Rone Wulff e Samuel Montemor fizeram de Pólvora uma novela disposta a desafiar o próprio formato

Rone Wulff e Samuel Montemor falam ao Pittaplay sobre Pólvora, os limites da novela vertical e a relação de dependência entre Enzo e Gabriel.

Foto: Divulgação

Quando começou a escrever Pólvora, Rone Wulff sabia que estava criando uma novela para ser assistida na vertical, mas isso não significava aceitar como definitivas todas as regras que começavam a se formar ao redor do formato. Os capítulos seriam curtos, o celular determinaria o enquadramento e as redes sociais fariam parte da distribuição, enquanto dramaturgia, atuação e desenvolvimento dos personagens precisavam encontrar espaço para respirar.

Foi dessa tentativa que nasceram os 40 capítulos protagonizados por Enzo e Gabriel, vividos por Rone e Samuel Montemor. A relação começa pela atração e avança por ciúme, controle, desejo, manipulação e dependência emocional até tornar difícil determinar onde termina um sentimento e começa a necessidade de permanecer ligado ao outro.

Em entrevista ao Pittaplay, Rone e Samuel olharam para o trabalho depois da exibição completa e encontraram nele questões que ultrapassaram a proposta inicial. O primeiro impacto veio ainda durante as gravações, quando Rone ouviu de um colega que Pólvora tinha alcance maior do que uma produção voltada ao público LGBTQIA+. 

A percepção cresceu com as mensagens recebidas depois da estreia, entre elas relatos de pessoas que reconheceram experiências abusivas e de um espectador que encontrou coragem para falar sobre sua sexualidade com os pais: “Tem temas que vão muito além. Domínio ou pressão sexual, e por aí vai, é uma coisa que acontece com qualquer tipo de relacionamento”, afirma Rone.

Quando três minutos deixaram de determinar a cena

O desenvolvimento de Pólvora aconteceu enquanto a própria novela vertical brasileira ainda procura estabelecer sua linguagem. Para Rone, essa condição abriu espaço para experimentar. A referência estava no melodrama brasileiro e na possibilidade de construir personagens antes de recorrer a grandes reviravoltas.

“Queria desafiar os padrões que já estava assistindo no mercado e escrever uma novela mesmo, no estilo das brasileiras que a gente ama, Avenida Brasil e por aí vai, em que eu tivesse tempo para desenvolver o melodrama dos personagens e que os ganchos viessem de uma maneira natural”, explica. 

Essa escolha ganhou dimensão prática conforme os capítulos avançaram. A duração próxima dos três minutos atendia também à lógica de distribuição do Instagram, mas um episódio que chegou a aproximadamente três minutos e meio apresentou boa retenção. A resposta permitiu que Rone entendesse que quem havia acompanhado a história até ali estava disposto a permanecer mais tempo.

Nos capítulos finais, a edição passou a obedecer principalmente à necessidade de cada cena. O desfecho ultrapassou os sete minutos: “Na hora que peguei para editar os episódios finais, falei: ‘Não, eu não vou cortar. Vou deixar do jeito que está fluindo. Vou deixar o episódio se estender para ele ir criando a força que vai criando’”, conta. 

A mesma decisão aparece nos silêncios. Em vários momentos, Gabriel precisa de segundos para assimilar uma descoberta, observar Enzo ou permanecer diante de algo que já compreendeu, mas ainda não consegue enfrentar. Um colega chegou a sugerir que Rone reduzisse esses intervalos para aproximar a montagem do ritmo esperado de uma produção vertical, mas o criador disse ter sido ‘cabeça dura e manter do jeito que estava’, pois o seu propósito era passar uma mensagem. 

O processo revela escolha que acompanhou Pólvora até o fim: usar as possibilidades do vertical sem permitir que a duração retire do ator o tempo necessário para construir pensamento.

Gabriel sente antes de conseguir agir

Essa liberdade encontra em Samuel um dos principais caminhos para chegar à tela. O ator passa boa parte da história percebendo os sinais de que sua relação com Enzo está se tornando destrutiva, enquanto permanece emocionalmente incapaz de transformar percepção em rompimento.

O conflito precisava aparecer mesmo quando o roteiro não oferecia uma fala para explicá-lo. A câmera próxima do rosto, característica do vertical, tornou gesto, respiração, direção do olhar e postura parte fundamental da composição.

“A relutância pode ir para o corpo. Então é o gesto que vem, mas eu tenho que voltar, é o olhar para onde eu quero direcionar a energia e depois voltar. São essas composições que fogem da fala que eu fui usando como arsenal para construir o Gabriel”, explica Samuel.

A indecisão do personagem também impede que a relação permaneça organizada durante 40 capítulos pela mesma dinâmica. Gabriel sofre manipulações, insiste em permanecer e desperta irritação em quem percebe antes dele a necessidade de romper, mas aos poucos aprende a jogar dentro da lógica que Enzo estabeleceu.

A inversão ganha força nos capítulos finais, quando a vítima já conhece suficientemente o funcionamento daquela relação para reagir. O risco passa a ser outro: sair do lugar de quem sofre sem reproduzir as ferramentas de quem o feriu.

“Não é uma história de amor, é quase um terror”

A reação do público mostrou a Rone como essa fronteira poderia ser difícil de identificar. Enquanto a novela avançava na exposição do comportamento de Enzo, um espectador passou a comentar nos episódios que gostaria de viver um relacionamento semelhante.

“Não é uma história de amor, é quase uma história de terror”, diz Rone. “É para a gente ver como isso é comum, como é comum que as pessoas confundam dependência emocional com amor. Acho que essa é a grande mensagem que Pólvora quer passar.” 

