Viva Marília entende que ninguém poderia contar Marília melhor que ela

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Foto: Divulgação

Zelito Viana, com codireção de Esperança Motta e roteiro de Nelson Motta, constrói o documentário a partir de materiais de arquivo, entrevistas, fotografias e registros de trabalhos no teatro, na televisão e no cinema. O resultado encontra força quando entende que revisitar uma artista dessa dimensão não significa necessariamente falar por ela, mas escutá-la.

E Marília tinha muito a dizer. Sua relação com a arte praticamente coincide com a própria existência. Entrou em cena ainda bebê, interpretou a filha de Medeia aos quatro anos e cresceu cercada pelo teatro. Ao falar sobre o “turbilhão de personagens” que atravessou sua vida, deixa evidente que atuar nunca esteve separado de quem ela era.

É por isso que Viva Marília se mostra tão acertivo quando abandona qualquer necessidade de explicar sua importância. A dimensão da atriz aparece no acúmulo de personagens, experiências e lembranças, mas também na maneira como ela própria olha para tudo isso.

Tem humor, vaidade, inteligência, contradição, medo, consciência e, principalmente, história. Quando Marília relembra Roda Viva, sua memória pessoal encontra um dos períodos mais violentos do país. Ela admite que, inicialmente, não compreendia toda a dimensão política do espetáculo. Depois vieram a invasão do teatro, a violência, a prisão do elenco e o medo. Ainda assim, no dia seguinte, estavam novamente no palco.

O documentário não precisa interromper esse relato para explicar a coragem daquela mulher. A própria lembrança dá conta dela e esse princípio atravessa o filme. Quanto mais Marília fala, menos interessa construir uma estátua. Surge uma artista viva, inquieta, consciente da própria trajetória e ainda tentando compreender o que existia para além dela.

É nesse ponto que o encerramento ganha força extraordinária, pois depois de tantas personagens, palcos, câmeras e histórias, perguntam a Marília qual sonho ainda não havia realizado. Sua resposta não procura outro papel, prêmio ou reconhecimento. Ela queria compreender o sentido de ser. Queria conseguir ser um ser humano livre.

A frase reorganiza tudo o que assistimos e o maior acerto de Viva Marília é compreender que homenagear Marília Pêra não a transforma em monumento e era necessário somente devolver sua voz ao público. Antes dos créditos finais, uma pergunta provocadora feita a ela em determinada entrevista: ‘Qual é o seu grande sonho, Marilia, que você ainda não pode realizar? A resposta serve para todos refletirem: “É descobrir o sentido de ser e conseguir ser um ser humano livre”. O filme termina e Marília continua falando.

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