Foto: Arquivo Pessoal
Entender uma pessoa exige ultrapassar aquilo que pode ser identificado, classificado ou diagnosticado sobre ela. É nesse espaço, formado também por sentimentos, contradições, desejos, medos e percepções particulares, que Josiani Freitas encontra uma das razões para continuar escrevendo ficção psicológica.
Farmacêutica de formação, a autora leva para a literatura o interesse pela mente humana, mas estabelece uma diferença importante entre os dois campos. Se o conhecimento adquirido na saúde fornece ferramentas para compreender doenças, sintomas e suas relações com diferentes aspectos da vida, a ficção permite que ela concentre o olhar no indivíduo: “A área da saúde ensina a ver a doença, os sintomas, as correlações entre estilo de vida e saúde, mas, justamente por ser abrangente, às vezes perde de vista o indivíduo”, explica em entrevista ao Pittaplay.
É dessa perspectiva que nasce A um passo do surto. O romance acompanha Edgar, personagem com esquizofrenia cuja percepção ocupa um lugar determinante na narrativa. Para Josiani, entretanto, o diagnóstico precisava ser apenas uma das partes que constituem aquele homem: “A literatura traz essa possibilidade de trabalhar com uma característica que a sociedade nomeia como um problema ou uma anormalidade, mas ir além da conscientização sobre a doença e mostrar o que torna aquela pessoa única: seus sentimentos, sua condição social, seu modo de pensar e agir, seus conflitos e até aquilo que ela não consegue nomear”, afirma.
Edgar precisava existir antes do diagnóstico
A preocupação aparece desde a apresentação do protagonista. Josiani conta que o primeiro capítulo coloca o leitor diante da esquizofrenia e, ao mesmo tempo, da maneira como Edgar interpreta a própria condição e se reconhece para além dela.
As reações que recebeu após a publicação indicaram que o personagem provoca sentimentos conflitantes. Para a autora, essa resposta acontece porque o leitor acompanha um homem cuja vida começa a ruir em função da doença, em vez de encontrar somente um personagem definido por um rótulo: “E não é assim que acontece com todo mundo? Doente ou não, há situações que nos afetam, nos moldam, nos modificam, e nem por isso deixamos de ser quem somos”, questiona.
Colocar uma pessoa com esquizofrenia no centro de uma narrativa de tensão também obrigou Josiani a pensar na maneira como a história seria contada. O risco de reforçar estigmas acompanhou o processo de escrita e interferiu diretamente em decisões formais do romance. Nos livros anteriores, a autora preferiu sequer nomear os transtornos abordados. Em A um passo do surto, a escolha foi diferente: o diagnóstico aparece desde a primeira página como uma informação que orienta a leitura.
A estrutura também precisou ser revista: “Um livro inteiro sob a perspectiva de um esquizofrênico poderia tornar a leitura muito confusa, então a escolha de outros pontos de vista partiu dessa preocupação. Em alguns momentos, precisei usar a segunda pessoa narrativa, em vez de recorrer à primeira pessoa, para mostrar a despersonalização do personagem e aproximar o leitor da experiência do Edgar”, explica.
A decisão revela como conteúdo e forma se encontram no trabalho de Josiani. Representar Edgar também significava encontrar recursos narrativos capazes de aproximar o leitor de sua experiência sem transformar a condição do personagem em explicação para tudo aquilo que ele faz. Segundo a escritora, sua escolha pela doença partiu do desejo de “dar voz a personagens mal retratados na literatura” e ampliar a empatia em torno dessas pessoas.
Quando o leitor também precisa duvidar
A percepção de Edgar se torna uma das principais ferramentas de tensão de A um passo do surto. Em determinado momento, ele acredita que Nora está apaixonada por ele. Para Edgar, aquilo pertence à realidade que experimenta. Para quem acompanha a história, surge uma pergunta que o livro prefere sustentar em vez de responder imediatamente.
Josiani queria colocar o leitor dentro dessa incerteza: “A dúvida entre o que é real e o que é delírio, e o quanto nossas próprias certezas podem ser falhas, é o motor de tensão da narrativa. E, mais do que mostrar ao leitor ‘isso é alucinação, isso é de verdade’, eu queria que ele estivesse dentro daquela percepção e também tivesse que lidar com a mesma dúvida”, conta.
