Foto: Divulgação/Globo
Um vampiro pode atravessar uma rua enquanto alguém dirige um carro do ano. Uma lobimoça pode descobrir sua verdadeira natureza em um mundo no qual existem celulares, internet e algoritmos. Em um laboratório, a ciência tenta encontrar explicações para aquilo que, durante séculos, pertenceu ao terreno das lendas e Vermelho Sangue encontra neste cenário, uma de suas ideias mais sedutoras: o extraordinário não está escondido em um passado distante, mas pode estar acontecendo agora, ao nosso lado.
Criada e escrita por Rosane Svartman e Claudia Sardinha, com direção artística de Patricia Pedrosa, a série Original Globoplay retorna para a segunda temporada em 17 de setembro e antes dos novos episódios chegarem ao público, as três conversaram com o Pittaplay sobre um processo que começou na página em branco, atravessou pesquisas científicas, viagens, testes, ensaios, limitações técnicas e muitas horas de discussão até encontrar uma linguagem própria para fazer vampiros e lobisomens existirem no Brasil de hoje.
Para Rosane, colocar o fantástico dentro da contemporaneidade nunca foi uma consequência do roteiro. Era uma das premissas que sustentavam a história desde o nascimento: “Adoro pensar que existem mais coisas entre o céu e a terra, que existe um extraordinário, uma camada mágica invisível na nossa realidade. Gosto de acreditar que ela existe. É muito bacana ter a oportunidade de mergulhar numa série como essa, porque não é um gênero em que a gente vê um investimento grande no Brasil. Seja ficção científica ou fantasia, sempre fui muito para esse lugar na minha adolescência e até hoje gosto muito, tanto de séries e filmes quanto de livros”, conta.
Claudia leva essa convivência um pouco além. Se a tecnologia mudou a maneira como nos relacionamos com o mundo, isso não significa que a humanidade tenha deixado de procurar aquilo que não consegue explicar: “A magia existe hoje, aqui, agora. Não é algo que ficou no passado. Ela está em todas as coisas, permeia o nosso dia a dia. Junto com toda a modernidade, com conexão, algoritmo, inteligência artificial, a gente ainda tem espaço para o mágico. E usamos a simbologia do gênero para falar de assuntos atuais. Esse era muito o nosso interesse: falar das questões que nos tocam hoje na sociedade, sobre autoaceitação, biodiversidade, bioética. São metáforas da fantasia para falar de assuntos do agora.”
Para acreditar no fantástico, primeiro é preciso acreditar na dor
O desafio muda quando aquilo que nasceu como ideia precisa ganhar corpo. Patricia Pedrosa partiu de um princípio aparentemente contraditório: quanto mais fantástica fosse a história, maior seria o compromisso da direção com a realidade.
Por isso, antes de pensar apenas em como uma transformação ficaria bonita diante da câmera, vieram perguntas menos confortáveis. Se uma unha cresce de maneira sobrenatural, o que acontece com a pele ao redor? Se o corpo está mudando, qual é a sensação de quem passa por aquilo? Existe dor? Existe sangue?
“Só pelo fato de a gente já estar tratando de assuntos muito fantásticos, tínhamos que nos aproximar o máximo possível da realidade. Essas pessoas estão inseridas numa sociedade que não acredita em vampiros e lobisomens. É como se nós, aqui, um belo dia nos deparássemos com um vampiro, sendo que esses seres já faziam parte desse ecossistema e nós simplesmente não havíamos nos dado conta”, explica a diretora.
Essa procura pela verdade chegou às transformações físicas: “Como é essa unha que cresce? Ela começa a crescer e vai atravessar a minha pele? Isso vai começar a sangrar? Vai doer? Essa transformação deve doer. Fomos buscando essa aproximação com as dores, com a realidade do corpo desses personagens e levamos isso para os elementos de cena, para os cenários, para a forma como eles se relacionavam.”
A fantasia, então, precisou aprender a obedecer a algumas regras. Antes de escrever sobre criaturas que não existem, a equipe foi atrás de tudo aquilo que existe ao redor delas. A série contou com diferentes consultorias e pesquisas para construir seus códigos, passando pelo imaginário de vampiros e lobisomens, pela genética e pelo comportamento do lobo-guará. A segunda temporada, segundo Rosane, amplia ainda mais o peso da ciência nessa equação.
