Foto: Manoella Mello
Após viver o cozinheiro Cláudio em “Coração Acelerado”, ator se prepara para reencontrar nos palcos peça que marcou sua carreira e ganhou novos significados com o passar do tempo
Mais de duas décadas depois da primeira montagem de “Pequenos Trabalhos para Velhos Palhaços”, Alexandre David prepara retorno aos palcos e também o reencontro com Cláudio Mendes e Augusto Madeira, parceiros de cena que conseguem extrapolar o profissional, é uma amizade construída ao longo dos anos.
Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, Alexandre fala sobre o reencontro com a peça, os novos significados que a obra ganhou com o passar do tempo e a amizade que atravessou duas décadas. A peça, escrita pelo romeno Matéi Vișniec e dirigida por André Paes Leme, deve voltar aos palcos no fim de 2026, começando por uma possível pré-estreia em Juiz de Fora. O projeto está em fase de pré-produção e busca viabilização por meio de editais e parcerias. A ideia, no entanto, já ultrapassa o teatro: o trio também trabalha na adaptação da história para o cinema, com autorização do autor.
“Voltar a fazer esse texto que marcou a minha trajetória é uma alegria”, conta Alexandre. Para ele, a retomada não representa apenas uma remontagem. É também reencontro com a obra que ganhou novas camadas à medida que os próprios atores envelheceram.
Quando fizeram a peça pela primeira vez, os três precisavam imaginar o que significava chegar à velhice e enfrentar a sensação de já não ser necessário. Agora, 20 anos depois, a compreensão é inevitavelmente diferente: “Temos mais vivências, experiências, temos uma relação maior com a saúde e a gente entende que a vida é finita mesmo”, reflete o ator. Os personagens continuam sendo mais velhos do que eles, mas a distância diminuiu. A experiência acumulada ao longo das últimas duas décadas passou a fazer parte do repertório emocional levado para o palco.
A percepção da passagem do tempo também aparece na maneira como Alexandre enxerga a própria atuação. Nas novas leituras, o texto foi revisto, atualizado e retrabalhado, mas houve também uma atualização interna dos atores: “Somos os mesmos e não somos; somos outras pessoas, mas o afeto continua, o amor pelo teatro e pela arte também”, afirma.
Para ele, uma das principais mudanças está na relação com o tempo. Se, no início dos anos 2000, havia pressa maior para conquistar espaço, fazer e acontecer, hoje existe outra respiração. “A gente tinha uma pressa maior, um desejo de ganhar o mundo, de fazer, acontecer e agora temos mais calma; uma respiração diferente”, diz.
Essa maturidade pode tornar o espetáculo ainda mais intenso: “Vai ser mais bonito, mais intenso, denso e dramaticamente mais interessante de ver”, acredita Alexandre.
Uma peça sobre continuar sendo necessário
Em “Pequenos Trabalhos para Velhos Palhaços”, três artistas se encontram diante da possibilidade de novo trabalho e precisam lidar com questões que vão muito além da oportunidade profissional. O espetáculo aborda envelhecimento, produtividade, desemprego e o medo de se tornar descartável em uma sociedade que frequentemente valoriza a juventude.
Para Alexandre, o tema ganha dimensão ainda mais forte quando levado para a realidade dos artistas. A profissão, por natureza, já é marcada pela instabilidade e pela necessidade constante de ser escolhido. Com o passar dos anos, essa relação pode se tornar ainda mais delicada. Ao mesmo tempo em que novas gerações chegam e ocupam seus espaços, algo que o ator considera bonito e necessário, ele defende que a experiência de quem já percorreu uma longa trajetória também precisa ser valorizada: “Não podemos deixar de respeitar a experiência, vivência de artistas, com um olhar do tempo, que é importante no teatro”, afirma.
É nesse ponto que a peça encontra relação direta com o momento atual de Alexandre. Mais do que falar sobre artistas que precisam provar que ainda são úteis, o espetáculo reafirma o desejo de continuar criando e contando histórias: “Essa peça provoca em mim esse desejo de continuar falando, ao mesmo tempo que ela me dá a sensação de que eu sou necessário, pois acredito em assuntos importantes para a plateia, classe artística e para o desenvolvimento do país”, explica.

