Heloisa Jorge encontra em Glória o peso de uma mulher que acredita não poder errar

Heloisa Jorge fala ao Pittaplay sobre Glória em Emergência 53, a cobrança pela mulher forte, maternidade, preparação com o SAMU e representatividade.

Foto: Laura Campanella

Glória sabe o que fazer quando uma vida depende de sua decisão. Diante de uma emergência, existe nela a segurança de quem aprendeu a agir quando cada segundo importa. É quando volta para casa que as certezas começam a desaparecer. Para Heloisa Jorge, essa distância entre a médica capaz de assumir o controle de uma situação extrema e a mulher que vacila diante da própria família não representa uma incoerência da personagem de Emergência 53. É onde mora sua complexidade.

Na série do Globoplay, Glória ocupa posição de liderança na Unidade 53, mas sua dedicação à profissão cobra um preço na vida pessoal. A relação com o marido, o filho e as próprias expectativas sobre a maternidade expõe uma mulher muito diferente daquela que os colegas encontram durante os atendimentos.

Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, Heloisa conta que essa oposição foi discutida desde a preparação da série: “Eles desenharam esse arquétipo dessa mulher, dessa super-heroína, e foi um dos pontos que a gente conversou bastante em sala de leitura, de quando ela se fragilizaria dentro da história, dentro daquela curva dela. E aí a gente achou que seria muito interessante se essa mulher fosse mais frágil como mãe, se ela dentro de casa, se ela vacilasse mais, se ela tivesse mais dúvidas”, explica.

Uma excelente médica e uma mãe questionável

A maternidade de Glória não foi construída para oferecer respostas simples. Heloisa não queria defender uma mãe negligente, mas compreender uma mulher tentando exercer esse papel dentro das próprias limitações e de uma organização familiar na qual o marido assumiu os cuidados da casa e do filho enquanto ela desenvolveu sua carreira.

A configuração também permite à série inverter uma estrutura ainda naturalizada socialmente: o homem no espaço profissional e a mulher responsável pelo universo doméstico. Para a atriz, Glória abre discussão ainda maior sobre aquilo que se espera das mulheres: “Gosto muito do fato dela ser uma excelente médica e uma mãe questionável, uma excelente médica e uma esposa questionável, acho uma discussão muito contemporânea.”

A atriz relaciona essa contradição às conquistas profissionais das mulheres e à permanência de cobranças antigas, que exigem excelência simultaneamente na carreira, na maternidade, no casamento e nas demais instâncias da vida.

Na construção de Glória, a equipe preferiu não resolver todas essas questões. Heloisa conta que a intenção foi espalhar pela narrativa sinais de dúvida, culpa, ausência e cobrança familiar, permitindo que as perguntas permanecessem abertas: “A gente fez mais perguntas em relação a todos esses conflitos da Glória dentro da família do que trouxe respostas.”

“Ela se obriga a não errar”

Existe outra questão por trás da segurança profissional de Glória. Mulher negra, vinda da Maré e ocupando um cargo de liderança, ela não chegou àquele espaço sem atravessar adversidades. Para Heloisa, sua assertividade também nasce da necessidade de permanecer naquele lugar: “Ela precisa ser assertiva. Por conta da sociedade que a gente tem, uma mulher com as características da Glória, com a origem da Glória, ela precisa ser assertiva. Ela precisa ser forte. Ela se obriga a não errar.”

A característica ajuda a explicar a rigidez da médica diante de questões relacionadas à ética e à justiça, mas também revela uma fragilidade escondida sob aquilo que parece força: “Uma pessoa que não se permite errar, que não se permite vacilar, que não se permite ter dúvida, ela tem muitas inseguranças também.”

Foi essa subjetividade que interessou à atriz. Mais do que interpretar a médica forte que o roteiro já apresentava, Heloisa queria compreender o que havia produzido aquela força e o que Glória precisava esconder para sustentá-la.

Heloisa Jorge também precisou questionar a mulher forte

A identificação com esse conflito ultrapassou a personagem. Heloisa conta que reconheceu em Glória uma discussão que já vinha fazendo sobre a própria vida.

A atriz revela que, durante muito tempo, também sentiu necessidade de performar uma força permanente. Com autoconhecimento e terapia, começou a questionar esse comportamento e percebeu conexão entre seu momento pessoal e aquilo que encontrou na personagem: “Me investiguei cada vez mais e fui entendendo como eu me coloco. Muita coisa é performance, porque socialmente a gente precisa performar a mulher forte.”

Ao falar especificamente de sua experiência como mulher negra, Heloisa aprofunda a reflexão: “Falando de mim como uma mulher negra, a mulher forte, a mulher que não pode errar, a mulher que não pode ter dúvida. Tenho pensado muito sobre isso, de como nós, mulheres pretas, por conta da sociedade que a gente tem, muitas vezes precisamos performar e isso é absolutamente adoecedor.”

Glória chegou, portanto, em momento no qual a atriz já investigava o que existe por trás dessa imagem de segurança: “Glória veio para coroar esse meu momento”, resume.

Preparação levou elenco até profissionais do SAMU

Para que essa mulher funcionasse também como médica, o trabalho exigiu preparação técnica detalhada. O elenco começou pelas leituras e avançou para ensaios específicos de cada atendimento apresentado na série.

Com consultoria do médico Márcio Maranhão e de uma equipe formada também por condutores, enfermeiros e técnicos de enfermagem, os atores aprenderam procedimentos, equipamentos, medicamentos e manobras: “As cenas foram coreografadas mesmo, para a gente conseguir ter intimidade com os instrumentos, ter intimidade com os nomes técnicos de medicação.”

