Quando a porta da sala de aula se fecha, o professor também pode ser apenas humano

Foto: Janderson Pires

Existe uma imagem do professor que quase todo mundo conhece. É aquela pessoa diante da lousa, explicando uma matéria, corrigindo uma prova ou tentando manter a atenção de dezenas de alunos. Sala dos Professores escolhe olhar para o que acontece depois. Quando a porta se fecha, os estudantes ficam do lado de fora e aqueles profissionais podem, por alguns instantes, simplesmente existir.

É nesse espaço que Paulo Fontenelle encontrou matéria para escrever uma comédia sobre educação sem transformar seus personagens em símbolos de uma profissão. Ao lado de Alexandre Lino, com quem divide a direção, o autor coloca em cena três educadores diferentes entre si, mas atravessados pelas alegrias, frustrações, afetos e desgastes de quem fez da sala de aula parte da própria vida.

Protagonizada por Piera Pillar, Rosana Dias e Rudson Dias, a montagem estreia no Rio de Janeiro em 8 de outubro, no Centro Cultural da Justiça Federal (CCJF), depois de iniciar temporada nacional. Em entrevista ao Pittaplay, Fontenelle e Lino falam sobre a construção do espetáculo, a experiência pessoal como professores e uma escolha fundamental: homenagear quem ensina sem esconder a humanidade de quem também cansa, duvida, se frustra e precisa rir.

“Uma comédia na essência e um drama no subtexto”

Paulo Fontenelle escreve sobre professores em um momento no qual as transformações tecnológicas também levantam perguntas sobre o futuro da educação. Inteligência artificial, celulares dentro das escolas e novas formas de comunicação entre famílias e instituições fazem parte de uma realidade que se modifica rapidamente. Para o autor, esse movimento trouxe também uma preocupação com a valorização de quem ensina.

A relação é pessoal. Fontenelle lembra que só consegue exercer seu próprio ofício porque, antes dele, alguém teve paciência para lhe ensinar o ABC. Daí nasce o desejo de fazer com que o espectador deixe o teatro pensando em algum educador que atravessou sua história.

A homenagem, porém, chega pela comédia: “Sala dos Professores é uma comédia na essência e um drama no subtexto.”

Fontenelle buscou em professores que conheceu ao longo da vida elementos para construir Helena, Rosivalda e Carlos. Não existe uma única pessoa reproduzida em cena. Os personagens são formados por uma mistura de memórias de antigos professores e também de colegas do período em que o próprio autor deu aulas.

“O público vai rir sem parar e de repente uma pequena lágrima nostálgica pode surgir sem que eles percebam. Uma homenagem aos professores através do riso”, define.

Espiar a sala dos professores pelo buraco da fechadura

Helena é professora de Matemática. Rosivalda ensina Português. Carlos é professor de Teatro. Enquanto aguardam Ricardo, colega que está prestes a se aposentar, os três conversam, lembram, discordam e revelam aspectos de suas vidas que dificilmente chegariam aos alunos da mesma maneira.

É a escolha do espaço que permite ao espetáculo inverter o ponto de vista. Fontenelle conhece esse ambiente também pela experiência como professor universitário. Ele se lembra dos colegas introspectivos sentados silenciosamente nos sofás, dos extrovertidos contando histórias, dos apressados que quase não paravam e dos atrasados que entravam apenas para assinar a presença antes de correr para a aula. Personalidades diferentes dividindo um lugar que, independentemente do dia, permanecia como espaço de troca.

“A peça dá ao público a oportunidade de olhar uma ‘Sala dos Professores’ através do buraco da fechadura”, resume o autor.

A imagem ajuda a compreender o que a dramaturgia procura revelar. Durante boa parte da vida escolar, conhecemos nossos professores pelo papel que exercem diante de nós. A peça abre a porta para aquilo que normalmente fica escondido: existem pessoas por trás da função.

Paulo Fontenelle e Alexandre Lino, autor e diretor de “Sala dos Professores”. Foto Janderson Pires
Paulo Fontenelle e Alexandre Lino, diretores de “Sala dos Professores”
Foto: Janderson Pires

Para Alexandre Lino, professor e ator têm algo em comum

Essa humanidade também orientou a direção. Alexandre Lino identifica uma proximidade entre os dois universos que a montagem coloca em contato: educação e teatro: “A sala dos professores é um espaço comum, mas também um lugar onde vidas são transformadas todos os dias. Assim como o teatro, ela é um ambiente de aprendizado coletivo, troca de afetos, conflitos, escuta e descobertas.”

