internos do personagem.
Com a chegada a São Paulo, “Hétero Sigilo” amplia uma trajetória que começou a partir de uma experiência dolorosa, mas que encontrou no teatro uma maneira de transformar o particular em diálogo. Entre humor, memória e desconforto, a peça coloca no centro uma pergunta que pode atingir diferentes públicos: quantas versões de nós mesmos criamos para sermos aceitos?

Jornalista apaixonada por boas histórias. Entre filmes, séries, livros e espetáculos, está sempre em busca de narrativas que mereçam ser compartilhadas.
