Foto: Globo/Angélica Goudinho
Completar um mês no ar mantendo a sensação de que ainda existe muita novela para acontecer é um mérito importante para qualquer folhetim. Por Você chega a essa marca com conflitos centrais estabelecidos, personagens secundários começando a ocupar espaços maiores e novas frentes dramáticas sendo abertas sem que as anteriores tenham perdido força. Dino Cantelli e Juliana Peres compreendem regra essencial da dramaturgia longa: novela também se constrói preparando o que ainda não chegou a hora de explodir.
Esse planejamento aparece na maneira como os núcleos foram apresentados. Os autores concentraram inicialmente a atenção em Bela, nos filhos que ela assumiu após a morte da melhor amiga, no hospital, na relação do passado e mal resolvido com Gabriel e no processo da mocinha conhecer Lucas, seu novo amor nesta etapa complicada da vida, enquanto personagens ao redor começaram a receber conflitos próprios conforme o público já reconhecia aquele universo. Existe distribuição consciente das funções dramáticas, capaz de impedir que todos os núcleos disputem o clímax ao mesmo tempo.
É aí que Por Você demonstra inteligência como folhetim. Enquanto o núcleo principal sustenta os acontecimentos mais urgentes, os secundários recebem pequenas progressões, informações, relações e problemas que funcionam como preparação. Quando Bela e seus conflitos precisarem respirar, outras histórias estarão maduras o suficiente para assumir a dianteira. A cena aparentemente menor de hoje pode estar preparando o acontecimento de semanas depois. Esse tipo de construção exige confiança no tempo da novela.
Dino e Juliana escrevem pensando na consequência. Uma fala apresenta uma ferida, outra estabelece uma rivalidade, uma reação silenciosa acrescenta uma informação que o diálogo deixou suspensa. O texto trabalha para frente e permite que os personagens acumulem história antes de serem cobrados por ela.
Vanessa encontra no subtexto aquilo que a vilania sozinha não explicaria
A rivalidade entre Bela e Vanessa exemplifica bem essa construção. Vanessa, vivida por Alinne Moraes, já demonstrou até onde consegue ir para preservar o casamento com Gabriel, mas reduzir sua oposição a Bela à disputa por um homem empobreceria aquilo que o próprio texto vem sugerindo.
A inveja oferece chave mais interessante. Vanessa reconhece em Bela qualidades que gostaria de possuir e percebe que outras pessoas também as reconhecem. Bela ocupa espaços pelo trabalho, estabelece relações de afeto e conquista uma confiança que Vanessa deseja para si. Quando Pérola prefere a rival para assumir a presidência do Hospital & Maternidade Luz, a disputa alcança outra dimensão: a própria mãe identifica em Bela a capacidade para ocupar o posto ambicionado pela filha.
Alinne Moraes encontra material fértil nessas brechas. A atriz consegue fazer Vanessa atacar enquanto deixa aparecer o incômodo provocado pelaquilo que Bela representa. O subtexto impede que a personagem funcione somente como agente responsável por criar obstáculos para a protagonista. Sua vilania nasce também da comparação permanente, e o que ela deseja destruir na adversária guarda relação com aquilo que gostaria de reconhecer em si mesma.
Essa complexidade favorece Sheron Menezzes porque a rivalidade ganha dois movimentos diferentes. Bela precisa enfrentar as ações de Vanessa enquanto sua simples existência já funciona como provocação para a antagonista. Uma personagem age para derrotar a outra; a outra incomoda também por aquilo que é.
Um elenco que entende a mesma novela
Há outro acerto importante na condução de André Câmara: o elenco atua dentro da mesma chave. Por Você possui unidade de interpretação e os atores compreendem o ritmo, o grau de emoção e o espaço que cada cena pede, o que evita diferenças bruscas de registro entre os núcleos.
Essa afinação se torna especialmente valiosa às sete. A novela encontra leveza sem transformar todos os personagens em instrumentos de uma comédia rasgada e consegue entrar no drama sem alterar sua identidade sempre que a história exige maior densidade.
O tratamento do luto evidencia esse equilíbrio. A morte que reorganiza a vida de Bela e das crianças poderia existir somente como dispositivo responsável por colocar a protagonista naquela nova configuração familiar. O primeiro mês mostra que suas consequências permanecem presentes. O luto modifica relações, responsabilidades e maneiras diferentes de continuar vivendo, permitindo que a emoção surja do processo enfrentado pelos personagens.
É uma escolha coerente com o que a novela vem propondo: aproximar grandes conflitos de experiências reconhecíveis e permitir que a reflexão aconteça dentro do entretenimento.
O público começou a responder
Esse primeiro mês também apresenta números que ajudam a dimensionar a recepção da novela. Segundo dados divulgados pela Globo, entre 17 de agosto e 17 de setembro, Por Você acumulou mais de 86 milhões de telespectadores, dos quais mais de 19,5 milhões não haviam acompanhado a produção anterior da faixa.
Em São Paulo, a média do período foi de 20 pontos e 33% de participação, enquanto no Rio de Janeiro chegou a 23 pontos e 37%. Nas duas praças, houve crescimento de 5%, equivalente a um ponto, em comparação com a novela anterior. Em Salvador, Por Você registrou 26 pontos e 44% de participação, alcançando o melhor resultado de estreia mensal de uma novela das sete na praça desde Vai na Fé, de 2023. A Globo informa ainda que cada capítulo alcança mais de 23 milhões de pessoas.
Audiência não substitui análise de dramaturgia e tampouco transforma números em certificado automático de qualidade. Neste caso, porém, os dados ajudam a mostrar que parte do público está encontrando motivos para permanecer e que novos espectadores chegaram ao horário durante o primeiro mês.
Dino Cantelli e Juliana Peres fazem sua estreia como autores titulares demonstrando consciência sobre uma matéria-prima fundamental da novela: o tempo. Um folhetim precisa entregar acontecimentos enquanto prepara os próximos, desenvolver protagonistas enquanto planta histórias para os coadjuvantes e oferecer clímax sem consumir rapidamente tudo o que possui.
Depois de um mês, Por Você ainda guarda conflitos em formação porque passou seus primeiros capítulos construindo alicerces. Personagens que pareciam ocupar as bordas começam a avançar, rivalidades ganham novas razões e histórias já estabelecidas continuam produzindo consequências. O maior sinal de fôlego da novela está aí: quanto mais seu universo cresce, mais caminhos aparecem para a história seguir.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
