Foto: Olhar Filmes
Virtuosas é tão atual que provoca a sensação de estar sendo filmado enquanto os acontecimentos se desenrolam do lado de fora da tela. Cíntia Domit Bittar constrói sua história a partir de discursos, comportamentos e crenças facilmente reconhecíveis no presente e os reúne em uma imersão que promete ensinar mulheres a alcançar sua melhor versão.
Quem conduz essa jornada é Virgínia, personagem de Bruna Linzmeyer, responsável por ensinar aquilo que considera o papel feminino dentro da sociedade. Submissão ao marido, comportamento e fé formam parte de uma doutrina apresentada como aperfeiçoamento. É uma ideia de mulher perfeita construída a partir daquilo que esperam que ela seja, com Deus usado como autoridade para determinar esse lugar.
Entre as participantes estão Germina, uma jornalista infiltrada, Lorena, esposa de um político e mãe de um bebê, além de outras mulheres que ajudam o filme a mostrar diferentes consequências daquele pensamento. Em uma das situações mais incômodas, a criança passa uma noite chorando e descobrimos que não foi vacinada. O discurso antivacina encontra ali uma consequência concreta, aproximando ainda mais a ficção de discussões que acompanhamos diariamente.
Virgínia chama atenção porque compreende muito bem o ambiente que criou. Inteligente e desconfiada, percebe comportamentos estranhos de Germina e observa atentamente quem está ao seu redor. Bruna Linzmeyer entende essa característica e encontra no cuidado o caminho para interpretá-la. Sua voz permanece amena, sua postura controlada e o olhar assume boa parte da comunicação. Existe alguma coisa sendo calculada enquanto Virgínia observa, e Bruna permite que essa impressão cresça sem precisar explicar a personagem ao espectador.
A mansão também guarda Goreti, funcionária de Virgínia, uma presença cercada de mistérios que aumenta a sensação de que aquela experiência esconde muito mais do que apresenta às participantes. A devoção desta personagem é destina, antes de mais nada, para a patroa.
Quando os acontecimentos começam a escapar do controle, a fé passa a servir como justificativa para atitudes cada vez mais perigosas e a tensão cresce junto com a dúvida sobre onde aquela jornada pretende chegar. O desfecho esclarece parte desse caminho, mas deixa impressão muito mais inquietante: aquilo que Virtuosas apresenta permanece longe de terminar quando a tela escurece e por isso o corte final acontece como acontece.
O filme incomoda porque basta sair do cinema e olhar ao redor para perceber o quanto dessa história já está acontecendo.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