“Uma série como essa não sai só da imaginação, ela parte de um cânone construído ao longo de mais de um século sobre vampiros e lobisomens. Tivemos uma consultora que nos trouxe muitos filmes, inclusive o que chamávamos de ‘lado B’, e zelava por esses códigos. Tivemos também uma geneticista especialista em terapia gênica, que relia cada palavra que escrevíamos, e um biólogo especializado em lobo-guará. Às vezes ele lia uma cena e dizia: ‘Não, um lobo jamais faria isso’. Agora que a história da Luna passa por conhecer melhor a própria natureza, isso se torna ainda mais importante.”
Nesse caminho, magia e ciência deixaram de ocupar extremos opostos: “Existe uma explicação mágica e cultural para a transformação de uma pessoa em lobisomem, mas quisemos trazer isso como tema e perguntar: e se for uma mutação genética? Como isso funcionaria dentro de uma metodologia científica? Se fosse uma condição genética, como seria passível de reversão? Isso existe? Não existe? Fomos descobrindo, aprendendo e estudando muito”, lembra Claudia.
Rosane brinca que as duas acabaram voltando às aulas. Caderno aberto, explicações de genética e uma pergunta improvável diante delas: se o impossível existisse, como a ciência tentaria compreendê-lo?

Foto: divulgação/Globo
Quando uma protagonista erra
Toda essa construção, porém, teria pouco valor se o espectador acreditasse nos vampiros, mas não acreditasse nas pessoas. Flora, vivida por Alanis Guillen, talvez seja um dos melhores exemplos dessa escolha. Impulsiva, fascinada pelo extraordinário e disposta a ultrapassar limites para encontrar um lugar no mundo, ela toma decisões que não precisam necessariamente conquistar a concordância de quem está assistindo. Algumas podem provocar justamente o contrário.
Para Rosane, escrever uma personagem assim exige exercício anterior ao julgamento: “Quando a gente escreve uma personagem, precisa se colocar na pele dela. É o exercício que todo roteirista tem que fazer. Às vezes a Flora faz besteira, ela é impulsiva, mas precisamos entender por que fez aquilo. Quando você entende por que uma personagem errou, pode ter empatia por ela. Depois, o poder está sempre com o espectador. Ele pode entender ou não porque isso também tem a ver com a trajetória dele, com o que ele faria.”
Flora passou boa parte da primeira temporada acreditando que precisava ser mais do que era. A ironia é que, aos olhos de quem a criou, ela já carregava exatamente aquilo que procurava: “Ela é uma mulher extraordinária que não se vê como extraordinária. Acha que precisa de mais porque não cabe naquele lugar, não consegue se relacionar com as pessoas dali. Quando entendemos quem ela é, entendemos também por que se agarra à primeira chance de ser mágica.”
Nem mesmo a sala de roteiro, entretanto, esteve imune às discussões provocadas pela personagem: “A gente brigava muito na sala: ‘Nossa, ela está muito chata’. E alguém respondia: ‘Não, mas se fosse eu, faria isso’. Ela também não pode ser perfeita. É muito carismática, mas precisa cometer erros, precisa ter alguma falha. O processo com os colaboradores foi fundamental porque trazia vários pontos de vista. Tinha cada um defendendo o seu e isso ajudava a encontrar equilíbrio”, revela Claudia.
Se na primeira temporada Flora correu atrás do extraordinário, a segunda começa quando o desejo já foi realizado. Agora vampira, ela precisará descobrir que conseguir aquilo que se deseja nem sempre significa encontrar aquilo de que se precisa: “Cuidado com o que você deseja”, resume Rosane. “Ela vai pagar o preço pelas escolhas. Foi impulsiva, foi com muita sede ao pote porque viveu durante muitos anos com uma frustração muito grande, como se estivesse dentro de um aquário. Quando teve a oportunidade, foi com tudo. Agora vai precisar entender que toda escolha tem consequência. É por aí que ela vai amadurecer.”

Como um ator reage ao que não existe?
Na página, alguém pode escalar uma parede. Pode saltar, atacar, revelar dentes, transformar o próprio corpo. No set, entretanto, existe uma câmera esperando que o ator torne convincente algo que muitas vezes só estará completo meses depois.
Para Patricia, essas sequências começam muito antes do “ação”: “As cenas de efeito passam meses sendo estudadas. A gente faz storyboard e os atores ensaiam muito. É quase como fazer teatro porque eles repetem aqueles movimentos até tudo ficar orgânico. Só que, quando vamos filmar, fazemos tudo picotado. Gravamos o pedaço do soco, depois precisamos voltar porque tem o chute, depois ir para outro plano. Só conseguimos fazer isso com uma dedicação absoluta do elenco.”
