Ingrid Gaigher: amar também é saber ficar quando tudo muda

Ingrid Gaigher revela como construiu Naná no musical Feliz Ano Velho e reflete sobre amizade, deficiência, juventude, literatura e memória histórica. A atriz também celebra seu retorno ao Teatro Frei Caneca após dez anos.

Foto: Caio Galucci

Amar alguém também significa permanecer quando a vida deixa de ser confortável. É a partir dessa compreensão que Ingrid Gaigher constrói Naná, personagem do musical Feliz Ano Velho, em cartaz no Teatro Sabesp Frei Caneca, em São Paulo. Na montagem inspirada na obra de Marcelo Rubens Paiva, a atriz interpreta uma jovem cuja presença se torna fundamental durante a recuperação do protagonista após o acidente que transforma sua vida.

Em entrevista ao Pittaplay, Ingrid conta que encontrou na personagem uma relação marcada pela lealdade e por sentimentos que atravessam os limites entre amizade e romance. Durante a preparação, imaginou que Naná nutrisse uma paixão por Marcelo, embora reconheça que essa reciprocidade não esteja necessariamente presente na relação.

A atriz destaca que, no livro, Naná participa intensamente da rotina de cuidados do amigo, ajudando-o em atividades como escovar os dentes, tomar banho e se alimentar. Essa dedicação foi decisiva para compreender a dimensão afetiva da personagem: “Amar é ficar em momentos em que você não sabe bem lidar com a situação, situações desconfortáveis em que o outro precisa de você e você não sabe como ele precisa, mas só com sua presença já ajuda”, afirma.

Para Ingrid, a experiência de interpretar Naná reforçou uma convicção que já orientava suas próprias amizades: os vínculos mais profundos também se revelam nos momentos difíceis.

Um Marcelo que continua sendo Marcelo

Em ‘Feliz Ano Velho’, atriz reflete sobre amizade, deficiência, memória e o poder da arte de transformar gerações.
Em ‘Feliz Ano Velho’, atriz reflete sobre amizade, deficiência, memória e o poder da arte de transformar gerações. Foto: Caio Galucci

Outro aspecto que atravessa a construção de Naná é a maneira como ela enxerga Marcelo depois do acidente. Ingrid observa que o protagonista não permite que sua nova condição física determine inteiramente sua identidade. Na leitura da atriz, Marcelo reconhece as consequências do acidente, mas preserva características que sempre fizeram parte de sua personalidade, incluindo o humor, a irreverência, a militância, a música e o desejo de se relacionar afetivamente: “Marcelo inspirou as pessoas em volta dele a não terem pena dele”, explica.

Essa percepção também orienta a reflexão de Ingrid sobre a representação de pessoas com deficiência. Para ela, reconhecer as limitações de alguém não significa reduzir sua existência a elas. A atriz defende um olhar que contemple a individualidade, a sexualidade, o humor e as contradições de cada pessoa, sem transformar a deficiência em sua única característica.

A juventude que continua querendo transformar o Brasil

A relação entre passado e presente também ocupa um lugar importante na entrevista. Ao interpretar uma história ambientada em outro momento do país, Ingrid identifica diferenças entre a juventude dos anos 1980 e sua própria geração, mas reconhece nas duas a disposição de transformar a sociedade por meio da cultura e do diálogo.

Segundo a atriz, a geração atual encontrou novas formas de mobilização, especialmente pelas redes sociais, e ajudou a colocar discussões identitárias no centro do debate público. Ela destaca o feminismo, a liberdade dos corpos, os direitos LGBTQIA+ e a diversidade no entretenimento como pautas que avançaram graças à mobilização coletiva.

Ingrid também reconhece que essas conquistas ainda exigem continuidade. Para ela, as mudanças na representação de diferentes grupos nas novelas e em outras produções audiovisuais demonstram a importância desse trabalho, mas não significam que a discussão esteja encerrada.

A literatura como exercício de memória

Ingrid Gaigher, atriz que interpreta Naná no musical Feliz Ano Velho, em cartaz no Teatro Sabesp Frei Caneca, em São Paulo.
Ingrid Gaigher, atriz que interpreta Naná no musical Feliz Ano Velho, em cartaz no Teatro Sabesp Frei Caneca, em São Paulo. Foto: Caio Galucci

A atriz aproveita a temporada de Feliz Ano Velho para incentivar os jovens a conhecerem o livro de Marcelo Rubens Paiva. Sua preocupação ultrapassa a divulgação da obra. Ingrid considera que o excesso de informações e o contato constante com as telas podem comprometer a disposição das novas gerações: “A leitura faz com que a gente exercite o pensamento crítico, que tenhamos opinião sobre o mundo”, defende.

Para ela, revisitar a literatura brasileira também significa enfrentar um problema recorrente: a fragilidade da memória histórica do país. Ingrid chama atenção para a importância de recuperar documentos, livros e relatos sobre a ditadura militar, especialmente diante de discursos que relativizam ou negam a repressão daquele período.

Ao mesmo tempo, acredita que Feliz Ano Velho continua próximo dos leitores mais jovens porque apresenta questões existenciais que atravessam diferentes gerações, como a descoberta da identidade e as dúvidas sobre o futuro.

Dez anos depois, o reencontro com o mesmo palco

A temporada de Feliz Ano Velho também representa um reencontro pessoal para Ingrid Gaigher. Dez anos depois de participar de Rent, a atriz retorna ao Teatro Frei Caneca com uma trajetória marcada por novas experiências e aprendizados.

Ao imaginar uma conversa com a artista que era em 2016, Ingrid afirma que a incentivaria a continuar acreditando nas próprias escolhas: “Falaria para ela que está fazendo tudo certo, que teria ótimas surpresas, que realizaria bastante coisa e para continuar sendo tão corajosa com a profissão”, conta.

A principal transformação, segundo ela, está na maneira de enfrentar os desafios da carreira. Hoje, considera-se mais paciente e menos impulsiva, características que associa à maturidade adquirida ao longo da última década. Para Ingrid, a profissão exige resiliência, sabedoria e tempo. Ao retornar ao mesmo palco, reconhece que a coragem daquela jovem atriz continua presente, agora acompanhada de uma compreensão mais profunda sobre o próprio ofício.

Em Feliz Ano Velho, essa trajetória encontra uma personagem que também ensina sobre o tempo, as mudanças e a permanência. Afinal, como Ingrid reconhece por meio de Naná, existem formas de amor que se revelam justamente quando alguém decide ficar.

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