Eliza Telles transforma autonomia criativa em caminho para contar suas próprias histórias

Eliza Telles fala sobre cinema, atuação e novelas verticais

Foto: Divulgação

Uma protagonista feminina com poucas falas foi suficiente para provocar em Eliza Telles uma inquietação que acabaria influenciando os rumos de sua carreira. Em 2019, durante as gravações de seu segundo longa como protagonista, a atriz percebeu que sua personagem, embora importante, existia principalmente como suporte para uma narrativa masculina. A experiência não diminuiu sua gratidão pelos diretores com quem trabalhou, mas revelou o desejo de participar também das decisões sobre quais histórias seriam contadas.

“Se eu tinha cinco falas, era muito. Sou grata a esse diretor e ao primeiro com quem trabalhei, mas me incomodava ser uma protagonista feminina quase sem falas, uma personagem de suporte para uma narrativa masculina. Importante, mas sem voz.”

Hoje, Eliza atua, dirige, escreve, produz e prepara elenco. À frente da Jamary Films, fundada ao lado de Begê Muniz, desenvolve projetos que transitam entre cinema, festivais, redes sociais e novelas verticais. Em entrevista ao Pittaplay, a artista fala sobre a liberdade conquistada ao assumir diferentes funções, mas também sobre o desafio de impedir que as responsabilidades dos bastidores afastem a atriz do trabalho que deu origem a tudo.

O protagonismo feminino como escolha de produção

A criação da Jamary Films transformou aquela inquietação em uma diretriz. Para Eliza, ampliar a presença feminina no audiovisual significa garantir que mulheres possam protagonizar histórias próprias e também participar das decisões criativas por trás das câmeras.

“Quando fundei a Jamary ao lado do Begê, o protagonismo feminino se tornou um pilar da produtora, na frente e atrás das câmeras: mulheres liderando equipes e mulheres protagonizando, tendo histórias e cenas que não fossem apenas relacionadas aos homens.”

A artista ressalta que essa escolha não representa oposição às narrativas masculinas, mas a necessidade de ampliar as possibilidades de representação. A autonomia, no entanto, não elimina os desafios de uma produção independente. Acumular funções exige preparo e pode tornar mais difícil a entrega integral à atuação: “Quando você decide ocupar muitos espaços, todos ficam, de certa forma, fragilizados, principalmente quando você não tem uma equipe completa no cinema, onde o orçamento nunca é suficiente e dependemos de muitos apoios.”

Eliza reconhece que prefere os momentos em que pode se dedicar exclusivamente à interpretação. Ao mesmo tempo, dirigir e produzir lhe permitem criar personagens e desenvolver histórias que deseja contar. Para preservar esse equilíbrio, estabeleceu uma regra pessoal: “só produzir o que atuo.”

Em YBI, a personagem também nasceu na montagem

Um dos projetos que reúne essas diferentes funções é YBI, curta-metragem dirigido por Begê Muniz e Eliza Telles, que também interpreta a protagonista. O filme estreou no Festival de Vitória e recebeu o prêmio do júri técnico na mostra “O Outro Lado do Cinema Fantástico”. A produção segue com circulação prevista em outros festivais e já está em desenvolvimento para uma versão em longa-metragem.

A experiência exigiu da atriz uma relação particular com a própria personagem. Segundo Eliza, o filme aborda o desmatamento e as secas amazônicas, com uma linguagem próxima do documentário. Das oito diárias de gravação, cinco foram itinerantes, realizadas em locais que exigiam rapidez da equipe: “Eram muitas imagens contemplativas da personagem caminhando, e descobri muito sobre ela também na montagem. Estive muito próxima do Begê na construção da narrativa durante a montagem.”

A possibilidade de observar a atuação de dentro e de fora não surgiu de maneira imediata. Eliza recorda que, há quase dez anos, ao trabalhar em Sessão de Terapia com Selton Mello, ficou impressionada com a capacidade do ator de dirigir e interpretar simultaneamente. Hoje, compreende melhor essa divisão de atenção, embora considere fundamental preparar o máximo possível antes das filmagens: “Por isso, para mim, é fundamental ensaiar muito, ter um preparador de elenco e construir antes do set tudo que for possível. O set precisa ser um espaço de execução, mas também de pequenos improvisos mágicos que o cinema oferece.”

Compreender uma personagem não significa julgá-la

A preparação também aparece como elemento central na maneira como Eliza constrói suas personagens. Não existe, segundo ela, método único: algumas mulheres surgem pela memória, outras pelo corpo ou por um processo sensorial.

Em YBI, a criatura fantástica Ananga foi desenvolvida principalmente por meio do Butoh, enquanto a memória apareceu durante as gravações. Já personagens como Anita e Julia, de Bom Dia, Verônica, tiveram uma relação mais direta com lembranças e experiências internas: “Não compreendo o que acontece, apenas sinto e dou espaço para o personagem viver em mim. Nem sempre acontece, às vezes é técnico, mas quando ocorre é mágico e único.”

Essa abertura também orienta sua relação com personagens moralmente contraditórias. Eliza não considera necessário concordar com suas escolhas, mas compreender as razões que as movem. Ela cita Glória, de Perdoa-me por me Traíres, de Nelson Rodrigues, personagem que interpretou no teatro no ano passado: “Meu trabalho é compreender, nunca julgar. Para mim, até as pessoas mais cruéis têm em si uma justificativa interna para suas ações. Eu só compreendo quem são e aceito suas razões como reais, sem julgar.”

