Precisamos Falar transforma uma mesa de jantar no retrato sufocante de um país que precisa se ouvir

Hermila Guedes, Emílio de Mello e Guilherme Cabral vivem Anna, Celso e Rick em Precisamos Falar. No longa, a família é colocada diante das consequências de um crime brutal e precisa encarar os limites entre proteção, responsabilidade e omissão.

Foto: Laura Campanella e Rachel Tanugi

Existe um momento em Precisamos Falar em que permanecer sentado à mesa deixa de ser uma posição física e passa a dizer muito sobre aqueles personagens. Diante de um crime brutal cometido por adolescentes contra uma mulher em situação de rua, duas famílias precisam decidir o que fazer com a verdade. Entregar os próprios filhos à Justiça ou encontrar alguma forma de protegê-los? A pergunta parece conduzir o filme dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, mas o roteiro de Sergio Goldenberg está interessado em algo ainda mais incômodo: entender o que existia naquela família muito antes de o crime acontecer.

Baseado no romance O Jantar, de Herman Koch, o longa brasileiro encontra na realidade do país material suficiente para transformar o dilema familiar em um retrato social. Michel (Thiago Voltolini), Rick (Guilherme Cabral) e Jefferson (Cauê Campos) não surgiram do nada. São jovens formados dentro de ambientes nos quais discursos, preconceitos, omissões e privilégios circulam diariamente. Quando os filhos finalmente colocam em prática aquilo que aprenderam, reproduziram ou decidiram enfrentar, os adultos são obrigados a encarar uma parte de si mesmos e é neste momento que Precisamos Falar encontra sua maior potência dramática.

Sandra e Paulo, vividos por Marjorie Estiano e Alexandre Nero, carregam visão de mundo que encontra respaldo em discursos facilmente reconhecíveis fora da ficção. Sandra é uma mãe voraz na defesa do filho, mas Marjorie compreende que sua força não pode nascer apenas do amor materno. A personagem defende Michel porque acredita naquilo que diz. Existe estrutura de valores sustentando sua disposição para relativizar o que aconteceu, e a atriz incorpora essa mulher com uma convicção perturbadora.

Marjorie, acostumada a personagens de alta densidade dramática, trabalha Sandra sem procurar torná-la agradável. A atriz encontra força sobretudo na certeza da personagem. Sandra acredita que suas razões são legítimas e isso a torna mais incômoda porque existe algo reconhecível naquela mulher. Ela pertence ao presente e suas opiniões encontram equivalentes nas redes sociais, nas conversas familiares e no debate público, e Marjorie consegue fazer com que esse discurso pareça anterior à própria cena. Sandra não começou a pensar daquela maneira quando o filho matou alguém. O crime apenas colocou suas convicções diante de uma consequência extrema.

Alexandre Nero complementa muito bem essa construção. A química entre os dois permite reconhecer imediatamente uma história conjugal anterior ao filme. Paulo e Sandra funcionam como casal porque os atores criam intimidade até quando estão discutindo algo monstruoso. A cumplicidade na forma como ocupam o mesmo espaço e a naturalidade torna ainda mais desconfortável perceber como determinadas ideias podem sobreviver dentro da rotina de uma família sem que aqueles que as reproduzem enxerguem nelas qualquer anormalidade.

Hermila Guedes, Emílio de Mello e Guilherme Cabral vivem Anna, Celso e Rick em Precisamos Falar. No longa, a família é colocada diante das consequências de um crime brutal e precisa encarar os limites entre proteção, responsabilidade e omissão.
Hermila Guedes, Emílio de Mello e Guilherme Cabral vivem Anna, Celso e Rick em Precisamos Falar. No longa, a família é colocada diante das consequências de um crime brutal e precisa encarar os limites entre proteção, responsabilidade e omissão. Foto: Laura Campanella e Rachel Tanugi.

Do outro lado estão Anna e Celso, interpretados por Hermila Guedes e Emílio de Mello, que tentam estabelecer contrapontos às decisões de Sandra e Paulo, mas Precisamos Falar evita transformar essa oposição em absolvição. Também fazem parte daquela estrutura de privilégio e precisam lidar com aquilo que seus próprios filhos fizeram. Hermila e Emílio trabalham personagens mais contidos, frequentemente atropelados pela agressividade das certezas que atravessam a mesa. A diferença entre os casais está menos na existência ou ausência de responsabilidade e mais na maneira como cada um decide reagir quando continuar neutro já não parece possível.

Essa oposição sustenta a extensa sequência do jantar, principal arena dramática do longa. Pedro Waddington e Rebeca Diniz apostam no desconforto da permanência e quanto mais aquela conversa avança, mais difícil se torna permanecer naquele ambiente. Há momentos em que os argumentos começam a circular e o filme poderia confiar mais no que já estabeleceu, evitando reiterar algumas posições. Certos personagens são desenhados com marcas ideológicas tão evidentes que parte da ambiguidade se perde. Ainda assim, existe uma consequência interessante nessa insistência: o jantar sufoca porque o diálogo daquela mesa também sufoca a sociedade brasileira todos os dias.

