Depois de viver personagens que estabeleceram conexão imediata com o público, como Lucimar no remake de Vale Tudo e Teca na novelinha vertical Loquinha, Ingrid Gaigher agora atravessa território completamente diferente na carreira. Em Vingança S/A, novo longa dirigido por Fernando Ceylão, a atriz interpreta Bianca, advogada ambiciosa, estrategista e moldada por relações de poder.
Mas Ingrid evita reduzir a personagem ao lugar confortável da “vilã”. Na construção dela, Bianca nasce de lógica social muito mais complexa e assustadoramente reconhecível: “A humanidade dela, onde as pessoas podem se identificar, é que ela é um produto da nossa cultura”, explica a atriz em entrevista à coluna Cena Aberta, do Pittaplay. “Dessa ideia de fazer as pessoas acreditarem no mérito de serem vencedoras. Nessa lógica de que toda situação é um limite para vencer, sabe? Uma chance para ganhar algo rumo ao objetivo dela”.
A atriz enxerga Bianca como reflexo de comportamento contemporâneo alimentado diariamente por discursos de sucesso, prosperidade e performance: “Acho que todo mundo tem um pouco disso. Atualmente a gente vê muito essas frases de efeito que alimentam na gente a ideia de que a gente tem sempre que ser otimista e ambicioso rumo aos nossos objetivos, rumo à nossa felicidade, rumo à nossa prosperidade”, diz. “Ao mesmo tempo, ela cresceu num ambiente muito machista, cheia de homens. Acho que ela é muito vencedora. Muitas mulheres podem se identificar”.
Quando ambição vira linguagem

A composição da personagem também exigiu ruptura dentro do próprio processo da atriz. Ingrid conta que encontrou a espinha dorsal de Bianca justamente no perigo de transformá-la em um estereótipo superficial de mulher poderosa.
“Foi um pouco mais desafiador”, admite. “O Caco Ciocler [preparador de elenco] foi muito importante junto com o Fernando Ceylão, e a troca com o Milhem Cortaz também, porque a gente foi encontrando, dentro dessa composição que poderia ser muito superficial, dessas advogadas e empresárias de sucesso, o que ela pensa em cada situação”.
“Cada fala é uma cartada”
Na preparação, Bianca passou a ser construída quase como uma estrategista emocional em constante estado de disputa: “Sempre tem uma frase de efeito, quase como alguém que frequenta um coaching”, conta Ingrid. “‘Você é vencedora’, ‘você merece toda prosperidade do mundo’. Então é interessante ir para a cena pensando realmente num jogo de tabuleiro, onde cada fala minha é uma cartada, uma jogada”.
Essa lógica atravessa até a estética da personagem: “Isso vai refletir na forma como eu falo, até no figurino, que é um pouco mais caricato também. É cheio de informação. Acho que fala muito sobre ela. Apesar dela ser muito inteligente, eu poderia jogar cafona, mas isso é uma questão de gosto”.
Ao falar sobre ética e ambição dentro da narrativa, Ingrid reforça que Bianca não nasce desconectada de um contexto social: “A nossa cultura pode fomentar muitas vezes um pensamento errado de que você pode cortar caminho e passar por cima do outro para manter vantagem”, analisa. “Dependendo de onde você cresça, da educação que você receba, você pode acreditar que não pode perder tempo, que precisa cortar caminho para atingir seus objetivos”.
Segundo a atriz, Bianca também carrega marcas de sobrevivência: “Ela cresceu num ambiente sem ética. É uma mulher que cresceu no crime. Então acredito que ela sobreviva. Ela é uma sobrevivente também”.
Um jogo de poder dentro e fora de cena

Nos bastidores, a construção ganhou ainda mais força na parceria com Milhem Cortaz, descrito por Ingrid como peça fundamental para o jogo cênico da personagem: “O Milhem é um ator muito instintivo e gosta muito do jogo. E eu acho que, para essa personagem, foi maravilhoso porque ela é calculista”, afirma. “Foi perfeito porque ele me trouxe esse fogo, esse jogo onde eu estou para vencer e ele está para vencer também”.
A atriz também destaca a preparação conduzida por Caco Ciocler: “O Caco tem escuta muito interessante. Ele observa muito o que a gente tem pra trazer, mas também o que o texto tem pra trazer, o que a gente talvez não esteja vendo. Ele tem uma análise do contexto dos personagens muito interessante”.
Sobre a dinâmica dentro da trama, Ingrid adianta que Bianca ocupa posição central de liderança dentro da história: “O que posso adiantar é que ela joga numa dinâmica, mas ela é líder”, revela. “Ela se opõe aos protagonistas nessa ideia de vingança e de empresas que podem trabalhar para vingar outras pessoas. Ela empreende sozinha, ainda que tenha herdado isso do pai”.
Com elenco formado ainda por Hermila Guedes, Bruno Montaleone e Valentina Bandeira, Vingança S/A marca virada evidente na trajetória recente de Ingrid Gaigher, não apenas pela mudança de registro, mas pela complexidade moral da personagem que escolheu habitar.
