Entrar em uma série consolidada costuma ser desafio para qualquer ator. Quando essa série se chama Impuros, fenômeno que atravessou o streaming e conquistou base de fãs apaixonada ao longo dos anos, a responsabilidade se torna ainda maior. Para Lucas Popeta, porém, o desafio veio acompanhado de algo igualmente importante: reconhecimento.
Mais do que chegar a uma produção de sucesso, o ator encontrou em Impuros universo que dialoga diretamente com experiências, códigos e realidades que conhece de perto. Essa identificação ajudou a construir sua conexão com Pedro dos Santos, personagem apresentado na sexta temporada da série do Disney+ e que promete provocar mudanças profundas na trajetória de Evandro do Dendê.
Mas a conversa com Lucas vai muito além do audiovisual. Ao falar sobre teatro, dramaturgia, identidade e representatividade, o ator revela um projeto artístico que tem como objetivo ampliar o olhar sobre o Brasil e sobre pessoas que, muitas vezes, permanecem invisíveis dentro das narrativas tradicionais.
Um encontro com um universo já conhecido
Lucas não esconde o entusiasmo ao falar da chegada à série: “Foi uma alegria enorme chegar a um universo que já possui conexão tão forte com o público. Impuros conseguiu algo interessante, mesmo sendo produção do streaming, furou a bolha e passou a fazer parte das conversas das pessoas, alcançando diferentes públicos e criando uma base de fãs muito apaixonada.”
Mas o convite ganhou dimensão ainda mais especial por conta da identificação pessoal com aquele ambiente: “Existe identificação muito pessoal com aquele universo retratado, com as vivências, os códigos e as histórias que, de alguma forma, dialogam com minha trajetória e com a realidade de muitos brasileiros. Isso trouxe responsabilidade ainda maior, mas também motivação enorme para entregar o meu melhor.”
Pedro dos Santos e a descoberta de uma nova história

Na sexta temporada, Lucas interpreta Pedro dos Santos, personagem que chega à trama sem imaginar que sua vida está prestes a mudar completamente. Meio-irmão de Evandro do Dendê, Pedro entra em narrativa construída aos poucos, sem atalhos e sem revelações imediatas.
“O que mais me interessou nessa relação é justamente a forma como ela vai sendo construída ao longo da narrativa. A aproximação entre Pedro e Evandro não acontece de maneira direta. Ela vai se desenrolando através de outras pessoas e acontecimentos, como se o cerco fosse se fechando aos poucos até que esse encontro se torne inevitável.”
Segundo o ator, a descoberta impacta profundamente os dois personagens: “Para o Evandro surge o peso de perceber que talvez pudesse ter feito escolhas diferentes se soubesse da existência desse irmão antes. Já para o Pedro acontece um choque de realidade muito forte, porque ele jamais suspeitou de nada e acreditava que a vida que estava vivendo era toda a verdade. Quando essa ficha cai, tudo ganha um novo significado para ele.”
Construindo um personagem entre ambição e lealdade

Pedro é descrito por Lucas como homem ambicioso, mas fiel aos próprios valores, combinação especialmente interessante dentro de uma série onde sobrevivência, poder e moralidade frequentemente entram em conflito.
“De certa forma, todos nós temos algo que nos aproxima dos personagens que interpretamos. Essas características do Pedro, como a lealdade aos seus valores, a ambição e a integridade, também dialogam muito com quem sou, Lucas Popeta.”
Ao mesmo tempo, ele destaca que o personagem possui vivências muito diferentes das suas: “Pedro é empreendedor do ramo de açaí, jovem negro com trajetória e experiências próprias. Então, além dessas características em comum, existem muitas outras camadas, conflitos e vivências que precisei construir para dar vida ao personagem.”
Para o ator, é justamente essa complexidade que torna a interpretação interessante: “É isso que faz com que o público encontre um personagem humano, cheio de nuances.”
O poder dos silêncios em Impuros
Embora seja conhecida pelo ritmo acelerado e pelas sequências de ação, Impuros também dedica atenção especial aos conflitos emocionais dos personagens. E foi nesse espaço que Lucas encontrou ferramentas importantes para construir Pedro.
“Uma coisa muito importante é o texto que chega para a gente. Nele, já encontramos muitas informações que vão preenchendo e construindo o personagem.”
O ator também destaca a importância do trabalho realizado pelo diretor Tomás Portella: “Contamos com roteiros muito bem escritos e com direção que incentiva a investigação dos personagens. O Tomás costuma dizer algo que marcou bastante o processo: ‘Vocês sabem mais dos seus personagens do que eu. Então, brinquem!'”
Segundo Lucas, essa liberdade permitiu explorar não apenas as falas, mas também os gestos, os olhares e os silêncios: “Foi a partir dessa troca entre o texto, a direção e a nossa própria investigação como atores que fui construindo a composição física e emocional do Pedro.”
Lealdade, coragem e escolhas difíceis

