Foto: Adalberto de Melo Pygmeu
Encontrar quem está mentindo exige atenção aos detalhes, mas também disposição para admitir que uma suspeita pode estar completamente errada. Depois de uma temporada procurando contradições entre os participantes de Infiltrado na Cozinha, Luana Zucoloto voltou ao programa menos disposta a confiar nas primeiras impressões e mais atenta às armadilhas criadas pelas próprias certezas.
Na segunda temporada, que estreou no GNT e no Globoplay Premium, Luana retorna ao lado de Fabão como jurada. Enquanto avaliam os pratos, os dois precisam descobrir quem entre os competidores está fingindo ser profissional. A experiência anterior ajudou a aprimorar a investigação, mas também ensinou que nervosismo, segurança e espontaneidade podem dizer muito menos do que parecem.
“Das minhas próprias certezas, com certeza. Acho que essa foi a maior lição da primeira temporada”, conta Luana ao Pittaplay. “A gente tem umas ideias muito prontas sobre mentira. ‘Está nervoso, está escondendo alguma coisa.’ ‘Respondeu rápido demais, já tinha ensaiado.’ Só que não funciona assim.”
Quando a humorista encontra a roteirista
A profissão de Luana oferece ferramentas importantes para a investigação. Como humorista, ela está acostumada a observar comportamentos e perceber uma frase estranha, uma reação inesperada ou algum detalhe que poderia passar despercebido. A mesma habilidade, porém, pode conduzi-la para uma história que existe apenas em sua cabeça: “Também sou roteirista, então me dá dois elementos e eu já criei começo, meio e fim”, brinca.
É nesse encontro entre observação e imaginação que surgem algumas das teorias mais elaboradas da jurada. Um participante nervoso pode rapidamente ganhar uma narrativa completa capaz de explicar por que estaria escondendo alguma coisa. Luana reconhece que seu olhar de humorista encontra pistas, enquanto seu lado roteirista também cria algumas que nunca existiram.
Uma boa teoria também pode enganar
O desafio aumenta quando Luana encontra uma explicação que parece funcionar. Depois de escolher um suspeito, praticamente qualquer comportamento pode alimentar a mesma conclusão: “Se a pessoa fica nervosa: ‘Tá vendo? É ela.’ Se fica tranquila: ‘Olha como ela está preparada, é ela.’ Se cozinha mal: ‘É infiltrada.’ Se cozinha bem: ‘Ela está tentando enganar a gente!’”, conta.
A situação virou um exercício de autovigilância. Durante a investigação, Luana passou a se perguntar o que precisaria acontecer para que acreditasse na inocência daquele participante. A mudança parece pequena, mas interfere diretamente na maneira como ela procura respostas: “Porque senão você para de investigar e começa só a procurar provas de que estava certa.”
A experiência da primeira temporada também desmontou associação comum entre mentira e nervosismo. Luana percebeu que alguém pode demonstrar insegurança por estar dizendo a verdade sem conseguir convencer os outros, enquanto outra pessoa consegue mentir com absoluta tranquilidade. Por isso, entrou nos novos episódios tentando adiar suas conclusões. “Tentei, tá? Não estou dizendo que consegui”, diverte-se.
A sala de interrogação muda a investigação

Entre as novidades da segunda temporada está uma sala de interrogação, que permite aos jurados pressionar os participantes e aprofundar suas suspeitas. Luana encontrou ali uma estratégia baseada menos na reação imediata e mais nas possíveis contradições de cada história.
Ela prefere começar com perguntas simples e retornar posteriormente ao mesmo assunto por outro caminho. Se a narrativa foi inventada, algum detalhe pode deixar de se encaixar. Também evita revelar aquilo que está pensando, já que entregar uma suspeita poderia permitir ao participante reorganizar sua versão.
A parceria com Fabão completa esse processo. Luana admite que gosta de defender suas teorias, principalmente quando acredita ter encontrado algo que o colega não percebeu, mas conta que passou a escutá-lo mais nesta temporada. Às vezes, um detalhe levantado por ele desmonta tudo o que ela havia construído: “Existem momentos em que penso: ‘Fabão, você está completamente maluco’ e cinco minutos depois descubro que a maluca era eu.”
O melhor infiltrado é aquele que parece comum
Depois de tantas teorias, Luana já sabe qual perfil consegue tornar sua investigação ainda mais difícil. A perfeição desperta suspeitas. Alguém que domina todas as técnicas, prepara tudo impecavelmente e possui uma resposta para cada pergunta pode acabar chamando atenção demais.
O verdadeiro desafio aparece diante de quem consegue errar, admitir desconhecimento e acertar sem transformar cada movimento em uma tentativa evidente de convencer os jurados. A naturalidade torna a mentira muito mais difícil de localizar: “O melhor infiltrado, para mim, é aquele que faz você esquecer que está procurando um infiltrado.”
É também por isso que a segunda temporada encontra Luana menos interessada em confiar imediatamente no que acredita ter descoberto. Entre pistas verdadeiras, histórias inventadas e participantes capazes de mentir olhando diretamente para os jurados, ela aprendeu que uma boa investigação também depende da coragem de desmontar a própria teoria e começar tudo outra vez.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