O desafio, segundo Heloisa, era fazer com que todo esse conhecimento parecesse natural, como acontece com profissionais que executam aqueles procedimentos diariamente.

O elenco também visitou uma unidade do SAMU no centro do Rio de Janeiro. Além das questões técnicas, os atores quiseram entender como os socorristas lidam emocionalmente com aquilo que encontram nas ruas.

Os profissionais compartilharam histórias sobre situações muito diferentes daquelas inicialmente informadas nas chamadas e falaram sobre ocorrências que continuam capazes de abalá-los. Segundo Heloisa, casos envolvendo crianças estavam entre os mais difíceis emocionalmente: “Ainda fico muito admirada de como essas pessoas, de como esses profissionais lidam com essas histórias todos os dias.”

A experiência fez a atriz enxergar não apenas a habilidade técnica necessária, mas a capacidade de interpretar rapidamente pessoas e contextos em situações nas quais não existe tempo para hesitação: “É apaixonante o que eles fazem, muito de uma beleza inacreditável.”

Glória reconhece algo de si em Manuela

Essa experiência também ajuda a compreender a relação de Glória com Manuela (Valentina Herszage). Logo no primeiro episódio, quando a jovem paralisa diante de seu primeiro grande atendimento, é a médica mais experiente quem a incentiva a continuar.

Para Heloisa, diferentes elementos atravessam aquele gesto. Existe a urgência da ocorrência, na qual qualquer pessoa preparada para ajudar é necessária, mas também o reconhecimento de alguém que já ocupou o lugar da novata: “Acho muito bonito esse encontro da Glória com a Manu trazendo esses dois polos da pessoa que é mais experiente e que já esteve no lugar da novata.”

A atriz identifica ainda outra dimensão nessa aproximação: “Também tem um lugar do feminino ali, de uma empatia feminina entre elas. Eu acho bem interessante a relação da Manu com a Glória.”

“Eu pedi esse emprego”

Curiosamente, Heloisa quis fazer Emergência 53 antes mesmo de conhecer Glória. Foi seu irmão quem encontrou informações sobre a produção e percebeu que Andrucha Waddington estava envolvido no projeto. A atriz já havia trabalhado com ele em ‘Fim’, outra produção do Globoplay, e decidiu procurá-lo: “Liguei para ele dizendo que eu queria fazer a série.”

Naquele momento, Heloisa não sabia quem interpretaria, qual seria o tamanho do papel ou como a trama seria desenvolvida. O desejo era voltar a trabalhar com uma equipe com quem havia tido uma experiência positiva: “Eu tinha muito interesse em trabalhar com essas pessoas novamente.”

Quando finalmente recebeu os episódios e conheceu Glória, a identificação aconteceu rapidamente. A força aparente escondendo medo, dúvida e insegurança oferecia exatamente a complexidade que procurava.

Representatividade não basta

A presença de Glória como uma médica negra em posição de liderança levou a conversa a outra discussão: o avanço da representatividade no audiovisual brasileiro e aquilo que ainda precisa mudar atrás das câmeras.

Heloisa reconhece transformações no mercado, mas rejeita a ideia de que elas sejam simplesmente resultado de boa vontade da indústria. Para ela, o próprio público passou a questionar determinadas narrativas e a cobrar outras possibilidades para atores e atrizes negros.

“O mercado está mudando, não por uma boa vontade do mercado, eu acho que é porque a gente está em um caminho que não tem mais volta, porque o público não se contenta mais com algumas narrativas.”

O avanço diante das câmeras, entretanto, não resolve sozinho o problema. Heloisa aponta a necessidade de ampliar a presença negra também na escrita, direção e produção, espaços responsáveis por construir a subjetividade dos personagens.

Para a atriz, personagens negros não podem existir apenas para atender a uma demanda de representatividade ou explicar questões raciais ao público: “Vira um Wikipédia sobre letramento racial. E é muito desconfortável, porque essa personagem não sonha, essa personagem não tem ambição, a gente não sabe o que essa personagem sente, a gente não sabe de onde essa personagem vem.”

Heloisa considera que o audiovisual atravessa um período de transição, no qual a presença aumentou, mas a disputa por personagens verdadeiramente humanos, contraditórios e subjetivos continua: “Sinto que a gente está num meio de caminho e é desconfortável para todo mundo.”

O público já conversa diretamente com Glória

Mesmo sendo uma obra gravada antes da estreia, Emergência 53 proporcionou a Heloisa uma experiência que ela associa à relação tradicional do público com as novelas. A atriz acompanha comentários nas redes sociais, interage com espectadores e recebe até mensagens dirigidas a ela como se estivesse conversando com a própria Glória.

Entre as reações que observa, uma chama especialmente sua atenção: a aceitação da intimidade construída entre os integrantes da Unidade 53.

Durante a visita aos profissionais do SAMU, o elenco ouviu que a convivência entre colegas pode superar até o tempo passado com a própria família, especialmente diante de jornadas e plantões prolongados. Reproduzir essa proximidade na ficção era uma preocupação da equipe: “Tem sido bonito ver como as pessoas estão acreditando nesse grupo de socorristas, na intimidade entre eles.”

A própria experiência de acompanhar uma série pelas redes mudou para Heloisa. Hoje, enquanto o público comenta, reivindica e tenta antecipar caminhos para Glória, ela precisa guardar aquilo que já sabe sobre os episódios seguintes.

E, depois de construir uma mulher que passou tanto tempo acreditando que precisava ter todas as respostas, Heloisa parece interessada em seguir pelo caminho contrário em sua própria carreira: procurar personagens capazes de lhe apresentar novas perguntas: “Quero cada vez mais me experimentar em coisas que me desafiem como atriz, porque eu acho que é isso que me move como artista.”

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