Jamary encontra o público entre o humor e o terror

Outro projeto importante dessa fase é Jamary, longa dirigido por Begê Muniz, produzido e protagonizado por Eliza. Após iniciar sua trajetória internacional nos Estados Unidos, em outubro de 2025, o filme passou por 12 festivais e conquistou seu quinto prêmio. A estreia nos cinemas brasileiros está prevista para novembro.

A produção também circulou por seis escolas públicas de Manaus e Iranduba, aproximando a obra de estudantes e comunidades da região. O contato com diferentes públicos revelou à equipe uma dimensão do filme que ainda não estava completamente clara durante sua realização: “Acho que descobrimos o potencial de humor que o texto tem. Sentimos que, mesmo com um sotaque local e piadas locais, o filme ganha o público. As pessoas riem, se divertem, as crianças torcem e prestam muita atenção.”

Eliza explica que o longa foi pensado para o público jovem, com o objetivo de apresentar uma Amazônia real, próxima daquela que os realizadores conhecem. A combinação entre humor e terror também se confirmou nas exibições, surpreendendo a equipe pela maneira como espectadores de diferentes contextos responderam à história.

Uma noiva em fuga e o direito de escolher

Eliza Telles fala sobre os desafios de atuar, dirigir e produzir, a busca por protagonismo feminino e os projetos YBI, Jamary e Noiva em Fuga, além de sua aposta nas novelas verticais brasileiras.
Eliza Telles fala sobre os desafios de atuar, dirigir e produzir, a busca por protagonismo feminino e os projetos YBI, Jamary e Noiva em Fuga, além de sua aposta nas novelas verticais brasileiras.

No campo autoral, Eliza prepara Noiva em Fuga, curta tragicômico que pretende escrever, dirigir e protagonizar, pensado para circulação nas redes sociais. A trama acompanha uma mulher que, à beira do altar, percebe estar prestes a realizar um sonho que nunca foi verdadeiramente seu. Ela decide fugir pelas ruas do Rio de Janeiro, acompanhada por um cinegrafista.

A história nasce de reflexões pessoais da artista sobre casamento, liberdade e as expectativas socialmente impostas às mulheres. Eliza conta que escolheu morar junto em vez de casar e construir relações de maneira aberta e livre, experiências que a fizeram questionar a origem de determinados desejos: “Não tenho nada contra o casamento, mas gostaria que essa cobrança de ‘ter que ser’ não fosse tão forte sobre o feminino.”

Para ela, a maneira de transformar essa discussão em dramaturgia é construir uma personagem humana e imperfeita, sem reduzi-la à função de defender uma ideia. A pergunta que atravessa o projeto é sobre a diferença entre aquilo que uma mulher deseja e aquilo que aprendeu a desejar.

Novelas verticais também exigem qualidade artística

A Jamary Films entrou no mercado de novelas verticais em 2026. A primeira produção da empresa no formato ultrapassou 1 milhão de visualizações, e outras duas estão previstas para serem gravadas em novembro. Eliza enxerga nesse segmento uma oportunidade de experimentar novas linguagens e desenvolver agilidade, sem abandonar os critérios que considera essenciais para uma obra audiovisual.

“A qualidade do meu trabalho, principalmente a qualidade de atuação, arte e fotografia. Sou muito chata com isso, mesmo se tratando de outras linguagens, tem que caber na veracidade, tem que ser agradável de ouvir e ver, ter uma técnica boa e uma atuação real, mesmo sendo mais verborrágica no caso das novelas verticais.”

A atriz reconhece que o ritmo de produção é intenso e que o formato exige entregas rápidas, mas considera essa dinâmica um exercício importante para atores e equipes. O interesse pelas novas linguagens não diminui sua admiração pelo cinema tradicional, embora ela perceba preconceito dentro do próprio audiovisual em relação a determinados formatos.

Para Eliza, compreender o comportamento do público não significa abrir mão da arte. Pelo contrário, é uma maneira de ampliar o alcance das histórias. Ela conta que realizou um estudo de audiência antes de construir YBI e que o primeiro vídeo de divulgação do filme alcançou meio milhão de visualizações: “Embora eu ame o cinema tradicional como espectadora, eu quero que o público assista ao meu filme. Tenho muito forte em mim que a minha arte deve transformar. E, para transformar, é preciso chegar. Então, unir arte com interesse de público gera impacto.”

Entre novos projetos, a atriz continua no centro

Em setembro, Eliza também estreia Retrato de Sarah no Cine Fantasy, em São Paulo, projeto no qual atua e trabalha como preparadora de elenco. A participação se soma às produções em desenvolvimento e à chegada de Jamary aos cinemas, compondo uma fase em que a artista amplia sua presença em diferentes etapas da criação audiovisual.

O movimento, porém, não representa uma troca da atuação pela produção. Ao contrário, Eliza procura fazer dos bastidores uma ferramenta para continuar interpretando e para participar da construção das personagens que deseja levar ao público: “Produzir e dirigir também me dão liberdade criativa de ser os personagens e contar as histórias que sempre quis contar.”

Entre a liberdade de criar e o peso de administrar projetos, a artista encontra seu próprio caminho: ocupar mais espaços para que a atriz não precise esperar que todas as oportunidades venham de fora.

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