Lucas diz que na sexta temporada, Pedro é colocado diante de situações que desafiam tudo aquilo em que acredita: “O público pode esperar muitas nuances e algumas viradas interessantes. Pedro é um personagem muito leal aos seus valores e às pessoas que ama, mas a temporada coloca todos diante de situações-limite.”
Segundo ele, será justamente nesse conflito que novas camadas vão surgir: “Em alguns momentos, ele vai precisar encontrar coragem para ser desleal à sua realidade atual e questionar caminhos que pareciam definidos. É nesse conflito entre lealdade, ambição, afeto e sobrevivência que o personagem cresce.”
Dividindo cena com referências
A chegada a Impuros também representou a oportunidade de trabalhar ao lado de artistas que admirava há anos: “Foi a realização de um sonho. Em um dia você está assistindo à série e admirando o trabalho de artistas que são referência para você. No outro, está no mesmo set, dividindo cena com o Raphael Logam e ajudando a contar essa história.”
Mais do que a troca artística, Lucas destaca o acolhimento encontrado nos bastidores: “Existe acolhimento muito grande na equipe. Estar em Impuros me mostra que estou no caminho certo, crescendo dentro da profissão e aprendendo com profissionais que admiro profundamente.”
O artista que também escreve
Paralelamente ao audiovisual, Lucas vem construindo uma trajetória cada vez mais sólida na dramaturgia autoral, especialmente através do espetáculo Quebrando Paradigmas.
Para ele, atuar e escrever são atividades diferentes, mas inseparáveis: “É um aprendizado muito completo. Estar nesses dois ambientes, que parecem distintos, mas na verdade se complementam, me enriquece como artista e amplia a minha visão sobre a construção de histórias.”
Quando escreve, seu olhar se volta para a narrativa como um todo: “Penso nos conflitos, nas mensagens e nos personagens. Já como ator, meu foco é dar vida a essas histórias a partir de uma perspectiva mais íntima e humana.”
Essa multiplicidade de funções também está ligada a uma ideia que o acompanha como artista: “Sempre me inspira uma ideia muito presente entre artistas das décadas passadas: exercer a própria autonomia artística. Quanto mais você se permite criar, pesquisar e experimentar, mais amplia suas ferramentas.”
“O Brasil é construído por pessoas que a gente ainda não conhece”

Ao falar sobre identidade e representatividade, Lucas resume sua visão de mundo em uma frase que atravessa praticamente todos os seus projetos: “O Brasil é construído por pessoas que a gente ainda não conhece.”
Para ele, a arte tem papel fundamental nesse processo de descoberta: “Quem são essas pessoas? Precisamos descobri-las, conhecer suas histórias e dar nome a elas, para que o Brasil se torne cada vez mais diverso e ofereça condições mais iguais de conhecimento e oportunidades para todos.”
Essa busca aparece tanto em seu trabalho como ator quanto em suas criações autorais: “No teatro e na dramaturgia, busco justamente provocar essa consciência no público, trazendo à tona histórias, perspectivas e personagens que muitas vezes não foram ensinados, valorizados ou sequer apresentados.”
O futuro entre o teatro, o cinema e a pesquisa
Enquanto segue gravando a sétima temporada de Impuros, Lucas também prepara novos passos em outras áreas da carreira: Entre eles está a circulação de Quebrando Paradigmas por diferentes cidades do país: “É um projeto que tem uma missão artística, mas também educativa e social. Meu desejo é que ele continue provocando reflexões por onde passar.”
O ator também aguarda a chegada do longa Machiatto, uma das apostas de seus próximos trabalhos: “O que podem esperar é alguém cada vez mais comprometido em contar histórias que ampliem o nosso olhar sobre o Brasil e sobre as pessoas que ajudam a construí-lo.”
Mais do que uma nova adição ao universo de Impuros, Lucas Popeta parece interessado em algo maior: usar a arte para revelar histórias, pessoas e experiências que nem sempre encontram espaço nos holofotes. Talvez seja justamente por isso que Pedro dos Santos chegue à série carregando tantas camadas. E talvez seja por isso também que o futuro do ator pareça apenas estar começando.