O recurso amplia a discussão proposta pelo romance porque a incerteza deixa de pertencer exclusivamente a Edgar. Josiani parte da experiência específica do personagem para observar algo reconhecível nas relações humanas: pessoas tomam decisões e interpretam situações a partir daquilo que sentem e acreditam.
Um segredo coloca Edgar e Liz diante de outro conflito

A esquizofrenia também interfere na relação entre Edgar e Liz por meio de uma escolha do protagonista: ele esconde dela uma parte fundamental de sua vida. O conflito desloca a discussão para outra questão. A intimidade pertence a quem vive determinada condição, mas um relacionamento também estabelece responsabilidades quando aquilo que permanece escondido pode atingir diretamente a outra pessoa.
Josiani prefere preservar parte dessa resposta para quem lê: “Esse é o grande dilema do livro: contar ou não contar? Eis a questão. Edgar tinha motivos para esconder a doença? Sim, tinha. Ele deveria ter feito isso? Não. É uma atitude perdoável? Fica a critério do leitor.”
Essa liberdade oferecida ao público acompanha a própria proposta do romance. Josiani constrói situações para que o leitor precise interpretar Edgar, discordar dele, compreendê-lo ou questioná-lo sem receber respostas morais prontas para todas as suas atitudes.
“A farmacêutica existe na fase da pesquisa”
A formação profissional de Josiani fornece conhecimento para abordar temas ligados à saúde, mas ela estabelece um limite entre aquilo que pertence à pesquisa e o momento em que a ficção começa efetivamente a ganhar vida: “A farmacêutica existe na fase da pesquisa, de reunir material e conhecimento para ver como desenvolver a história da forma mais verossímil possível. Mas, a partir do momento em que estou escrevendo a história, o personagem acaba dominando a narrativa”, explica.
Esse domínio pode alterar até caminhos previamente imaginados. A autora conta que frequentemente começa uma narrativa acreditando que seguirá determinada direção e percebe, durante o processo, que os personagens a conduzem para outras possibilidades.
A relação com a escrita também mudou conforme os livros começaram a chegar aos leitores. Josiani escreve desde criança, mas durante muito tempo a timidez bloqueou a possibilidade de se assumir como escritora. A vergonha de publicar desapareceu. Em seu lugar surgiu outra pressão: corresponder às expectativas de quem passou a acompanhar seu trabalho.
Como não escreve séries, cada novo livro também representa uma mudança de personagens e temas. A pergunta passa a ser se o leitor interessado em uma obra continuará disposto a acompanhá-la quando ela decidir explorar outro caminho.
A mente humana continua levando Josiani de volta à literatura
Mesmo quando as histórias mudam, existe um território ao qual Josiani retorna: a saúde mental e a investigação psicológica de seus personagens: “Gosto de entender a mente humana. Deveria ter sido psicóloga”, brinca.
É nesse interesse que a autora encontra uma definição bastante precisa para sua relação com a ficção. Para ela, escrever permite experimentar a alteridade, entrar na perspectiva de alguém que pensa de maneira diferente e tentar compreender as escolhas dessa pessoa sem exigir que ela enxergue o mundo como quem a criou: “Poder entrar na cabeça de alguém que pensa de uma maneira completamente diferente da minha, tentar compreender suas escolhas e enxergar o mundo a partir da perspectiva daquela pessoa é algo que me interessa muito”, afirma.
É também por isso que Josiani não considera estar repetindo uma mesma história ao retornar à saúde mental. Cada personagem desloca seu interesse para uma pergunta diferente e permite observar experiências que frequentemente recebem pouco espaço ou são mal compreendidas dentro e fora da literatura.
Em A um passo do surto, entrar na mente de Edgar significa aceitar que compreender alguém não equivale a encontrar respostas fáceis para tudo o que essa pessoa sente ou faz. Josiani Freitas prefere permanecer diante das perguntas. É desse movimento que nasce sua ficção: olhar para alguém que percebe o mundo de outra forma e, durante algumas páginas, tentar enxergá-lo pelos olhos dele.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
