Foto: Maria Magalhães
Valentina Daniel cresceu ouvindo histórias sobre Se Eu Fosse Você. Os dois primeiros filmes, dirigidos por seu avô Daniel Filho, fazem parte de suas lembranças familiares, e Tony Ramos e Glória Pires sempre estiveram entre suas referências artísticas. Agora, aos 23 anos, a atriz integra o elenco de Se Eu Fosse Você 3, continuação que chegou aos cinemas brasileiros na última semana. Em entrevista ao podcast Crítica em Foco, do Pittaplay, ela contou que a oportunidade de participar da franquia provocou uma reação difícil de conter: “Foi uma honra ter passado no teste do terceiro. Quase desmaiei quando recebi o e-mail”, revelou.
Na produção, Valentina interpreta Maria Clara, jovem de aproximadamente 17 ou 18 anos que acompanha com entusiasmo a troca de corpos vivida pelos personagens centrais. A atriz descreve a experiência como uma oportunidade de entrar em um universo cinematográfico que acompanhou durante toda a infância.
Entretanto, a importância desse trabalho ultrapassou a ligação afetiva com a franquia. Durante a conversa, Valentina revelou que a construção de Maria Clara também a ajudou a enfrentar inseguranças relacionadas à própria aparência.
Uma personagem que ajudou a atriz a se reencontrar
Valentina tinha 21 anos quando começou a gravar o filme e completou 22 no último dia de filmagem. Naquele período, enfrentava dificuldades com sua autoimagem, especialmente depois de problemas com o cabelo, que havia sido descolorido.
A atriz contou que também sentia o peso das cobranças estéticas impostas às mulheres. Interpretar uma adolescente espontânea, alegre e despreocupada acabou oferecendo uma perspectiva diferente sobre o próprio corpo: “Entrar nesse corpo de uma adolescente meio que curou um pouco isso para mim”, afirmou.
Maria Clara encara a troca de corpos dos pais com curiosidade e disposição para ajudar. Essa leveza foi fundamental para que Valentina encontrasse prazer na interpretação, em contraste com o momento pessoal que atravessava.
A experiência também marcou uma mudança na maneira como chegou ao set. Depois de enfrentar um nervosismo intenso durante as gravações de Cinco Júlias, seu primeiro grande trabalho como protagonista no cinema, ela percebeu que estava mais tranquila e preparada para aproveitar o processo criativo.
O humor exige precisão e respeito ao público

A conversa também passou pelas transformações da comédia brasileira desde o lançamento dos primeiros filmes da franquia. Para Valentina, parte da força de Se Eu Fosse Você está na maneira como Tony Ramos e Glória Pires construíram a troca de corpos, evitando interpretações baseadas exclusivamente em estereótipos.
Ela acredita que essa preocupação permanece na continuação, agora acompanhada de uma consciência maior sobre os limites do humor: “A gente está tendo mais consciência do que é engraçado, do que não é, sobre a gente rir junto”, comentou.
A atriz também destacou a importância do ritmo para o funcionamento das cenas cômicas. Estudante de atuação na CAL, ela considera que uma pausa pode ser tão importante quanto a própria fala: “Se você está com um texto cômico incrível, se você corre com ele para tentar ser engraçado, você perde a sua graça.”
Essa atenção às palavras aparece em outros momentos da entrevista. Valentina contou que gosta de escrever e que deseja ampliar sua atuação artística para além da interpretação.
Entre a herança de Betty Faria e Daniel Filho e a busca por uma voz própria
Neta de Betty Faria e Daniel Filho, Valentina convive desde a infância com duas referências fundamentais da dramaturgia brasileira. Durante a entrevista, deixou claro que falar sobre os avós está longe de representar um incômodo.
Ao contrário, considera importante preservar e reconhecer a contribuição artística de ambos. A atriz também contou sobre a experiência de trabalhar como assistente de Daniel Filho na adaptação cinematográfica de Toda Nudez Será Castigada, de Nelson Rodrigues. A oportunidade permitiu acompanhar de perto decisões de direção, marcação de cena e construção dramatúrgica: “Foi algo que eu nunca vou esquecer, que eu sou grata eternamente”, declarou.
Apesar da admiração, Valentina procura construir uma identidade artística que corresponda à própria geração e às suas experiências. Ela compara os ensinamentos recebidos a uma receita que pode servir de orientação, mas cuja execução precisa carregar as particularidades de quem a prepara.
A defesa da autenticidade também aparece em sua relação com a aparência. A atriz questiona a pressão por intervenções estéticas e valoriza características que considera parte de sua identidade: “Só existe uma de mim no mundo e eu vou querer parecer com todas as outras? Jamais.”
Uma noveleira apaixonada pelo próprio ofício
Valentina também revelou ao Pittaplay sua paixão pelas novelas. A atriz acompanha Quem Ama Cuida, novela das 9 da Globo escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto e Por Você, trama das 7, de Dino Cantelli e Juliana Peres e considera a televisão brasileira uma manifestação cultural capaz de alcançar diferentes gerações.
Durante o podcast, chegou a apresentar uma teoria sobre o assassinato de Arthur Brandão em Quem Ama Cuida, surpreendendo os apresentadores com sua interpretação dos acontecimentos da trama. A conversa ainda percorreu suas referências cinematográficas, o desejo de interpretar uma vilã e a vontade de experimentar diferentes gêneros, do teatro experimental às novelas.
Valentina também falou sobre o sonho de escrever roteiros e construir uma carreira duradoura, conciliando a atuação com outras possibilidades criativas: “Eu amo ser atriz, mas também seria outra coisa. Gosto muito de escrever”, contou.
Ao longo da entrevista, a atriz demonstra entusiasmo ao falar de cada etapa de sua formação e reconhece que a experiência prática tem sido fundamental para seu amadurecimento profissional.
Entre lembranças familiares, descobertas pessoais e planos para o futuro, a participação no Pittaplay apresenta uma artista interessada em aprender com as referências que a cercam sem abrir mão de construir seu próprio caminho.
Ouça a entrevista completa no podcast do Pittaplay
Esses são alguns dos assuntos da conversa com Valentina Daniel no Crítica em Foco. No episódio completo que já está no Spotify, a atriz também compartilha histórias dos bastidores de Se Eu Fosse Você 3, conta como foi trabalhar com Tony Ramos e Glória Pires, relembra experiências ao lado de Daniel Filho e revela quais personagens e artistas despertam sua vontade de continuar atuando.
Para acompanhar todas essas histórias e ouvir a entrevista na íntegra, acesse o podcast Crítica em Foco, do Pittaplay, no Spotify.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
