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Uma ideia sobre viagens no tempo, desenvolvida há mais de uma década, atravessou anos de trabalho até chegar às telas dos cinemas brasileiros. Em Consequências Paralelas, a ficção científica ganha forma por meio de uma narrativa que desafia a percepção do espectador, enquanto seus realizadores enfrentaram uma jornada igualmente complexa para transformar o roteiro em filme.
Em entrevista ao podcast Crítica em Foco, do Pittaplay, os diretores e roteiristas CD Vallada e Gabriel França conversaram com os atores Felipe Hintze e João Fenerich sobre os bastidores da produção, as decisões que moldaram a narrativa e a amizade que sustentou o projeto. Durante quase uma hora, o quarteto revelou curiosidades das gravações, discutiu o trabalho de interpretação e relembrou os desafios para levar um filme independente ao circuito comercial.
Segundo Gabriel França, Consequências Paralelas passou por 25 festivais e conquistou 21 premiações internacionais, incluindo reconhecimentos por filme, direção, roteiro, som e atuação. Na época da entrevista, a equipe já se preparava para participar de mais um festival.
Para João Fenerich, que também atuou na produção do longa, ver o filme chegar às salas comerciais representa a realização de um sonho construído coletivamente.
“Eu acho que a gente não tinha percepção do que era fazer cinema e a gente mostrar que tem possibilidade de estar no mercado, de estar no circuito comercial”, refletiu.
Uma viagem no tempo que começou há 12 anos
A origem de Consequências Paralelas está em uma inquietação antiga de CD Vallada. O diretor contou que começou a desenvolver, cerca de 12 anos atrás, uma mecânica de viagem no tempo que considerasse plausível dentro das regras estabelecidas pela própria ficção.
Seu objetivo era construir uma narrativa sem contradições temporais aparentes, na qual o público pudesse questionar até mesmo a natureza das experiências vividas pelos personagens.
A complexidade da história exigiu um planejamento rigoroso. Gabriel França revelou que todo o conteúdo narrativo filmado foi aproveitado na montagem final. Algumas soluções visuais passaram por alterações, mas nenhuma cena precisou ser eliminada por mudanças na história.
O roteiro também recebeu contribuições dos atores durante as gravações, especialmente intervenções de Felipe Hintze que foram incorporadas ao resultado.
A decisão que mudou a maneira de filmar
Um dos bastidores mais reveladores da entrevista envolve a ordem das gravações. Felipe Hintze, intérprete de Max, explicou que a produção inicialmente seguiria um planejamento que não respeitava a cronologia da história.
O ator, entretanto, percebeu que a evolução física e emocional do protagonista seria mais convincente se as cenas fossem registradas na sequência dos acontecimentos. A cada nova viagem no tempo, Max acumula cansaço, tensão e desgaste. Para Felipe, acompanhar essa progressão durante as filmagens permitiria construir uma experiência mais próxima daquela vivida pelo público: “Cada vez que o Max volta, ele está mais cansado, mais exausto, mais suado”, explicou.
A proposta foi apresentada aos diretores, que aceitaram reorganizar o trabalho. João Fenerich destacou que a preparação também foi essencial para compreender as diferentes camadas da narrativa. Mesmo conhecendo o roteiro, os atores precisavam discutir constantemente em qual momento da história seus personagens estavam e quais informações já possuíam.
O resultado é um jogo de perspectivas em que as certezas dos personagens são continuamente colocadas à prova.
A amizade que atravessou as câmeras
A relação entre os integrantes da equipe também ocupa um espaço importante na conversa. Felipe Hintze e João Fenerich são amigos há aproximadamente dez anos, enquanto Gabriel França e CD Vallada compartilham uma amizade de cerca de 35 anos.
Essa proximidade, segundo os entrevistados, contribuiu para estabelecer a confiança necessária durante um processo de filmagem emocionalmente intenso. Felipe ressaltou a importância da generosidade entre os atores, especialmente diante das diferentes técnicas utilizadas por cada um: “A gente fala muito sobre escuta na interpretação, mas não fala muito sobre generosidade”, afirmou.
João também destacou a contribuição de Carol Macedo, intérprete de Bruna, cuja personagem assume uma importância crescente conforme a narrativa revela novas informações. O ator descreveu o longa como um trabalho artesanal, construído pela colaboração entre elenco e equipe técnica.
Camila Morgado ganhou uma participação maior durante a produção
Entre as curiosidades reveladas no podcast está uma decisão tomada durante a gravação da participação especial de Camila Morgado.
Inicialmente, a atriz faria a narração do prólogo e uma intervenção em áudio ao final dos créditos. Durante o trabalho em estúdio, Gabriel França sugeriu que ela também gravasse a carta de Bruna.
A ideia surgiu naquele momento e acabou incorporada ao filme. Para CD Vallada, a participação de Camila nessa sequência se tornou fundamental para a construção da cena, demonstrando como algumas escolhas decisivas surgiram mesmo depois de um planejamento detalhado.
A montagem também exigiu discussões entre os dois diretores, especialmente na elaboração dos efeitos visuais que representam a fragmentação da realidade. Gabriel contou que, em determinado momento, foi necessário assistir à sequência sem os efeitos para compreender melhor a força do texto e definir como a linguagem visual deveria evoluir.
Uma conquista para o cinema independente brasileiro
Ao longo da entrevista, os convidados também refletiram sobre as dificuldades de produzir e distribuir uma ficção científica de baixo orçamento no Brasil.
CD Vallada reconheceu que, se pudesse alterar alguma coisa na trajetória do projeto, tentaria reduzir o tempo em que o filme permaneceu parado à espera de caminhos para sua finalização.
João Fenerich, por sua vez, destacou a importância de os artistas assumirem a iniciativa de realizar seus próprios projetos, mesmo diante das limitações do mercado.
Para o grupo, a chegada de Consequências Paralelas aos cinemas representa uma conquista construída ao longo de anos de persistência, colaboração e confiança na história que desejavam contar.
Quer conhecer mais bastidores de Consequências Paralelas?
A conversa completa com CD Vallada, Gabriel França, Felipe Hintze e João Fenerich está no podcast Crítica em Foco, do Pittaplay. No episódio, os convidados aprofundam o processo de criação, compartilham experiências das gravações e revelam outras curiosidades sobre a construção da ficção científica brasileira.
Ouça o episódio completo no Spotify e descubra as histórias por trás de Consequências Paralelas.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
