FID Rio estreia laboratório de Vivi Tellas e transforma memórias em criação coletiva

Vivi Tellas participa da segunda edição do FID:RIO e ministra, pela primeira vez no Rio de Janeiro, o laboratório #LINK:BIO — Etnografias Domésticas, dedicado à criação artística a partir de memórias, arquivos e experiências reais. Foto: Eloy Rodríguez Tale.

Foto: Eloy Rodríguez Tale

Em momento em que a inteligência artificial amplia a capacidade de produzir textos, imagens e narrativas, a encenadora argentina Vivi Tellas aposta justamente naquilo que considera insubstituível: a presença humana. Pela primeira vez a trabalho no Rio de Janeiro, a criadora do conceito de Biodrama participa da segunda edição do FID:RIO – Festival Internacional de Artes e Cinema de Não Ficção e, em entrevista exclusiva ao PittaPlay, refletiu sobre a força das histórias reais na criação artística.

“O teatro é vivo, é estar presente, e o testemunho traz uma emoção. Esse é o centro das artes vivas, a presença e os detalhes do testemunho”, afirmou a diretora.

Reconhecida internacionalmente por desenvolver o conceito de Biodrama, Tellas conduz, entre os dias 25 e 29 de julho, o laboratório #LINK:BIO — Etnografias Domésticas, reunindo artistas interessados em memória, arquivos, relatos pessoais e teatro documental. O programa acontece no Centro Cultural da Justiça Federal, onde até 18 propostas inéditas serão desenvolvidas coletivamente.

O processo culminará em um espetáculo de criação coletiva, apresentado gratuitamente no dia 29 de julho, no Sesc Copacabana, encerrando a experiência prática conduzida pela artista argentina.

A metodologia do Biodrama rompe com a lógica da ficção tradicional ao transformar biografias, objetos, lembranças e experiências cotidianas em linguagem cênica. Em vez de representar personagens inventados, a proposta revela a potência dramática existente nas pessoas, em suas relações e em suas memórias.

Questionada pelo PittaPlay sobre o impacto das memórias digitais no teatro documental, Vivi explicou que sua pesquisa segue outra direção. “Estou trabalhando a ideia do passado como ficção. Todo relato da memória é uma versão dos fatos. Entramos nessa versão da ficção e vamos armando a própria dramaturgia”.

Para a artista, esse processo também transforma quem cria: “Todas as minhas obras me transformaram. O que me fascina é que o teatro me leva para outros mundos, não apenas para o próprio teatro”.

A diretora também destacou que o Biodrama depende de consentimento e construção coletiva. Segundo ela, as histórias pertencem aos participantes, que se tornam coautores da obra: “A pessoa precisa dizer que sim. O Biodrama trabalha essa relação entre o pessoal, o íntimo e o público, entendendo que a história individual também dialoga com questões políticas e sociais”.

A presença de Vivi Tellas marca um dos principais momentos da segunda edição do FID:RIO, festival que nasce da aproximação entre o tradicional FID:BA, de Buenos Aires, e a cena cultural carioca. Reunindo cinema, teatro, música e artes visuais, o evento dedica sua programação às diferentes formas de não ficção e experimentação artística, colocando o Biodrama no centro das discussões sobre memória, criação e novas maneiras de transformar experiências reais em linguagem cênica.

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