Há filmes que tentam ser maiores do que realmente são e Águas Mortais faz exatamente o contrário. Desde os primeiros minutos, sabe qual experiência quer proporcionar e nunca tenta convencer o público de que é outra coisa.
Dirigido por Renny Harlin, cineasta responsável por sucessos como Duro de Matar 2 e Do Fundo do Mar, o longa abraça sem vergonha o cinema de entretenimento dos anos 1990. Não existe preocupação em criar grandes reflexões ou desenvolver dramas psicológicos profundos. O compromisso é outro: colocar personagens em situações extremas e fazer o espectador permanecer tenso até o último minuto.
A primeira metade funciona muito bem justamente por isso. A sequência da queda do avião é construída com direção espetacular, efeitos especiais bem colocados e tensão em nível máximo. A explosão no compartimento de bagagens desencadeia uma reação em cadeia que nunca perde o senso de urgência. O diretor acompanha o desespero dentro da cabine, as tentativas desesperadas da tripulação, as diferentes reações dos passageiros e o medo tomando conta de todos. Os efeitos especiais convencem, a montagem mantém o ritmo e a tensão cresce de forma constante.
Existe ainda um detalhe interessante nessa construção. A cena começa apoiada em acontecimentos que parecem plausíveis para quem assiste. Aos poucos, porém, Harlin amplia essa realidade para um espetáculo cinematográfico que assume a própria ficção sem perder o impacto. É exatamente esse equilíbrio que faz a sequência funcionar.
Quando o avião finalmente cai no mar, o público acredita que o pior passou. É nesse momento que o filme muda completamente de eixo, mantendo o gênero sobrevivência, mas com outro teor, agora o perigo está na água.
A tragédia aérea dá lugar a um thriller de sobrevivência cercado por tubarões. A divisão é inteligente porque o acidente já apresentou quem são aquelas pessoas e quais são suas motivações para continuar vivas. Não há tempo para aprofundar relações, e nem deveria haver. O filme nunca promete um grande drama humano. Promete sobrevivência.
E entrega isso. Os ataques dos tubarões são violentos, algumas cenas impressionam pelo nível gráfico e os sustos aparecem nos momentos certos, sem depender exclusivamente de ruídos altos ou cortes rápidos. O suspense nasce da sensação permanente de vulnerabilidade. Os sobreviventes escaparam de um desastre praticamente impossível e logo descobrem que ainda não estão seguros.
Aaron Eckhart sustenta a narrativa como o piloto Ben. Seu objetivo é simples: voltar para casa e reencontrar o filho doente. Ao redor dele surgem outros pequenos conflitos, incluindo um romance entre jovens passageiros, suficientes para dar humanidade à história sem interromper o ritmo da ação. O protaognista ainda lida com as divergências que surgem entre os passageiros sobreviventes e até no conflito de uma criança sozinha em meio à tragédia após perder os pais.
Águas Mortais talvez não reinvente o cinema de tubarões nem o gênero dos filmes-catástrofe, mas também nunca tenta fazê-lo. Seu mérito está justamente em compreender seus próprios limites. É um filme que respeita o público ao entregar exatamente aquilo que vende desde o trailer: uma grande tragédia aérea seguida por uma luta desesperada pela sobrevivência.
Em tempos em que tantas produções prometem mais do que conseguem cumprir, essa honestidade narrativa já representa uma virtude. Dentro da proposta que assume, Águas Mortais funciona muito bem e faz valer o ingresso.