Para Lino, existe inclusive algo de ator no professor. Ambos precisam estabelecer comunicação, provocar, emocionar e são capazes de deixar marcas que permanecem muito depois daquele encontro.

A relação da equipe com a educação vai além dos personagens. Piera Pillar, Rosana Dias e Rudson Dias também são professores, assim como Fontenelle e Lino já estiveram em sala de aula.

Essa experiência aumentou, segundo o diretor, a responsabilidade da montagem diante do universo retratado. Em vez de observar a profissão somente de fora, parte dos artistas envolvidos conhece seus desafios pela própria vivência: “Quando se fala de um tema tão sensível, é importante ter alguma propriedade, para não correr o risco de reproduzir apenas opiniões ou clichês.”

Professores reconhecíveis, mas nunca caricaturas

A professora de Português apaixonada pela norma culta, a professora de Matemática que procura lógica até nas relações e o professor de Teatro que enxerga o mundo pela sensibilidade poderiam facilmente ser transformados em tipos cômicos.

A direção escolheu outro caminho: “Nosso compromisso foi construir personagens que fossem reconhecíveis, mas nunca caricaturas”, afirma Lino. A identificação deve surgir porque o espectador reconhece comportamentos, personalidades e lembranças de sua própria experiência escolar, e não porque a profissão foi reduzida a estereótipos.

É também nessa construção que o humor encontra espaço para conviver com desgaste profissional, aposentadoria, vocação e frustrações.

Lino recorre ao palhaço e ao clown para explicar essa relação: a alegria não precisa eliminar a dor para provocar riso: “O riso não diminui o sofrimento; ao contrário, nos aproxima dele de forma mais humana.”

Fontenelle parte de princípio semelhante. Para ele, encontrar humor em uma realidade difícil exige respeito, mas permite chegar à emoção sem abandonar a essência de uma comédia.

Teatro também pode ensinar sem parecer uma aula

A educação não está apenas no assunto de Sala dos Professores. Para Fontenelle, existe uma aproximação entre a função do espetáculo e aquilo que seus personagens fazem diariamente.

O autor se interessa pela capacidade da arte de transmitir conhecimento sem anunciar ao espectador que está tentando ensiná-lo. Na peça, informações e reflexões sobre educação aparecem incorporadas à dramaturgia, enquanto a valorização dos professores permanece como seu principal eixo: “O público vai rir sem parar o tempo inteiro, mas quando sentar depois para falar da peça, vários questionamentos vão surgir”, afirma.

Essa conversa continuará literalmente depois do espetáculo. Ao final das apresentações, a plateia será convidada a participar de bate-papos com pedagogos ou outros profissionais da educação.

Para Alexandre Lino, a proposta significa entender que a experiência teatral não precisa terminar quando as luzes se apagam. O diretor já experimentou uma dinâmica semelhante em Minha Nova Ginecologista, quando especialistas conversavam com o público depois das sessões: “Essa aproximação entre artistas, educadores e público amplia a experiência e transforma a emoção da cena em reflexão compartilhada.”

E se eu fosse professor?

Ao falar sobre aquilo que gostaria que permanecesse com o espectador depois da peça, Paulo Fontenelle volta à memória. Espera que cada pessoa se lembre dos professores que fizeram parte de sua formação e se pergunte se ofereceu a eles o reconhecimento que mereciam.

Mas a reflexão não termina no outro: “O quanto guardamos do que nos foi ensinado? O quanto ensinamos para o próximo?”, questiona o autor.

Alexandre Lino responde à mesma questão de maneira ainda mais direta. Se pudesse escolher apenas uma pergunta para acompanhar o público na saída do teatro, seria: “E se eu fosse professor?”

Sala dos Professores começa permitindo que o espectador espie pelo buraco da fechadura de um lugar que normalmente permanece distante dos alunos. Lá dentro, não encontra somente profissionais responsáveis por ensinar Português, Matemática ou Teatro. Encontra pessoas.

E, quando a porta se abre novamente, a homenagem proposta pelo espetáculo ganha outro sentido. Reconhecer o professor não é colocá-lo em um pedestal. É perceber a humanidade de alguém que também ri, sofre, se desgasta e carrega suas próprias histórias enquanto ajuda a construir as nossas.

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