A novela Vale Tudo voltou a movimentar a teledramaturgia brasileira nesta segunda-feira (18), quando exibiu uma das cenas mais emblemáticas de sua história: Maria de Fátima, interpretada por Bella Campos se jogando da escadaria do Theatro Municipal para provocar um aborto e perder o filho que espera do amante César, papel de Cauã Reymmond. O momento já era aguardado pelos noveleiros, por ser lembrado até hoje na versão original, em que Glória Pires eternizou a vilã.
Diferente de outros momentos do remake que dividiram opiniões, aqui houve um alinhamento perfeito entre texto, direção e atuação. O caminho para a decisão de Fátima foi conduzido com cuidado: Celina (Malu Galli), ao descobrir a traição da vilã com César, manipula Fátima ao afirmar que seu sobrinho Afonso (Humberto Carrão) não pode ter filhos. A mentira serve de estopim para a sequência, levando Fátima ao ato desesperado. O roteiro soube preparar o terreno, sem pressa e sem falhas perceptíveis, valorizando a tensão dramática. Acuada, a vilã briga com o amante que sugere a ela tirar a criança. Ela se nega. Não quer ficar pobre de novo. Em seguida, ela é renegada pela mãe no banheiro do teatro. Ela resolve pedir ajuda a Raquel (Taís Araújo), mas depois de tudo que fez, a mãe não quer papo. Sem saída, ela comete o ato.
Vale destacar que para além desta cena, Malu Galli brilha cada vez mais ao dar força à sua Celina, dominando as sequências recentes, principalmente as de ameaça com precisão. Humberto Carrão esteve correto, embora o problema do Afonso resida mais na concepção do personagem, que continua monótono, do que na atuação em si. Já Bella Campos, alvo de olhares desconfiados desde o anúncio do elenco, entregou uma Maria de Fátima convincente nesta cena. Gostando ou não, a atriz se dedicou, esteve à altura da cena e fez sua entrega à sua maneira.
O resultado final foi eficiente porque não houve descompasso entre atuação, câmera e sonoplastia. A trilha sonora, que em outros capítulos soou exagerada, aqui se somou à tensão sem roubar a cena. A direção valorizou os ângulos da escadaria e a dramaticidade da queda, transformando o momento em espetáculo televisivo.
O impacto não foi apenas artístico: a sequência rendeu 27 pontos no ibope, com picos de 29, mostrando reação do público. Desde março, a trama não ultrapassava os 26 pontos. O acerto da cena pode indicar fôlego renovado para a reta final, que ainda reserva o maior mistério da novela: a morte de Odete Roitman.
Quando uma novela tropeça, a crítica deve apontar. Mas quando acerta, também é preciso reconhecer. A cena de Maria de Fátima se jogando da escadaria foi mais do que um tributo à versão original, conseguiu superá-la em impacto e acabamento. Foi televisão bem feita, uma das melhores entregas do remake até aqui, e que reacende a expectativa para os próximos capítulos, agora que o final se aproxima.




