Foto: João Mário Nunes
Poucas personagens carregam tantas camadas quanto Victoria. Ao longo de Victor/Victoria, ela assume identidades, atravessa fronteiras impostas pela sociedade e aprende a existir em um mundo que constantemente tenta definir quem as pessoas devem ser. Mas, para Alessandra Verney, a grande força da obra não está apenas na transformação da protagonista, mas naquilo que segue ecoando.
Em entrevista ao Pittaplay, a atriz falou sobre a construção da personagem, a responsabilidade de assumir um papel eternizado por nomes como Julie Andrews, Liza Minnelli e Marília Pêra, os desafios do teatro musical e a busca universal por pertencimento que atravessa a história.
Mais do que uma conversa sobre um espetáculo, a entrevista se transforma em uma reflexão sobre identidade, coragem e a necessidade humana de ser aceita por quem realmente é.
Quando interpretar também é se revelar
Embora o trabalho do ator seja, aparentemente, o de interpretar outras pessoas, Alessandra acredita que o teatro acaba produzindo o efeito contrário: “Paradoxalmente, acho que é onde mais nos revelamos. O trabalho do ator passa por interpretar outras pessoas, mas, para fazer isso com verdade, acabamos acessando emoções, memórias e aspectos muito profundos de nós mesmos.”
Para ela, existe uma relação direta entre essa descoberta pessoal e a jornada de Victoria: “Talvez seja isso que torne a trajetória da personagem tão fascinante: ao assumir diferentes identidades, ela não se afasta de quem é, mas acaba descobrindo ainda mais sobre si mesma.”
A atriz acredita que o teatro compartilha exatamente essa mesma busca.
Quando Victoria deixou de ser apenas uma personagem

Existe momento em que a técnica dá lugar à experiência e o ator deixa de construir racionalmente uma personagem para simplesmente compreendê-la. Foi assim que Alessandra percebeu que Victoria havia começado a existir dentro dela: “Acredito que foi quando me apropriei, de fato, do texto. A partir disso, comecei a ouvir de verdade o que estava acontecendo em cena.”
Segundo ela, a transformação acontece quando as escolhas da personagem passam a fazer sentido de forma intuitiva: “Com a Victoria, percebi isso quando suas escolhas começaram a fazer sentido para mim de forma instintiva. Eu não precisava mais pensar em quem ela era, eu a conhecia.”
A busca universal por pertencimento
Embora Victor/Victoria seja frequentemente lembrado pelas discussões sobre gênero, performance e aparência, Alessandra enxerga outro tema no centro da narrativa: “Acho que a grande força dessa história está em mostrar que todos nós queremos ser vistos e aceitos por quem realmente somos.”
Para ela, a trajetória da protagonista fala sobre algo profundamente humano: “A Victoria cria identidade para sobreviver e encontrar seu lugar no mundo, mas a jornada dela revela algo muito universal: a busca por pertencimento.”
É essa característica que mantém a obra atual mesmo décadas após sua criação: “Independentemente da época em que vivemos, todos queremos encontrar espaços onde possamos ser autênticos, sem medo de julgamentos.”
O peso de um legado histórico
Assumir personagem que passou por Julie Andrews, Liza Minnelli e Marília Pêra não é tarefa simples. Alessandra reconhece o tamanho da responsabilidade e não esconde a admiração pelas artistas que vieram antes: “É uma enorme honra dar vida a personagem que foi interpretada por artistas tão extraordinárias.”
A ligação com Marília Pêra, inclusive, é ainda mais especial: “Tive o privilégio de trabalhar com a Marília e de acompanhar o processo dela como atriz em Alô Dolly. Foi bárbaro.”
Ao invés de buscar reproduzir interpretações anteriores, Alessandra prefere partir da essência da personagem: “O meu ponto de partida é sempre a Victoria: entender quem ela é, o que ela deseja e o que essa história tem a dizer hoje.”
Reinvenção sem perder a essência
Uma das discussões centrais do espetáculo é a necessidade de transformação para continuar existindo artisticamente. Para Alessandra, essa reinvenção acaba sendo inevitável para quem vive da arte: “Acredito que, em algum momento, ela se torna uma necessidade.”
Mas ela faz questão de diferenciar reinvenção de ruptura: “A reinvenção, para mim, não significa abandonar quem você é, mas permitir que sua trajetória continue evoluindo.”
É por isso que a história continua dialogando com diferentes gerações: “Ela fala sobre a coragem de se adaptar sem perder a própria essência.”
O aprendizado do encontro

Ao dividir a cena com Miguel Falabella, Maria Clara Gueiros e Junno Andrade, Alessandra reforçou uma convicção que já carregava sobre o teatro: “O maior aprendizado foi perceber, mais uma vez, que o teatro é uma construção coletiva.”
Para ela, o encontro entre diferentes experiências é parte fundamental do processo criativo: “Cada ator traz sua experiência, sua sensibilidade e sua forma de trabalhar, e é justamente desse encontro de diferentes processos que nasce algo maior.”
Técnica e vulnerabilidade
No teatro musical, a precisão técnica é indispensável. Mas Alessandra acredita que a emoção surge justamente quando o ator consegue ultrapassar essa estrutura: “A técnica é fundamental porque ela sustenta o espetáculo.”
Segundo ela, quanto mais preparado está o artista, maior sua liberdade para viver a cena: “Quanto mais preparado você está, menos precisa pensar na execução e mais pode se conectar ao momento, aos colegas e à história.”
O medo como combustível

Depois de anos dedicados ao teatro musical, Alessandra afirma que continua buscando personagens complexos e desafiadores. A diferença é que hoje existe mais confiança no próprio processo: “O que mudou foi a experiência. Hoje, tenho mais repertório, mais maturidade e uma compreensão maior do meu ofício.”
Essa maturidade também alterou sua relação com o medo: “Acho que isso acontece quando você entende que o medo não está ali para te impedir, mas para te lembrar da importância daquilo que está fazendo.”
Ao invés de combatê-lo, ela aprendeu a utilizá-lo como combustível criativo: “Quando o medo vem acompanhado de entusiasmo, ele deixa de ser um obstáculo e passa a ser um sinal de que ainda estou me arriscando, aprendendo e crescendo como artista.”
Uma história que continua depois do aplauso
Ao final de cada apresentação, Alessandra espera que o público leve consigo algo maior do que apenas a lembrança de uma boa performance: “Espero que o público saia do teatro levando um pouco de tudo isso.”
Que se encante com Victoria. Que se emocione com suas vulnerabilidades. Que reflita sobre identidade, pertencimento e aceitação.
Mas, acima de tudo, que a história continue viva depois do fim: “Quando uma história continua reverberando depois que as luzes se apagam, sinto que ela cumpriu seu papel.”