A tecnologia encorpa ainda mais o filme e deixa de funcionar somente como dispositivo narrativo, participando da circulação da violência. O crime é registrado, revisto, armazenado e compartilhado. Existe uma câmera entre quem pratica a violência e quem posteriormente a assiste, transformando o horror também em conteúdo e é no núcleo jovem que o longa encontra algumas de suas melhores escolhas.

Thiago Voltolini constrói Michel recusando uma explicação confortável para sua crueldade. O caminho mais fácil seria procurar excepcionalidade capaz de afastá-lo do espectador, como se alguém assim precisasse necessariamente carregar uma condição que explicasse tudo. A interpretação segue no sentido oposto. Michel assusta porque pode existir. Sua violência foi alimentada dentro de uma estrutura reconhecível e sua ausência de arrependimento impede qualquer tentativa de redenção fácil. Voltolini compreende muito bem essa lógica e faz do personagem uma presença difícil de suportar sem transformá-lo em uma caricatura de vilão.

Guilherme Cabral encontra em Rick outra camada dessa formação. Seu personagem quer pertencer. Michel ocupa o lugar que ele deseja alcançar e essa relação ajuda a compreender sua participação no crime sem retirar sua responsabilidade. Cabral trabalha bem a instabilidade de um jovem que começa a sentir o peso do que fez, mas permanece emocionalmente ligado à pessoa que o levou até ali. A hesitação passa a ser parte de sua dramaturgia até que a narrativa finalmente exige uma escolha.

Marjorie Estiano e Cauê Campos vivem Sandra e Jefferson em Precisamos Falar, personagens atravessados por diferentes visões sobre família, responsabilidade e as consequências da violência.
Marjorie Estiano e Cauê Campos vivem Sandra e Jefferson em Precisamos Falar, personagens atravessados por diferentes visões sobre família, responsabilidade e as consequências da violência. Foto: Rachel Tanugi.

Cauê Campos recebe um arco especialmente interessante porque Jefferson carrega dentro da própria família as consequências do preconceito que o filme discute. O racismo que sofreu de Michel foi relativizado durante anos, e sua decisão diante do crime nasce também desse acúmulo. Quando Jefferson resolve romper com aquela dinâmica, sua atitude amplia a pergunta central do longa: até quando permanecer ao lado de alguém deixa de significar vínculo e passa a significar conivência? Campos trabalha esse cansaço com boa contenção e transforma o personagem em contraponto importante aos outros jovens.

Julia Svacinna completa um núcleo que consegue jogar de igual para igual com atores muito mais experientes. Essa talvez seja uma das virtudes mais importantes da direção de elenco: os adolescentes não aparecem apenas como peças necessárias para colocar os adultos em conflito. Eles têm presença própria e fazem com que a discussão sobre responsabilidade atravesse gerações.

Essa construção permite que Precisamos Falar escape parcialmente da pergunta mais simples sobre até onde pais seriam capazes de ir para proteger os filhos. O filme parece mais interessado em outra: qual parcela desses filhos também foi construída dentro de casa? Explicar essa formação não significa absolvê-los, pelo contrário, a responsabilidade individual permanece, mas passa a conviver com a responsabilidade de uma sociedade que normaliza pequenos atos de violência até se espantar quando eles assumem proporções irreversíveis.

Produzido pela Conspiração, em coprodução com a Globo Filmes, e distribuído pela Sony Pictures e pela própria Conspiração, Precisamos Falar reúne uma estrutura importante do audiovisual brasileiro para colocar em circulação uma história que encontra no país um terreno particularmente fértil. Andrucha Waddington e Leonardo M Barros assinam a produção, enquanto Renata Brandão, Mariana Vianna, Tania Pacheco e Caldecot Chubb respondem pela produção executiva. A fotografia de Lula Cerri e a montagem de Sergio Mekler ajudam Pedro Waddington e Rebeca Diniz a transformar ambientes de aparente conforto em espaços progressivamente hostis, enquanto a música original de Antonio Pinto e o desenho de som de Alessandro Laroca e Eduardo Virmond Lima colaboram para manter a inquietação mesmo quando ninguém levanta a voz.

O título ganha força porque o filme termina e a conversa precisa continuar. Precisamos Falar é sufocante porque reconhecemos aquela discussão, não em torno de um crime daquela dimensão, mas nos discursos que o antecedem, nas violências relativizadas, nas piadas toleradas, no preconceito tratado como opinião, na omissão transformada em neutralidade e na certeza de que determinadas consequências sempre poderão ser evitadas por quem possui dinheiro, influência ou sobrenome.

O crime coloca duas famílias ao redor de uma mesa. O que Precisamos Falar faz de mais perturbador é mostrar que boa parte da conversa já estava acontecendo muito antes de elas se sentarem ali e continua acontecendo depois que as luzes da sala de cinema se acendem. Por isso, precisamos falar. Sobre o filme e, principalmente, sobre tudo aquilo que reconhecemos nele.

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