A diretora conta que encontrou um grupo disposto a viver aquele universo para além do instante da gravação. Os ensaios ocupavam intervalos, os movimentos eram repetidos e os personagens começaram a se acomodar no corpo dos intérpretes: “Eles viveram essa série numa intensidade que eu nunca tinha visto em nenhum elenco trabalhando comigo. Introjetaram tanto aqueles personagens no dia a dia que começaram um pouco a se sentir aqueles seres. Junto com os ensaios, tudo foi ficando orgânico.”
Isso não significava se contentar facilmente com o resultado. Houve sequências gravadas 17 ou 18 vezes até que Patricia encontrasse o tom que buscava. Ao redor, a equipe perguntava se já havia material suficiente. A resposta permanecia a mesma enquanto ela e os próprios atores soubessem que ainda faltava alguma coisa: não.
A repetição, com o tempo, transformou dificuldade em domínio: “No início, a gente perdia mais tempo encontrando os tons dos personagens. Depois eles faziam com muita facilidade. Como qualquer coisa que você pratica muito, vai melhorando.”
Parte dessa segurança também passou pelo trabalho da preparadora Cris Moura, lembrada por Patricia como presença fundamental durante todo o processo. Os atores chegavam ao set depois de um trabalho anterior que permitia à direção partir de um terreno já construído.
Foram procurar lobisomens e voltaram acreditando em lobimoças
Antes de os atores aprenderem a pertencer a Guarambá, parte da equipe precisou acreditar naquele território. Claudia considera uma decisão fundamental de Patricia iniciar as filmagens longe da rotina convencional dos estúdios. A Serra da Canastra não serviu apenas como paisagem. A viagem colocou elenco e equipe dentro de uma experiência compartilhada, aproximando pessoas que ainda estavam descobrindo como construir juntas aquele universo.
Para as próprias autoras, a região já havia provocado algo durante a pesquisa: “A gente saiu do Rio para visitar a Canastra achando lobisomem uma fantasia e voltou acreditando em lobimoça”, conta Claudia. “De fato entramos no sagrado daquele ambiente, onde aquilo faz parte da cultura, onde aquilo é possível.”
A imersão continuou no Caraça, usado na construção visual do Instituto de Biologia VP Tech. Ali, conta Patricia, não havia uma separação tão clara entre chegar ao cenário e voltar para casa depois do expediente: “A gente morava lá. Aqueles quartinhos, aquelas janelinhas, eram onde estávamos dormindo. Passávamos o dia ali. A gente dormia, acordava no set, filmava e viveu muito aquela atmosfera.”
Quanto custa uma transformação?
Fantasia também é matemática. Entre aquilo que duas roteiristas conseguem imaginar e aquilo que finalmente chega à tela existem orçamento, tempo, tecnologia, profissionais e escolhas. Para Rosane, essa negociação não pode acontecer apenas quando o roteiro deixa as mãos das autoras.
“Existe um tripé: direção, produção e roteiro. Produção porque existe um dinheiro e um pensamento sobre onde ele será gasto. Numa obra fechada como essa, a Patricia já tinha todos os roteiros quando começou a filmar, mas não pode existir essa ideia de que as autoras entregaram e o trabalho acabou. Existe toda uma adequação ao que depois a direção vai conseguir transformar em realidade.”
Na prática, Patricia precisou decidir onde concentrar a força visual da série: “É uma equação. Temos limitações de orçamento, tempo e equipe. Você pega o roteiro e pensa: com o dinheiro que tenho, com a quantidade de pessoas e com o tempo disponível, o que consigo fazer? Às vezes é melhor tirar uma cena e fazer uma transformação espetacular, colocar toda a nossa energia nela, em vez de fazer várias pequenas transformações ou duas enormes e não conseguir fazer nenhuma tão bem.”
Não se tratava apenas de diminuir. Em outros momentos, conhecer uma locação abria possibilidades que não existiam quando a cena havia sido imaginada. Patricia e Claudia caminhavam pelos espaços pensando onde determinada sequência poderia acontecer. O roteiro voltava para as autoras, era adaptado e retornava transformado.
Até a escolha do elenco interferiu na escrita: “A partir da escolha, a gente voltava para o roteiro e mudava. Tivemos uma troca muito forte entre esses três pilares. Patricia fazia muitas perguntas e isso colocava a gente para refletir. Já sabendo o que teríamos de produção e conhecendo as locações, podíamos pensar coletivamente nessa reestruturação”, explica Claudia.
As regras do impossível
Fazer o público acreditar que vampiros e lobisomens podem existir exige uma espécie de acordo silencioso. O espectador aceita o impossível, mas, depois que entra naquele universo, espera que ele respeite as próprias regras.