Foto: arquivo pessoal
A amizade também entra em cena
Outro elemento que pode fazer diferença na nova montagem é aquilo que não estava no roteiro original: os 20 anos de amizade entre Alexandre, Cláudio Mendes e Augusto Madeira.
A intimidade construída fora do palco naturalmente encontra espaço dentro dele. Os três já conhecem os tempos, os silêncios e as reações uns dos outros, o que cria dinâmica que, segundo Alexandre, nenhuma técnica de atuação consegue reproduzir completamente.
Durante ensaio, o diretor André Paes Leme chegou a propor um exercício para aproximar ainda mais os atores da verdade das cenas: eles deveriam chamar uns aos outros pelos próprios nomes.
A relação também aparece nos imprevistos. Alexandre lembra de apresentação em que parte do cenário caiu durante a cena. Em vez de interromper o espetáculo, os três seguiram atuando e incorporaram o acidente à situação: “É muito viva essa relação humana do artista, quando é levada para a cena e quando se tem confiança no outro”, comenta.
Para ele, essa confiança é especialmente importante em espetáculo que fala justamente sobre relações humanas, sobrevivência e amizade. “O teatro é o espelho da vida”, resume.
A redescoberta das origens em “Coração Acelerado”
Antes de se preparar para voltar aos palcos, Alexandre viveu experiência marcante na televisão com “Coração Acelerado”, novela em que interpretou o cozinheiro Cláudio.
O trabalho também proporcionou ao ator espécie de reencontro com as próprias origens. Nascido em Juiz de Fora, em Minas Gerais, Alexandre percebeu semelhanças entre a cultura de sua cidade e alguns aspectos da representação do interior de Goiás apresentada pela novela: “Foi uma redescoberta muito bonita”, afirma.
Mais do que os cenários, ele chama atenção para relação diferente com o tempo: a maneira de receber as pessoas, a duração das conversas e rotina menos acelerada do que aquela vivida em grandes centros, como o Rio de Janeiro, onde mora atualmente.
Na avaliação do ator, a novela das 19h que terminou em agosto conseguiu trabalhar esses elementos sem reduzir a cultura regional a um cenário ou estereótipo. A identidade aparece na música, na maneira de vestir, de falar e nas relações entre os personagens, além do cuidado com a prosódia: “Foi uma novela feita com muito carinho e muita atenção, muito respeito ao interior do Brasil, a essa região em específico”, destaca.
A música sertaneja também foi uma das portas de entrada de Alexandre para esse universo. Para ele, as canções que falam de amor, vida e natureza ajudam a traduzir certa inocência, pureza e intensidade emocional presentes na cultura retratada pela novela.
Do palco para o cinema
A relação de Alexandre com “Pequenos Trabalhos para Velhos Palhaços” pode ganhar ainda uma terceira linguagem. O projeto de transformar a peça em filme já está em desenvolvimento, com o aval de Matéi Vișniec.
O roteiro está sendo elaborado e a produção começa a avançar nos aspectos burocráticos e de viabilização. A proposta é aproveitar no cinema possibilidades que o palco não oferece.
Se no teatro muitas das histórias são contadas pelos próprios personagens, no cinema será possível mostrar alguns desses acontecimentos: as paixões, o circo, os personagens mencionados nas memórias dos palhaços e outros elementos que permanecem apenas na imaginação do público durante a montagem teatral.
Para Alexandre, isso pode ampliar a dimensão da obra sem perder aquilo que faz dela uma história tão atual. “É um assunto que não morre”, afirma.
A relação do ser humano com o trabalho, a necessidade de se sentir útil, o medo da sobrevivência, o desemprego, a amizade e o desejo de continuar se expressando atravessam gerações. É por isso que os três palhaços ainda têm algo a dizer.
Mais de 20 anos depois, Alexandre David não volta apenas para uma peça que marcou sua carreira. Volta carregando no corpo, na memória e na experiência tudo aquilo que aconteceu desde a primeira vez em que esteve diante desse texto e é a maior transformação da nova montagem: os palhaços continuam os mesmos, mas os homens que os interpretam já não são.

Jornalista apaixonada por boas histórias. Entre filmes, séries, livros e espetáculos, está sempre em busca de narrativas que mereçam ser compartilhadas.