Enzo precisava carregar ciúme, insegurança e necessidade de controle sem passar o tempo inteiro explicando essas características. Como ator, Rone procurou experiências próprias que pudessem funcionar como analogias para sentimentos que reconhecia no personagem, mesmo quando suas atitudes estavam distantes das dele.

A principal chave encontrada foi a responsabilidade. Enzo constrói para si uma imagem de segurança, alimenta a certeza de que é desejado e encontra maneiras de reorganizar os próprios erros para não precisar assumir as consequências deles. Rone compara o mecanismo a alguém que pisa no pé de outra pessoa e, em vez de pedir desculpas, culpa quem colocou o pé em seu caminho.

“Ele sabe que está errado, só que é uma pessoa que não vai assumir esse erro. Tentei fazer essa analogia com momentos da minha vida em que me senti um pouco assim, de fugir das minhas responsabilidades.” 

Interpretar um personagem que havia escrito também fez Rone encontrar características que não enxergava da mesma maneira no roteiro. A autoconfiança excessiva de Enzo surgiu como uma delas. Retirados o controle e a recusa em assumir os próprios atos, havia naquele homem uma segurança que o ator percebeu que poderia aprender a desenvolver em outra medida: “Fiz análise para parar de me responsabilizar tanto e o Enzo precisava fazer análise para começar a se responsabilizar. Acho que a gente se balanceou no processo.” 

A psicanálise ofereceu ainda outra imagem para pensar o personagem. Rone passou a imaginá-lo como alguém que jamais aceitaria deitar no divã porque isso exigiria implicação sobre aquilo que vive e provoca: “Ele vai traçar um labirinto mental para não se culpar. É isso que ele faz.” 

Quando Gabriel encontra o ódio, o vínculo permanece

Rone explica que o desfecho foi construído para permitir caminhos diferentes caso Pólvora prossiga. Entre eles está investigar o que acontece quando Gabriel procura no ódio uma forma de se libertar.

“O ódio é uma forma tão poderosa de vínculo quanto o amor. Gabriel está tentando sair desta relação de alguma maneira, só que o jeito que ele acha que tem que sair é o ódio. E aí a gente pode continuar a ver isso futuramente, esse lado do que acontece quando você escolhe o ódio como maneira de tentar se desvincular de um relacionamento.” 

A ideia muda a leitura de possível vingança. Se Gabriel passa a organizar suas escolhas pela necessidade de atingir Enzo, o relacionamento continua determinando seus movimentos mesmo depois que o amor assume outra forma. O final preserva essa contradição porque a experiência vivida durante 40 capítulos dificilmente desapareceria no instante em que alguém decide ir embora.

Para Samuel, atravessar essa história também modificou a maneira de observar os próprios sentimentos. O ator associa o processo de construção de Gabriel ao exercício de examinar experiências que, na rotina, muitas vezes são apenas internalizadas.

“A gente não tem o costume de olhar para nossa vida como se fosse um roteiro, entender quais são as minúcias ali, o porquê de cada coisa. A gente vai nessa rapidez do dia a dia e acaba internalizando coisas que depois vão explodir e a gente não vai entender o porquê.” 

Entre o final feliz e a tragédia, a procura por um final humano

A condição de Enzo e Gabriel como dois homens também atravessou a maneira como Rone pensou o encerramento. Ao observar a trajetória da representação LGBTQIA+ na ficção, ele identifica períodos em que personagens eram frequentemente destinados à tragédia e uma resposta posterior que passou a reivindicar finais felizes.

Pólvora procura outro caminho porque sua história acompanha uma relação tóxica entre duas pessoas LGBTQIA+ e não pretende transformar a identidade dos personagens em obrigação de recompensa ou condenação: “Esses casais existem, essas pessoas existem, essas relações tóxicas existem. Então acho que a palavra humanidade é o que define bastante o nosso projeto. Um final que eu queria assistir como espectador é um final humano.” 

A intenção é terminar preservando algum desconforto. Rone prefere que a reação do público permaneça acompanhada de pensamento: “Não gostei, mas pensei. Gostei, mas pensei. Acho que é essa a palavra-chave, essa humanidade, essa provocação.”

O ator também precisa de tempo em uma novela de poucos minutos

A liberdade defendida na montagem começou antes da câmera ser ligada. Rone conta que Samuel vinha principalmente do teatro e surpreendeu pela consciência que desenvolveu diante da câmera em seu primeiro trabalho audiovisual de maior imersão. Algumas escolhas presentes nos episódios nasceram das propostas do próprio ator durante as gravações. 

A formação teatral do elenco também influenciou o método adotado. Rone critica a velocidade com que determinadas produções verticais são realizadas, com pouco intervalo entre a entrega do roteiro e a gravação. Em Pólvora, a equipe procurou entregar o material antes, conversar e permitir que os atores pensassem sobre seus personagens. 

Essa preparação ajuda a explicar por que uma novela construída para capítulos tão curtos pôde reservar parte deles a um rosto em silêncio. O tempo economizado pelo formato foi devolvido aos personagens sempre que a história exigiu que alguma emoção permanecesse um pouco mais na tela.

Pólvora termina seus 40 capítulos com Enzo e Gabriel ainda presos por vínculo que mudou de natureza sem desaparecer. A experiência de Rone Wulff e Samuel Montemor também deixa provocação sobre o caminho das novelas verticais: contar uma história no celular pode exigir outra duração, outro enquadramento e outra relação com o público, mas a dramaturgia continua dependendo de personagens que tenham tempo para sentir aquilo que a câmera pretende mostrar.

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