Claudia aprendeu com a própria parceira de criação uma máxima que carrega para o roteiro: “Eu tive uma mestra chamada Rosane Svartman e ela sempre me ensinou que a gente tem que plantar para colher. Quando você planta bem, justifica, explica e também lida com a expectativa do público.”
Rosane leva o princípio também para as decisões dos personagens. Uma reviravolta pode ser surpreendente, mas não deveria existir às custas da pessoa que a história passou episódios construindo: “Tudo é muito discutido, muito pensado. Quando alguém diz ‘não estou confortável com isso’, precisamos investigar, estressar aquela ideia até entender o que está acontecendo. Eu não gosto quando a gente força uma personagem a fazer alguma coisa em prol da história. A lógica da personagem precisa ser sempre mais forte do que o desejo de uma grande virada, porque senão ela vem de forma artificial.”
O mesmo cuidado aparece quando a série brinca com um repertório que o público conhece há décadas. Cruzes, sangue, mordidas e transformações carregam expectativas construídas por inúmeras histórias anteriores. Vermelho Sangue não tenta fingir que elas nunca existiram, mas prefere conversar com elas: “Mesmo respeitando os códigos, eles se atualizam. Quando surgiu a ideia de que o crucifixo afastava vampiros, aquilo fazia sentido pela religiosidade e pela criação desse mito. Atualizar essas histórias respeitando tudo que já se escreveu e se pensou é andar numa corda bamba e é isso que torna interessante”, avalia Rosane.
Há limites, porém, que as autoras não quiseram atravessar. Nesse universo, vampiro bebe sangue: “Não bebe água, não bebe vinho. Em outros filmes abriram essa exceção. A gente achou que não. Isso está no coração do que é ser vampiro”, completa.

Foto: Paulo Belote/Globo
“Meu Deus, por que eu fiz isso?”
Antes de comandar artisticamente esse universo, Patricia Pedrosa precisou descobrir como entrar nele. Quando recebeu de José Luiz Villamarim o convite para dirigir Vermelho Sangue, ganhou também o roteiro do primeiro episódio. Leu. Chegou ao gancho. Gostou tanto que respondeu imediatamente: estava dentro.
A coragem durou até a mensagem ser enviada: “Na hora em que mandei, pensei: ‘Meu Deus, por que eu fiz isso? Onde estou me metendo?’. Eu não era como as autoras, que já assistiam a esse tipo de filme e eram fãs do gênero. Não fazia parte do meu dia a dia. Eu também não fazia ideia de como se fazia.”
Vieram outros roteiros. Patricia avançou até o quarto episódio e tomou uma decisão que nunca havia contado nem mesmo às autoras: “Eu falei: ‘Não tem condição de seguir lendo porque eu não sei fazer’. Larguei os roteiros. Elas tinham me mandado os 20, eu li quatro e fiquei meses sem ler. Enquanto não entendesse mais ou menos como conseguiria contar aquela história, não queria continuar. Precisava de um tempo para digerir.”
O caminho começou a aparecer quando direção e autoras se encontraram, mergulharam em referências e passaram a abrir, juntas, as diferentes caixas daquele universo. O medo inicial não desapareceu porque alguém entregou uma fórmula, mas porque a equipe construiu uma.
Esta é, portanto, uma das chaves para compreender Vermelho Sangue. Por trás de uma unha que cresce, de um dente que surge, de uma loba correndo pelo cerrado ou de um vampiro atravessando o mundo contemporâneo, houve gente perguntando durante meses como aquilo deveria existir.
E algumas discussões foram muito além dos efeitos: “Ficamos semanas discutindo a cor da série. Às vezes íamos para os Estúdios Globo e passávamos cinco, seis horas falando sobre cor. Todo mundo estava ali tentando entender aquela coisa”, recorda Patricia.
Para ela, o resultado não pertence isoladamente a quem escreveu, dirigiu ou interpretou. Audiovisual é uma arte que se completa por muitas mãos e, no fim, por outros olhos: “Essa obra começou numa faísca da Rosane. Foi para os autores, veio para a direção, passou por toda a equipe artística e termina nessa percepção do público acerca do que nós, enquanto grupo, fizemos. Isso é muito belo.”
É por todo este coletivo que o fantástico funciona tão bem quando encontra verdade. Em Vermelho Sangue, ninguém precisou provar que vampiros e lobimoças existem. O trabalho foi outro: construir um mundo suficientemente reconhecível para que, durante alguns episódios, a possibilidade de eles existirem deixe de parecer tão absurda.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.

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