Fotos: Reprodução/Globoplay
Durante décadas, a presença de personagens LGBTQIA+ nas novelas brasileiras precisou disputar até aquilo que casais heterossexuais recebiam como parte natural da dramaturgia. Um beijo poderia ser adiado, vetado ou reservado ao último capítulo. Relacionamentos eram interrompidos, personagens permaneciam na função de coadjuvantes e muitas histórias encontravam no humor o espaço permitido para existir. É por carregar esse passado que uma garrafa jogada no chão por ciúme ganha outra dimensão em Quem Ama Cuida.
Fernando convida Mau Mau para uma balada porque está interessado nele. Mau Mau aceita, mas agora vive outra situação: está apaixonado por Felipe e decide convidá-lo também. Fernando não gosta quando descobre e gosta menos ainda quando Felipe aparece. Mau Mau e Felipe seguem na frente, Fernando fica para trás e a encenação permite que o público acompanhe aquilo que os outros dois não veem. O incômodo cresce no rosto até chegar à garrafa que ele segura e atira no chão.
A cena poderia pertencer a qualquer triângulo amoroso de novela. Esse é precisamente seu valor. Pela primeira vez nessa história, Fernando ocupa claramente a posição daquele que sente ciúme porque deseja outro homem e percebe um possível rival também masculino. A dramaturgia oferece aos personagens LGBTQIA+ um recurso elementar do folhetim: dois pretendentes interessados pela mesma pessoa, mesmo que Felipe ainda não tenha demonstrado isso claramente.
A sequência ainda avança quando os Mau Mau descobre estar em uma balada gay. Mau Mau pede desculpas a Felipe e estranha Fernando ter escolhido aquele lugar porque acreditava que ele fosse hétero. Fernando então esclarece que também fica com homens. Na festa anterior, havia beijado somente mulheres porque estava em um evento ligado à empresa e preferiu não se expor.
A bissexualidade entra no diálogo de maneira direta e ajuda a reorganizar a percepção sobre Fernando sem transformar sua sexualidade em revelação espetacular. Felipe reage de outra forma e reafirma que é hétero. Sua insistência já faz parte da construção de um personagem que começa a encontrar contradições entre aquilo que afirma sobre si e o que seu corpo, seus pensamentos e suas reações demonstram.
Felipe não parece desconfortável com a existência daquela balada ou com as pessoas ao redor. O incômodo está nele. Estar naquele espaço o aproxima de uma possibilidade que ainda provoca inquietação, porque reconhecer alguma identificação também significaria começar a questionar a certeza com que organizou a própria identidade até ali. Pietro Antonelli trabalha essa tensão sem antecipar uma resposta que Felipe ainda não possui.
O roteiro de Walcyr Carrasco e Claudia Souto acerta ao distribuir essa descoberta por pequenas situações. Mais tarde, Felipe vê Mau Mau e Fernando juntos e sente o incômodo que havia negado. Disfarça e vai embora sem se despedir. Mau Mau tenta alcançá-lo, mas não consegue. Fernando, depois de admitir que havia convidado Mau Mau porque queria ficar com ele, segue a noite e encontra outro rapaz.
Quando Felipe chega em casa, a conversa com Carol prolonga o conflito sem precisar resolvê-lo. Ele conta que descobriu que a balada era gay, fala sobre o clima entre Mauricio e Fernando e ouve da irmã que estava com ciúme. Nega e sai rindo, sem graça. A reação acrescenta mais uma peça ao que a novela vem construindo: Felipe ainda consegue negar com palavras aquilo que suas atitudes começam a denunciar.
Mau Mau termina a noite igualmente frustrado. Sozinho, recupera mentalmente a dança com Felipe e a pergunta de Fernando sobre ele ser irmão de Adriana. Existe agora um conflito que ultrapassa escolher entre dois homens. Mau Mau gosta de Felipe, percebe o interesse de Fernando e sabe que uma verdade ainda escondida pode afastar aquele por quem está apaixonado. “Você ficou sem os dois”, conclui para si.
A direção artística de Amora Mautner compreende a importância de tratar tudo isso como dramaturgia, e as luzes vermelhas que dominam a balada ajudam a construir visualmente um espaço em que desejos até então contidos passam a circular com maior liberdade. O ambiente reúne três personagens em momentos diferentes de compreensão da própria sexualidade: Mau Mau já percorreu parte desse processo, Fernando verbaliza sua bissexualidade e Felipe ainda tenta entender o que está acontecendo consigo.
É por isso que comemorar uma cena de ciúme LGBTQIA+ em 2026 ainda faz sentido. O que parece banal dentro de décadas de romances heterossexuais permanece raro quando três homens ocupam essas mesmas funções dramáticas em uma novela das nove. Quem Ama Cuida chegou a esse arco depois de ouvir um público que enxergou em Mau Mau e Felipe uma possibilidade que inicialmente não estava planejada, e a resposta da novela foi ampliar a história em vez de apenas formar um casal.
Fernando não existe somente para separar Mau Mau e Felipe. Sua presença acrescenta outra experiência afetiva, coloca a bissexualidade em cena e transforma o romance em triângulo e aqui vale destacar a belíssima atuação de Pedro Alves que defende Fernando com unhas e dentes e fortalece o que a novela vem construindo. Felipe recebe espaço para descobrir-se sem ter uma identidade antecipadamente definida. Mau Mau pode desejar, frustrar-se, ser desejado por dois homens e terminar uma noite pensando que perdeu ambos. João Victor Gonçalves também defende bem os dilemas de Mau Mau e tem nas mãos um personagem grandioso, que cresce a cada capítulo e junto com a novela.
São situações comuns ao repertório do folhetim e é exatamente por isso que importam. A conquista está em permitir que personagens LGBTQIA+ também tenham direito do ciúme, à dúvida, ao desejo, ao triângulo amoroso e à confusão sentimental que a novela brasileira sempre soube transformar em história e mesmo que isso pareça uma comemoração banal, pequena, é importante e não é banal, nem pequena, para uma pessoa LGBTQIA+, o direito até a uma cena de ciúme precisa ser comemorado porque até isso nos foi tirado ao longo da história.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
